Literatura,
Palácio da memória
Em Ir até Havana, Leonardo Padura percorre becos e praças de um passado mítico e monta o mapa de uma cidade que ele não viveu
08dez2025 • Atualizado em: 13jan2026 | Edição #101O palácio da memória é um conhecido recurso de memorização. De raízes greco-romanas, ele ganha especial desenvolvimento na Idade Média devido ao uso no aprendizado da retórica. Um discurso é pensado a partir de uma edificação intrincada, com salas, corredores, varandas e colunas. As estruturas correspondem a pontos, em um percurso dinâmico, do que precisa ser lembrado. Subir uma escada pode ser a pista para elevar o tom do discurso ou o nível de abstração. Os conceitos fundamentais geralmente se localizam no andar térreo, pois sustentam o restante da construção. Passar de um cômodo a outro remete à transição mental e à mudança de assunto. A estratégia consiste em associar uma imagem arquitetônica familiar a um discurso, convocando a memória a transitar entre o já muito conhecido e o que ainda exige esforço para ser lembrado. Para além das palavras, o espaço serve de ancoradouro da recordação.
Havana é o palácio da memória de Leonardo Padura. É a partir dessa cidade, mapa íntimo de sua existência, que ele narra e desenvolve os fundamentos daquilo em que acredita. Havana é mais que um palácio — é o traçado das ruas e dos bairros que dá sustentação às hierarquias de valores do escritor. Padura se movimenta por uma Havana que não existe mais, uma cidade da sua infância na década de 50 e, a partir dela, tudo o que veio a seguir é visto como decadência, deterioração e mutilação.
Padura evoca um tempo em que Hemingway tomava seus daiquiris e o cinema florescia
Ir até Havana nos conduz por becos, praças, nomes e referências que não existem mais. A narrativa de Padura é de completa perda do ouro da infância, anterior à revolução, com seu esplendor luminoso: “Havana já era uma grande metrópole quando Miami mal existia”. Evoca um passado mítico em que Hemingway tomava seus daiquiris, músicos se encontravam em salões e o cinema florescia. A “Nice do Caribe”, com uma elegância que renegava o passado colonial: “Tudo era atraente, magnético, promissor de prazeres e, quero crer, bonito de verdade”. O fundamental aqui é o “quero crer”: Padura tinha apenas quatro anos quando o ditador Fulgencio Batista foi destituído. Suas impressões se mesclam, como acontece com todos nós, com o que lhe foi contado e vivido por outros.
A Havana adorada é bastante específica: sua identidade está atrelada a Mantilla, bairro periférico da cidade onde o autor nasceu e ainda vive. Por isso o título evoca a necessidade de ir — é preciso se deslocar para chegar ao centro, à cidade “verdadeira”, e deixar Mantilla para se conectar com os traços marcantes da memória. No par Mantilla/Havana se encontra o fascínio da descoberta, a ideia de que Havana era um território a ser conquistado e, nos termos de Padura, “possuído”.
Saqueio
O primeiro momento de perda é marcado pela ofensiva revolucionária em 1968. O fim das atividades comerciais, a plantação de café nos arredores da cidade, a expropriação de casas e terras — tudo é visto como saqueio às ruas resplandecentes de sua memória. A solução para o déficit habitacional, com a construção de novos edifícios residenciais, é descrita como o surgimento de “bairros de prédios apressados e sem estilo, nos quais se misturam cidadãos de diferentes procedências geográficas”. Para Padura, o desmonte é radical e fulminante. O autor fala em “decadência urbanística e espiritual” e enfatiza que o próprio conceito de bairro deixa de existir. No registro agônico, descreve o que vê como um processo de morte da cidade. Mas, em outro registro, quando narra acontecimentos de sua juventude, o bairro de La Víbora aparece vibrante, com parques públicos, palacetes e solares habitados por muitas famílias, e deu lugar aos primeiros encontros amorosos. O bairro de El Vedado, com restaurantes e cinemas, é retratado como refúgio dos músicos boêmios:
Naquele El Vedado ainda mágico, minha educação sentimental e cultural se intensificou e a cidade tornou-se cada vez mais minha: conheci muito mais que suas construções e monumentos, pois estava me apropriando aceleradamente de suas cores, seus cheiros, seus sons e até muitos de seus sentimentos, expressos na letra de suas canções e nos ritmos de suas melodias.
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A dissonância entre os registros gera desconfiança em quem lê, que não sabe se acredita no Padura que elabora o diagnóstico amplo sobre a morte de Havana ou se dá crédito ao relato nada morto de sua juventude na cidade. O autor introduz, então, o segundo momento de perda: a crise da década de 90, quando, em sua cronologia, Havana desliza para as ruínas.
Os salários perdem valor, os carros dão lugar a bicicletas chinesas, surgem os relatos de fome, as paredes descascadas e apoiadas em escoras de madeira:
O paradoxo que se segue é que aquela metrópole possuída, percorrida, em muitos casos até escrita, vai se transformando dia após dia numa urbe real rachada, turbulenta, abandonada, suja, que perde suas referências e, paulatinamente, começa a se converter numa cidade alheia.
Nostalgia
Padura se consolida como um narrador nostálgico que teme o mundo à sua volta. Tudo é marca de uma suposta perda de civilidade, carregada de tintas morais e de posicionamentos altamente conservadores. A trilha sonora do reggaeton que passa a ser ouvida nas ruas de Havana é chamada de “sórdida, como os tempos que correm, com seu ritmo repetitivo, como a realidade que o engendra e o alimenta”. A nova música, “escatológica”, é “a manifestação de uma perda de urbanidade e de confiança dos cidadãos”. Na visão do autor, a cidade perdeu seu gosto musical, arquitetônico e estético: “Como alguém me disse: há cada vez mais gente feia. E é verdade: a pobreza é feia.” Padura associa regiões de alta concentração populacional à “ultrajante promiscuidade”; reclama que há muito lixo nas ruas, que ninguém mais dá valor à propriedade privada. Soa mal, muito mal.
No olhar do autor, a capital cubana perdeu o gosto musical, arquitetônico e estético
Um palácio da memória pode ser mais que uma ferramenta mnemônica. Pode constituir o quadro a partir do qual nos situamos no mundo e contamos nossas histórias. E parece que Padura monta seu mapa a partir de uma cidade que ele mesmo não viveu. Um palácio da memória pode ser um bom guia, mas pode também ser aprisionador. Quando passa a ser bússola absoluta para analisar o mundo, estamos diante de muito mais do que nostalgia. Estamos diante da recusa das transformações que cercam o autor. Não se trata apenas de um grande escritor em sofrimento pelo que perdeu, mas de uma narrativa política que é, ela mesma, despolitizante.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Palácio da memória”
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