A escritora mauriciana Ananda Devi (J.F. Paga/Editions Grasset/Divulgação)

Literatura,

Troumaron é aqui

Nos escombros de um bairro periférico esquecido, a autora mauriciana Ananda Devi retrata as vozes de quatro jovens que ninguém ouve

01nov2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99

Enquanto lia Eva dos seus escombros, de Ananda Devi, pensei muito sobre o lugar onde se passa o romance, Porto Luís, capital das Ilhas Maurício, onde nasceu a autora, em 1957. Uma breve pesquisa de imagens se transformou em horas de fotos de belas praias, resorts e céu azul. Não encontrei nenhuma que não parecesse um cartão-postal, ou seja, que retratasse as descrições de Devi.

Porto Luís é uma das protagonistas do livro. Mais exatamente, uma parte dela não registrada em cartões-postais: o bairro fictício de Troumaron — cujo nome é um trocadilho que pode ser lido como “buraco marrom” ou “buraco para marrons”. Na colonização francesa do Caribe, marrons eram as pessoas escravizadas, africanas, que fugiam e criavam comunidades autônomas, com conhecimento e sistemas políticos próprios. Eram as marronages, similares aos quilombos no Brasil. 

Esse “buraco” me faz pensar no que resta dessas comunidades quando são arrasadas e não há políticas públicas de reparação. E, embora o livro não nos ofereça respostas, podemos esmiuçar a palavra do título: escombros. Já nas primeiras páginas, uma das vozes nos apresenta essa geografia social:

Troumaron é um tipo de funil; o último ralo onde se despeja o esgoto de todo um país. […] Porto Luís se agarra a nossos pés, mas não nos arrasta consigo. A cidade nos dá as costas. Seu zumbido de lava surda se detém em nossas fronteiras. A montanha nos obstrui a visão de outra coisa. Entre a cidade e a pedra, nossos prédios, nossos entulhos, nossos lixos.

Nessa paisagem de escombros, nos tornamos íntimos da cidade e de quatro jovens estudantes (que frequentem a escola já é um diferencial) cujas vozes se alternam numa série de monólogos curtos. Eva é estudante promissora que na infância se permitiu ser tocada por um garoto em troca de material escolar, prática que mantém, inclusive com um dos professores.

Não pertenço a Troumaron. O bairro não me roubou a alma como a dos outros robôs que moram ali. […] Querem quadros rígidos. Moça para casar, moça para pegar e jogar fora. São as duas únicas categorias que conhecem. Mas não pertenço nem a uma nem à outra. […] Meu corpo não será colonizado.

Saadiq, conhecido como Sad (triste, em inglês), é membro de uma gangue que domina o bairro desde o fechamento da fábrica têxtil que deixou a comunidade ainda mais à deriva. Sad é apaixonado por Eva. Entende as estruturas que os mantêm ali e tem sua vida transformada quando numa aula conhece a poesia de Rimbaud. Antes de encontrar sua voz poética, ele reescreve trechos do poeta em paredes e muros, como mensagens. Em sua última pichação, que se relaciona ao evento central do romance, Sad encontra seu eu lírico e mostra seu amadurecimento ético-poético: “sua boca de memória rubra se abre para receber o sangue do homem soberano”.

A narrativa vai da languidez poética a uma urgência cinematográfica, um ritmo acelerado

O terceiro jovem é Clélio, amigo de Saadiq, também membro da gangue do bairro e com um talento artístico, a música. Os que tiveram a rara sorte de ouvi-lo, incentivaram-no a trabalhar sua criatividade, quem sabe até ganhar a vida como cantor, mas Clélio é autodestrutivo e carrega a raiva legítima dos despossuídos. É movido pelo desejo de quebrar os objetos, de bater nos outros, de incendiar a cidade, metaforicamente ou não, e de expor o abismo entre classes. 

As pessoas me olham com esse jeito contente e idiota que me dá vontade de quebrar a cara delas. [] Acho que nasci desse jeito. Acho que vi o futuro e não gostei. E quando vejo pregos, tenho vontade de engoli-los ou de fazer alguém engolir.

Por fim, Savita. Seus pais são alienados da realidade, como se estivessem ali, na pobreza, por mero acaso. Dos quatro, é quem leva uma vida menos errante, ainda que não se veja protagonista dos sonhos e projetos alheados dos pais. Talvez sua rebeldia seja amar Eva, por quem é correspondida, vivendo um tipo de comunhão que os rapazes nunca irão compreender com sua misoginia. A maior parte dos momentos de ternura do romance as acompanha. A esse respeito, Eva comenta:

Sad fala de poesia quando estamos sozinhos. Mas não tem nenhuma ideia da poesia das mulheres. A poesia das mulheres é quando nós, Savita e eu, andamos juntas sincronizando nossos passos para evitar os buracos do chão. É quando brincamos de ser gêmeas porque somos parecidas. A poesia das mulheres é o riso, nesse canto perdido, que abre um pedaço de paraíso para não nos deixar afogar.

Apresentados os cinco protagonistas (contando a cidade), temos a segunda parte do livro. Começa com um evento repentino que muda a dinâmica das personagens e o tom da narrativa — de uma languidez poética a uma urgência cinematográfica, um ritmo acelerado.

Trilíngue

A voz poética das personagens me fez questionar a escolha literária da autora, e também minha noção que interliga raça, gênero e classe ao registro linguístico: os marginalizados têm mesmo que falar de forma considerada inferior? É lógico que não. Essa foi uma decisão de Devi, conforme contou em entrevista: “Mantive a poesia de suas vozes, que era a de seus pensamentos, a que ninguém jamais ouve”.

Em toda a narrativa podemos ler, além do português traduzido do francês, trechos e sintaxes em inglês e crioulo mauriciano, conforme a edição original, o que reflete a sociedade trilíngue mauriciana. A ilha é povoada por colonos (holandeses, franceses e britânicos), africanos descendentes de escravizados e imigrantes da Europa Ocidental, África Oriental, Índia e China. Ponto para o tradutor Daniel Augusto P. Silva, que consegue, em bom português brasileiro, reproduzir efeitos sonoros, poéticos e linguísticos, o que contribui para a sensação, para além do enredo, de que “Porto Luís é aqui! Troumaron é aqui!”.

Ainda que o suspense sobre o futuro dos jovens nos leve a reflexões desoladoras, o que permanece não é o mistério nem o pessimismo: é a poesia. Como diz Rimbaud, citado por Saadiq: “Eu sou jovem: segure a minha mão”. E seguimos, de mãos dadas, com nosso horizonte possível.

Especial Atlântico Negro Francófono

Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.

Quem escreveu esse texto

Nina Rizzi

Historiadora e poeta, escreveu Nina: Uma história de Nina Simone (Pequena Zahar, 2022) e Elza: A voz do milênio (VR Editora, 2023).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Troumaron é aqui”