Música,

O eterno Sorriso Negro

Em seu centenário de nascimento, Dona Ivone Lara, apesar de quebrar barreiras no mundo do samba, ainda parece ser uma exceção

13abr2022 - 04h51 | Edição #57

O ano é 1965, a alegria escorre pelas ruas do Rio de Janeiro, o entusiasmo dos foliões do Bloco Cacique de Ramos e a “alta classe” dos figurantes do Bloco Bafo da Onça são noticiados nos jornais. O Rio de Janeiro comemorava seus quatrocentos anos e, para homenageá-lo, os blocos celebravam o Rio antigo e as escolas de samba desfilavam enredos sobre a cidade da Guanabara. O fluxo de pessoas nas ruas era intenso, e os foliões atrapalhavam a chegada dos carros alegóricos à concentração na Candelária. No dia 28 de fevereiro, Maurício Sherman, jurado dos quesitos conjunto e evolução, afirmou que a Império Serrano, a oitava escola a desfilar naquela noite, era favorita ao título. Mas, quem é do ramo sabe, um detalhe pode transformar a favorita em preterida. 

No dia 1º de março, os representantes das agremiações se reuniram na Biblioteca Estadual do Rio de Janeiro para contar os votos, que levaram a Acadêmicos do Salgueiro à vitória com 132 pontos. Em segundo lugar, a Império Serrano, com dez pontos a menos. O belo desfile da escola da Serrinha não foi suficiente para superar o de Fernando Pamplona. Apesar disso, a história consagrou, um samba-enredo que, ao contrário do das concorrentes, entraria para os anais da música popular brasileira. 


Dona Ivone Lara (Acervo de família)

“Cinco bailes da história do Rio”, assinado por Silas de Oliveira, Antônio Oliveira, vulgo Bacalhau, e Yvone dos Santos, que se popularizaria como Dona Ivone Lara, além de ser um samba de qualidade inconteste, ostenta o título de primeiro samba-enredo de uma escola do grupo especial composto por uma mulher. Leonardo Bruno, no livro Canto de rainhas (Agir, 2021), explica que Dona Ivone Lara não entrou na parceria de primeira. Silas de Oliveira havia escrito o memorável samba do ano anterior, “Aquarela brasileira”, e gozava de certa credibilidade para escrever o samba daquele ano. Mas seus encontros de trabalho com o parceiro Bacalhau quase sempre terminavam em muito pileque e pouca música. A fim de resolver o entrave, Fuleiro, diretor de harmonia da escola e primo de Ivone Lara, fez o meio de campo e levou a dupla de compositores à casa da sambista.  

        
Livros sobre Dona Ivone Lara

Naquele dia, Silas, Bacalhau e Fuleiro não foram recebidos com sorrisos e afagos. Oscar, marido de Dona Ivone, não gostou da ideia: “Depois de fazer a janta e deixar a mesa pronta, falei com eles”, contou a compositora. O episódio é simbólico e revela muito do que foi a sua vida. No livro Dona Ivone Lara: a primeira-dama do samba (Sonora, 2015), Lucas Nobile faz uma radiografia da sambista e se, por um lado, fica claro que algumas mulheres eminentes foram essenciais na formação de Dona Ivone — sua mãe, Emerentina; Zaíra de Oliveira, sua professora; e Tia Maria Teresa do Jongo, entre outras —, percebe-se também que para serem ouvidas essas mulheres tiveram que driblar as mais difusas estratégias de silenciamento. 

Em entrevista a Mila Burns publicada no livro Dona Ivone Lara: Sorriso negro (Cobogó, 2021), a sambista explicou que, muito antes do sucesso do Carnaval de 1965, ela já compunha sambas que eram mostrados aos outros como se fossem do primo Fuleiro: “Era um sucesso. Ele tocava e todo mundo gostava, elogiava, perguntava de onde ele tinha tirado a ideia. Eu ficava de perto, vendo aquilo, ouvindo o que diziam e pensando que era tudo meu”. Tanto a biografia de Nobile quanto as análises de Bruno e Burns apontam que os modos de enfrentamento de Dona Ivone nunca foram diretos e violentos. Certamente, a apropriação dos sambas privava a compositora do reconhecimento entre os sambistas; no entanto, essa era uma estratégia empreendida pela própria Ivone para ser ouvida. A imagem evocada pelo célebre samba “Alguém me avisou” ilustra sua dinâmica de resistência e drible: Ivone Lara chegou “pisando devagarinho”. 

Resistência pela existência

Burns faz uma análise do álbum Sorriso negro (1981), localizando a obra em um contexto de desenvolvimento dos movimentos negros e das ideias feministas. A autora argumenta que, ainda que Dona Ivone nunca tenha assumido um ativismo, a sambista tensionou uma sociedade que se construiu sob uma dinâmica de exclusão e extermínio da mulher e do negro. Mila Burns fala em “resistência pela existência”. Em um epílogo pessoal e afetivo, a autora sublinha que a trajetória de Dona Ivone Lara não é a de uma “vítima desafortunada da sociedade brasileira”, mas de uma mulher que, em busca de estabilidade financeira e autonomia, tomou as rédeas da sua vida, dedicando-se ao trabalho de enfermeira e assistente social e, depois, à música.

Os livros apontam que os modos de enfrentamento de Dona Ivone nunca foram diretos e violentos

Dona Ivone Lara faria cem anos no dia 13 de abril. Em uma carreira musical iniciada efetivamente depois dos cinquenta anos, gravou quinze álbuns, compôs mais de uma centena de músicas e abriu as portas para gerações de sambistas. Mas passaram-se 57 anos desde “Cinco bailes da história do Rio”, e Ivone Lara permanece uma exceção. Nenhuma outra mulher até o Carnaval de 2022 assinou um samba da escola da Serrinha. Paradoxalmente, em 2020, o empoderamento feminino foi tema da Império Serrano, com o enredo “Lugar de mulher é onde ela quiser”, assinado por treze homens. 

Infelizmente, mais do que documentos historiográficos ou perfis biográficos, os livros de Lucas Nobile, Leonardo Bruno e Mila Burns permanecem atuais e necessários. Com o “Axé de Ianga” e muita luta, os movimentos sociais têm colocado as demandas feministas na pauta do dia e confrontado o mito da democracia racial que mascarou as dinâmicas de exclusão e privilégios deste país. O legado de Dona Ivone Lara nunca foi tão político quanto é hoje.

Quem escreveu esse texto

Marcos Ramos

É professor na Universidade Nacional da Colômbia. Publicou Balaio de Gato (Artigos, 2022) e Anatomia da elipse: escritos sobre nacionalismo, raça e patriarcado (Cousa, 2018).

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.