Poesia,
‘A memória é a única coisa que temos’, diz Raúl Zurita
Primeira antologia do chileno publicada no Brasil mapeia a geografia do testemunho do poeta e militante torturado pelo governo Pinochet
19jun2026Era um sábado pela manhã. Cheguei com passos apressados na entrada do hotel Jaraguá, na rua Martins Fontes, ao final da rua Consolação, em São Paulo. Sabia que esse não seria apenas um encontro para falar de um livro que acabava de ser publicado. A vida de quem me precede me lança a um terreno de intimidade atroz com pessoas até então desconhecidas.
Não conheci meus avós chilenos. Tampouco conhecia Raúl Zurita. Mas as palavras de quem é marcado pela violência de Estado se movimentam em outro plano; são sopros pesados, como passos numa dança firme, em que vida e morte estão sempre à espreita. São palavras que se reconhecem, como se já existissem há muito, como se também guardassem a esperança de continuar a existir por meio desses encontros.
Nascido em Santiago em 1950, Zurita tinha 23 anos e estudava engenharia quando Augusto Pinochet liderou o golpe militar no Chile. Não demorou para aquele jovem que já escrevia poesia ser preso e torturado pelo regime. Também não demorou para que essas experiências fossem contadas em Purgatorio, sua estreia literária, em 1979. As décadas, os livros e os prêmios seguiram, como o Pablo Neruda e o Rainha Sofia.
Zurita esteve em São Paulo em maio, para o lançamento de Sua vida quebrando-se, primeira antologia de poemas do chileno publicada no Brasil, pela Círculo de Poemas, organizada por Francesca Cricelli e Ana Rüsche, com tradução de Cricelli. Na conversa, aproximei meu rosto de Zurita para ouvi-lo. Gravei tudo, mas não podia confiar, precisava me colocar o mais perto possível. Zurita fala baixo, mas não sussurra ou hesita. Essa é a transcrição de parte do que conversamos — apenas parte, sempre algo nos escapa.
*
Poder te ler em português é um acontecimento. É impressionante como nos tomou tanto tempo para traduzir seus poemas. Acha que essa edição é uma reparação?
A edição brasileira me alegra muito. Mas não vejo como uma reparação. Vejo como um gesto de amizade e compromisso.
É inevitável ler sua obra como se fosse uma extensão da sua vida, como se as duas coisas fossem uma só. Em uma entrevista concedida ao El País, você diz que fala da sua vida não por ela ser especialmente interessante, mas porque é o que tem de mais tangível para trabalhar. Sua voz, muitas vezes, é em primeira pessoa; às vezes, você adota uma voz feminina e, em outras, refere-se a si mesmo, como nestes versos:
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Agora Zurita — disparou — já que de puro verso e descaramento você conseguiu entrar aqui, em nossos pesadelos: pode me dizer onde está meu filho?
[“Canto ao seu amor desaparecido”]
A poesia é a esperança de falar com muitas vozes. É também a voz dos desesperados. Então não sou homem nem mulher. Sou o que escrevo.
E a proposta de ler sua obra como extensão da sua vida, que também, em muitos níveis, é lida como uma poesia do corpo torturado?
Sim, é isso, mas também não sei muito bem o que é que eu faço quando escrevo. Não é uma condição racional ni mucho menos. Acredito que as mensagens se levantam com a mesma paixão com que se levantam as montanhas.
‘A poesia é a esperança de falar com muitas vozes. É também a voz dos desesperados’
A geografia é um tema fundamental na sua poesia. Grande parte dos seus poemas falam do deserto do Atacama, das cordilheiras, lugares em que pessoas foram executadas e desaparecidas. Mas há outra dimensão: as montanhas e os rios existiam antes de nós, e vão existir depois. São como sujeitos primordiais do testemunho. Podemos contar para esses sujeitos que vão permanecer?
É verdade. Nos meus poemas, as montanhas se levantam, caminham, se encontram. São também o lugar onde a morte é revivida. Nessas paisagens, é possível descobrir a morte. A morte grita, e o grito é o centro do poema. E é a partir desse momento que eu preciso procurar uma resposta que não anuncia seu nome. Essas paisagens são também como testemunhas morais do que aconteceu.
E como sombras mortas
continuávamos baixando
pelo talho aberto no mar
[“País das lâminas”]
Quando esculpiu poemas nas montanhas, quando projetou palavras nas rochas para que pudessem ser vistas do mar, do lugar de quem foi arremessado pelos militares para não só perder a vida, mas para desaparecer, você levou essa ideia às últimas consequências?
