Literatura,

Viver para narrar

Memórias da dinamarquesa Tove Ditlevsen revelam a força de transformar a própria experiência em linguagem

01nov2023 - 18h48 | Edição #76

Em uma passagem no final de A trilogia de Copenhagen, Tove Ditlevsen acorda entorpecida e desidratada e se dá conta de que não vê os próprios filhos há muito tempo. Com dificuldade, levanta e vai até o quarto onde eles dormem e se assusta ao perceber que já quase não conhece aquelas crianças. Ao voltar para a cama, um pensamento lúcido lhe ocorre: se as coisas desandassem completamente, ela falaria com um médico sobre o vício em opioides que a havia afastado da família e amigos. “Não o faria apenas por meus filhos, mas pelos livros que eu ainda não havia escrito”, afirma.

A trilogia de Copenhagen reúne num único volume Infância, Juventude e Dependência

A frase curta e franca resume o que move as memórias da escritora dinamarquesa, publicadas no seu país nos anos 60 e 70, e que finalmente chegam ao Brasil. A trilogia de Copenhagen reúne num único volume Infância, Juventude e Dependência. Os três relatos de Ditlevsen narram dos primeiros anos num bairro operário da capital dinamarquesa — onde rabiscava em segredo seus primeiros poemas — à maturidade como escritora consagrada no país, passando por quatro casamentos e pela dependência em medicamentos que a levaria à morte em 1976, aos 58 anos.

Os três relatos de Ditlevsen narram dos primeiros anos num bairro operário à maturidade como escritora consagrada, passando pela dependência que a levaria à morte, aos 58 anos.

Anunciada por aqui como uma precursora de Elena Ferrante e Annie Ernaux, a dinamarquesa começou a carreira como poeta, depois de vencer a timidez e inúmeras regras morais impostas a mulheres de então e de hoje. Enquanto Ferrante dedica páginas para narrar uma violência sexual (Tetralogia napolitana) e Ernaux escreveu um livro inteiro sobre a experiência de um aborto ilegal (O acontecimento), a narrativa em primeira pessoa de Ditlevsen registra com a mesma concisão e franqueza brutal experiências traumáticas — o desconforto das primeiras experiências sexuais, uma tentativa de suicídio na adolescência e a interrupção de uma gravidez numa clínica clandestina: 

Não me arrependo do que fiz, mas nos escuros meandros da mente ainda há pegadas leves como que de pés de criança em areia úmida.

Atormentada por uma angústia desde os primeiros anos, Ditlevsen atravessa a vida com a inabalável vontade de escrever. Sua infância foi “longa e estreita como um caixão”, e ela descreve as memórias dessa época como uma “biblioteca de alma de onde hei de extrair conhecimento e experiência pelo resto da minha vida”. Desencorajada pelo pai — militante socialista, demitido de um emprego atrás do outro, e que afirma que “uma menina não pode ser poeta” —, mantém em segredo seus versos “cheios de mentira”, como acusa o irmão ao descobrir seu caderno secreto. Pouco depois de completar vinte anos, Ditlevsen se aproxima de um editor que publica sua primeira coletânea de poemas e se torna o primeiro dos quatro maridos, numa relação mais intelectual que afetiva. A necessidade de narrar a acompanha nas muitas internações para tratar a dependência química, nas quais mantém um caderno para anotar ideias quando está desperta.

Marcas

A prosa urgente de Ditlevsen, na forma de entradas de diário, não se detém no mundo ao redor. Presenciamos a ascensão do nazismo na Alemanha pela adoração a Hitler da dona da pensão onde ela vai morar no bairro de Østerbro. O fim da guerra é comemorado enquanto conhece Carl, médico que se torna seu terceiro marido e que a mergulha no vício em sedativos. “Não tenho maior apreço pela realidade”, escreve a certa altura.

Essa escrita quase sem emoção é interrompida por arroubos poéticos, que parecem querer direcionar o leitor para aquilo que importa para a narradora: a luminosidade de um mundo interior rico em imagens, versos, palavras exatas. “Em confronto com os modernistas da Dinamarca, a maioria homens, que tinham um certo desprezo por sua obra, ela dizia que não há nada tão complicado na vida que não possa ser descrito com um vocabulário básico de cem palavras que qualquer pessoa entende”, diz Luciano Dutra, tradutor gaúcho que vive na Islândia e verteu para o português alguns poemas da escritora.

Outra traço marcante da autora é a maneira como cria cenas. “Ela narra tudo no presente, mesmo falando do passado. Essa é uma tradição das línguas nórdicas, que vem das sagas”, explica a poeta e tradutora Francesca Cricelli. “Isso desenha cenas muito vívidas, nos coloca dentro daquela situação.” A atenção a certos detalhes que passariam despercebidos são, para Cricelli, a marca de uma poeta escrevendo em prosa. “A poesia é que parece orientar o pensamento dela.”

Esse ritmo da narrativa, que ora avança e ora desacelera sem se deter necessariamente em grandes feitos, é também produto da tradução do dinamarquês por Kristin Lie Garrubo e Heloisa Jahn (1947-2022). Apesar do esmero, Dutra nota que algo da sagacidade da autora se perde. “Gift”, título original do terceiro volume, significa ao mesmo tempo “casada” e “tóxico”.

A ‘obsessão’ por escrever é central na obra de Ditlevsen, a ponto de ter deixado pronto o próprio obituário

Escritos quando já havia se tornado um nome popular da literatura dinamarquesa, entre internações, os volumes da Trilogia têm ainda elementos do künstlerroman, o romance do artista, segundo Flavio Quintale, professor de teoria literária e literatura comparada. Para ele, a “obsessão” por deixar sua marca como escritora é o aspecto central da obra de Ditlevsen, a ponto de ter escrito, três anos antes de morrer, o próprio obituário.

“Antes de sua morte prematura, Tove Ditlevsen foi capaz de escrever mais de uma série de livros, dos quais os mais importantes são suas memórias”, escreveu a própria autora em 1973, não sem se ressentir da solidão dos últimos anos. “Infelizmente, seus contemporâneos não apreciaram sua honestidade, o que acabou fazendo com que nenhum homem ousasse conversar com ela na rua por medo de aparecer em seu próximo volume.”

Cinquenta anos depois, e agora traduzido para mais de trinta idiomas, A trilogia mostra que a escritora tinha razão como narradora da própria vida. Que esta descoberta tardia revele aos leitores, além da honestidade e lirismo, a destreza incomum de Tove Ditlevsen em transformar a própria experiência em linguagem.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #76 em novembro de 2023.