Pequeno dicionário de usos e desusos

Literatura infantojuvenil, Poesia,

Pequeno dicionário de usos e desusos

Em vinte poemas sobre objetos, Edimilson de Almeida Pereira reinventa as coisas e o mundo dando nova vida à língua

01out2025 • Atualizado em: 30set2025 | Edição #98

E se o céu se chamasse chuveiro? E se o copo se chamasse bebedor? E se a casa se chamasse moradeira? (Opa, essa o Marcelo Marmelo Martelo já cantou!) As palavras foram criadas para nomear as coisas ou primeiro inventamos seus nomes e bum!, tudo passa a existir? Se digo “bola”, ela rola? Ou isso seria uma moeda? Se digo “balanço”, ele se desloca? Ou isso seria uma mala? Palavra é coisa de explicar ou de brincar? 

Para Edimilson de Almeida Pereira, ao menos em seu livro mais recente para as infâncias, Coisa sim, coisa não, certamente é uma invenção, um jeito de olhar do outro lado e muito mais. Nos vinte poemas que compõem o livro, encontramos diversos objetos conhecidos por (quase) todo mundo. São garfos, cadernos, chaves, relógios, óculos e tantas outras coisas de uso tão comum que é automático, mecânico até: olhar, nomear, saber. No entanto, na coletânea inauguram-se para as coisas uma nova vida e utilidade ou, por que não?, inutilidade — afinal, na poesia o inútil pode ser muito produtivo. Em cada página, a imaginação cria outras realidades e, nessa criação de mundos, nossa imaginação também se cria.

Sobretudo em sua forma literária, a linguagem cria o que nunca existiu

Na primeira infância sabemos que tudo pode ser criado, inventado, subvertido, transformado; esquecemos enquanto vamos crescendo e, paradoxalmente, aprendendo. Nos primeiros anos aprendemos o significado das coisas a partir das experiências sensoriais, ambientais e da interação com outras pessoas. Já na alfabetização aprendemos um princípio básico da relação nomes-coisas: tudo tem um nome, começando por nós, assim como lugares, objetos, sentimentos e conceitos. Esse princípio é tão absoluto que algo só pode existir, ser distinguido e compartilhado se for nomeado. O que não pode ser nomeado é devaneio, sonho, fantasia. Não à toa, na fase adulta tanto nos aflige não ter a palavra exata que explique os fenômenos: “não tenho palavras para dizer/ não sei explicar/ é uma coisa”. 

Ilustração de Larissa da Cruz (Divulgação)

A verdade é que palavra sobra. Tanta possibilidade há dentro de cada palavra e tantas são as palavras para dizer (quase) a mesma coisa. Além das palavras, a linguagem não é estanque. Carrega um significado e uma origem, mas pode mudar com o tempo, e muda, tal como nossa compreensão do mundo. Eu, por exemplo, já sei que um prato não é exatamente o que diz o dicionário (peça de louça, metal etc., geralmente circular e côncava, em que se serve comida), mas “um lago/ onde todos comem”; e que uma cadeira não é apenas um sentador, mas “a irmã mais lenta/ na família/ mais erma/ das tartarugas”.

A linguagem é coisa poderosa, se amendoa com o tempo e embeleza ou enfeia nossa perspectiva. A depender de como é usada, cria ambientes propícios para a efetivação material das ideias. Sobretudo em sua forma literária, cria o que nunca existiu.

Pura infância

Alejandra Pizarnik reflete, numa entrevista incluída em Prosa completa (Relicário, 2025), sobre a linguagem e sua poesia: “Sinto que os signos, as palavras, insinuam, aludem. Essa forma complexa de sentir a linguagem me leva a crer que a linguagem não pode expressar a realidade; que somente podemos falar do óbvio”; e, mais à frente, “busco que o poema se escreva como queira se escrever”. Ou seja, a linguagem é autônoma e a mão que escreve não tem total controle sobre sua escritura. Não há exatidão, ou, se há, talvez seja na errância, na lacuna, no não dito.

Na página de dedicatória de Coisa sim, coisa não, Edimilson se irmana a esse pensamento: “Este livro se deixou escrever em Genebra, entre setembro e novembro de 2000”. 

Ilustração de Larissa da Cruz (Divulgação)

Imagino o poeta, há 25 anos, naquele frio de roer os ossos do outono suíço, ele sabia que queria escrever poemas brincantes, porém não sabia como iriam se fazer: Edimilson, sentado e escrevendo, não sabe como seus poemas vão se escrever. Obviamente, isso não significa que não haja pensamento, criatividade e trabalho, conforme comentou n’A Feira do Livro de 2025 sobre a escrita para crianças: “Há uma dificuldade muito maior no processo criativo. Você lida com um leitor muito mais crítico e direto do que o leitor adulto. Então, envolve técnicas mais complexas”. Edimilson sabe o quê e como escrever sobre as coisas, seus usos e desusos, na linguagem pura da infância, como quem lança um

Novelo

Novelo é um ovo

de adivinhas.

Para apanhá-lo

só com maestria.

O novelo escapole

com o gato na esquina.

Rola entre o tecido,

cai, desvia

da mesa, se esconde

no guarda-roupa.

Para apanhá-lo

não adianta correria

nem pedir socorro

aos vizinhos.

Novelo é linha

que mais se alonga

ao coser o forro

de um casaco no frio.

Em perfeito diálogo com os versos, as ilustrações de Larissa da Cruz — feitas a giz, grafite e guache — dançam como poemas e se asseveram no corpo da cor: existe uma linguagem não verbal que não é inferior à escrita ou falada; uma linguagem que nos leva de volta à infância das coisas, dos nomes, como a um dicionário que desmantela a pseudossapiência em que nos criamos. E inventa formas de ver as coisas que, assim, já nem são mais as mesmas. É magia!

Quem escreveu esse texto

Nina Rizzi

Historiadora e poeta, escreveu Nina: Uma história de Nina Simone (Pequena Zahar, 2022) e Elza: A voz do milênio (VR Editora, 2023).

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “Pequeno dicionário de usos e desusos”

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