Sim, e também projetei um poema no céu, em Nova York. Isso sim é ampliar a página, romper seus limites. Me pareceu muito bonito. Eu poderia ter feito em algum lugar no Chile, mas fiz em Nova York, a fumaça dos aviões projetavam palavras em espanhol, no Queens. No mesmo momento acontecia uma crise econômica que desestabilizou a ditadura no Chile e as palavras apareciam no país que havia apoiado Pinochet, no idioma das comunidades hispânicas. Era uma necessidade de escrever no céu. Foi uma loucura o que se fazia no céu, com toda a sua sensibilidade.
Como você vê agora o Chile sob José Antonio Kast, um defensor da ditadura de Pinochet? Você esperava ver algo assim acontecer?
Não esperava, mas temia.
O que você acha que mudou de lá para cá no tema da memória?
Não mudou nada. A memória está aí, está desde sempre. Ela permite uma grande oposição a todo discurso neoliberal, a todo discurso de extrema direita. A memória é a única coisa que nós temos.
‘O corpo dos desaparecidos foi levado à terra, ao mar, aos vulcões. Está aderido a essa geografia’
Você disse que a publicação do livro no Brasil não é uma reparação, mas um gesto de amizade. Ainda que seja tênue e frágil, me parece que o trabalho de reconhecimento de lugares de memória e de responsabilização dos militares foi muito mais longe no Chile do que aqui no Brasil. Como sua escrita pode ressoar para nós, diante da nossa ditadura?
Não sei. E não sei por uma razão. Não se pode obrigar ninguém a lembrar. Com a imposição, começa o fascismo. A arte é um espaço livre. Por exemplo, ninguém mais pode escrever um soneto, o soneto é uma forma antiquada e esgotada. Mas basta que alguém vença o medo de escrever de forma ortodoxa e passe a escrever frases no céu, por exemplo, que tudo está derrubado. Não existe um antes e um depois.
A vida nova é um tema dos seus poemas. Como está seu olhar para a vida nova agora?
Estou trabalhando em algo novo, o livro se chama Zurita. É um livro escuro, de testemunho. Me aconteceu uma coisa que mudou a edição. A poesia tem me saído de todas as formas, como a Cassandra, a feiticeira troiana condenada a saber tudo, mas a quem ninguém escuta. Mas não sei se vou ter forças para essa nova direita.
Memorial
Apalpo-te, toco-te, e no meio da noite
meus dedos buscam os seus porque se eu
te amo e você me ama talvez nem tudo esteja
perdido. Destruíram tantas coisas que
só os sonhos parecem nos despertar. Assim
amanhece a aldeia, agora este é o nosso
país. No entanto aqui comecei
“A Vida Nova”. Hoje a dor coletiva
do crime e da barbárie caiu
sobre nossa casa e só vejo a cara de
uma pessoa assassinada.
As pontas dos meus dedos tateiam
as suas e na mais profunda
escuridão nossos olhos se encontram,
embora muito embaçados, se encontram.
[“Comecei a vida nova” (escrito em braille)]
Gostaria de te ouvir sobre um verso que está no Memorial del detenido desaparecido y del ejecutado político, no cemitério de Santiago. Quando você diz “todo mi amor está aqui y se ha pegado a las rocas, al mar, a las montañas”, o amor não é mais seu, aconteceu uma expropriação, uma dimensão de eternidade é acrescentada. E, no memorial, essa frase está esculpida na pedra. Como num jogo infinito de espelhos, o verso fala que o amor ficou aderido à pedra, a materialidade do monumento reforça o sentido. Foi você que escolheu o verso para o monumento?
Não fui eu que escolhi, mas a escolha me pareceu perfeita. É exatamente isso. O amor ficou aderido à pedra, ao mar, às montanhas. O corpo dos desaparecidos foi levado à terra, foi levado ao mar, foi levado aos vulcões. Está aderido a essa geografia. E as pedras, as montanhas se levantam com a paixão. A paixão faz esses corpos reviver. E, assim, o significado das pedras e das montanhas também termina.
Mas meu amor ficou colado às rochas, ao mar e às montanhas.
Mas meu amor, te digo, ficou aderido às rochas, ao mar e às montanhas.
Elas não conhecem os malditos galpões de concreto.
Elas são. Eu venho com meus amigos soluçando.
Eu venho de muitos lugares.
[“Canto ao seu amor desaparecido”]
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