Crítica Literária,

A presença de Elena Ferrante

Livro compila análises sobre a autora enquanto registra o alcance da sua obra e dos afetos despertados por ela

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

A prosa de Elena Ferrante é um vórtice: movida por uma potência estranha, arrasta e envolve de modo violento. A tetralogia napolitana (publicada pela Biblioteca Azul) e suas mais de 1.700 páginas têm o poder de tragar o leitor para dentro do universo narrativo com tamanha força que o encontro com o ponto-final pode ser experimentado como uma espécie de luto. E, diante do vazio da perda, Elena Ferrante: uma longa experiência de ausência pode ter algum efeito de restituição. 

O primeiro acolhimento encontrado pelo leitor órfão de Lila e Lenu, protagonistas da série de Ferrante, é um mosaico de vozes sobre a romancista. Dividido em seis partes, o livro da psicanalista e crítica literária Fabiane Secches conta com um prefácio de Francesca Cricelli, tradutora de Dias de abandono (Biblioteca Azul), e um posfácio de Maurício Santana Dias, tradutor de A amiga genial e dos três volumes subsequentes que formam a série napolitana. O livro é aberto e fechado, portanto, por olhares responsáveis pelo ofício da recriação em português do notável vigor narrativo da escritora italiana. A multiplicidade de perspectivas é ampliada ainda mais no quinto capítulo, o qual conta com comentários de escritores como Carola Saavedra e Daniel Galera, bem como de pesquisadores e críticos literários sobre todos os romances do pseudônimo que causou tanto rebuliço na literatura contemporânea. 

Como um clube do livro por escrito, Uma longa experiência de ausência é um debate rico e variado sobre Ferrante. Diante do magnetismo inquestionável e das reações diversas que despertou na crítica, a compilação de análises é valiosa tanto como interesse histórico — o registro do alcance da obra e dos afetos despertados por ela — como pelo delineamento da fortuna crítica que um texto tão sedutor merece. 

Os lacres rompidos

A escrita de Ferrante é movida pelo desejo de compreensão. A tentativa de ordenar o mundo, entoada por um ritmo sóbrio e pessimista, encontra as experiências de colapso como impasses. A prevalência do tema do despedaçamento no ato de narrar fez surgir dois particulares nomes: frantumaglia e desmarginação. O primeiro é uma palavra em dialeto napolitano, apresentada no livro homônimo publicado pela Intrínseca em 2017, e o segundo está presente na saga napolitana e consiste em um mal-estar caracterizado pela sensação angustiada de dissolução dos contornos que separam o corpo do que lhe é exterior. Nesse movimento, a maternidade e a amizade perdem a obviedade da ternura e da abnegação para serem campos de rancores, ressentimentos e manifestações perversas de amor. 

Não há uma única interpretação possível em um universo narrativo onde, nas palavras de Secches, “No meio dos momentos de companheirismo e dos gestos de lealdade espreita a competição e a traição. E o oposto também ocorre, de modo que uma força nunca se sobrepõe completamente à outra”. A partir da ambivalência da prosa de Ferrante, os ensaios passam pela capilaridade da tetralogia napolitana e pelo apagamento da autoria para espalhar rastros por todas as narrativas escritas pelo pseudônimo nos últimos trinta anos, não deixando de fora nem mesmo a história infantil Uma noite na praia (Intrínseca) e o romance mais recente, A vida mentirosa dos adultos (Intrínseca), que chega às livrarias brasileiras em setembro. 

A construção do pseudônimo, então, encontra as vozes presentes nos romances pelo paradoxo entre ausência e presença. As formas com que a autora se apaga como um rosto para ganhar materialidade pela palavra são comparadas às várias maneiras como Lila, desaparecida sem deixar rastros, habita em Lenu, a narradora que se dedica a lembrar a vida e as marcas não tangíveis deixadas pela amiga. 

Como um clube do livro por escrito, a obra é um debate rico e variado sobre a escritora italiana

Ferrante nos presenteia com uma série de referências em seus textos. E quem mergulhou na narrativa de A amiga genial pode encontrar certa emoção na investigação desses vestígios; é também um jeito de preservar o enredo na imaginação. Secches destaca a imagem da escrita como tecelagem que Ferrante constrói em Frantumaglia; em seu livro, também há um esforço de costurar os romances da autora com suas engrenagens internas. A análise da psicanalista também abriga a construção de uma linhagem mitológica que chama a atenção para aspectos facilmente negligenciados por uma leitura mais ligeira. 

O eco da costura

Secches supõe que parte da potência de Ferrante em perturbar e prender o leitor reside na produção de um “efeito de autenticidade” na construção de suas personagens, sendo difícil crer que elas seriam apenas criações literárias. Essa abordagem é também um convite para refletir sobre a força da literatura em criar verdades capazes de transformar a percepção da realidade material. Essa é uma virtude do trabalho de Secches: o livro propõe como método de leitura uma atenção aos mecanismos formadores de um texto. E o enorme alcance de Ferrante, aliado à falta que se sente de Lila e Lenu, pode atrair muitos leitores a um tipo de  investigação que não passa apenas pelo que contam os romances, mas também destacando as minúcias de como contam. 

Outro ganho valioso é o acervo do seu percurso interpretativo, sendo que boa parte do material deriva de pesquisas realizadas em universidades brasileiras, sobretudo públicas. Uma preciosa propagação do conhecimento na área de letras produzido no país, ainda mais considerando o contexto atual, em que se tornou muito comum uma hierarquização um tanto desonesta de áreas do saber que supostamente seriam mais dignas de receber investimento público do que outras. A valorização por Secches da riquíssima produção da pesquisa brasileira é um verdadeiro alento, porque, a partir da prosa de Ferrante, traz à tona questões profundamente humanas, como a intrincada teia de afetos que anima o corpo até do mais convicto terraplanista.  

Quem escreveu esse texto

Iara Machado Pinheiro

É crítica literária, doutoranda em letras pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.