A escritora argentina Mariana Enriquez (Sebastian Freire/Divulgação)

Literatura,

Sobre os ossos dos mortos

Em crônicas de viagem por cemitérios, Mariana Enriquez reflete sobre o lado político dos túmulos e revela onde quer ser lembrada após a morte

07set2026 • Atualizado em: 04set2026

A obsessão de Mariana Enriquez por cemitérios começou em 1997, em uma viagem à cidade italiana de Gênova, quando visitou o Cemitério Monumental de Staglieno, onde estão alguns dos túmulos mais espetaculares da Europa. Imagens de esculturas marcantes foram usadas pela banda Joy Division na capa do álbum Closer e na do single “Love Will Tear Us Apart”. São estátuas nuas em posições lânguidas, sugerindo uma certa necrofilia.

Enriquez estava acompanhada de Enzo, um músico que tocava na rua e que ela conhecera uns dias antes. Estava apaixonada pelo “garoto mais bonito do mundo”, que, no meio daquele ambiente gótico, a puxou para trás da estátua de uma mulher deitada sobre uma pedra e a penetrou delicadamente. “Ela, tão fria; nós, tão jovens.” Foi assim que Enriquez se apaixonou por cemitérios.

Essa história, que parece saída de um conto da escritora argentina, autora de Nossa parte da noite (2021), Os perigos de fumar na cama (2023) e Um lugar ensolarado para gente sombria (2026) — todos lançados no Brasil pela Intrínseca, com tradução de Elisa Menezes —, integra, na verdade, a crônica que abre o recém-lançado Alguém caminha sobre o seu túmulo: minhas viagens a cemitérios.

É um livro de viagens para o mais gótico dos leitores, que reúne algumas das características que tornaram sua literatura conhecida mundialmente. Histórias insólitas e violentas, personagens excêntricos, humor ácido, trilha sonora punk, a sensualidade da morte e o sobrenatural se mesclando à crítica social e histórica. Ao todo, são 24 relatos e um epílogo, que contém uma lista com os cemitérios que a autora ainda quer visitar.

Mariana Enriquez (Sebastian Freire/Divulgação)

“O critério para escolher essas crônicas foi, primeiro, que algo tivesse acontecido comigo no cemitério, ou que tivesse ocorrido no cemitério algo que valesse a pena ser contado”, disse Enriquez em entrevista à Quatro Cinco Um. “Para dar alguns exemplos: no cemitério de Lima, no Peru, além de ser fabuloso, um dos guardas fez algo muito estranho: entrou num nicho e tirou de lá uma caveira. Foi um momento de tensão que criou uma moldura para o lugar.” O cemitério Presbítero Maestro também foi palco de um insólito recital, com direito a violinos e bailarina, que foi barrado pela polícia.

A busca por vampiros no Cemitério de Highgate, em Londres, na Inglaterra; os fantasmas do Greyfriars, em Edimburgo, Escócia; a pesquisa em torno do vodu e o circuito de Anne Rice, autora de Entrevista com o vampiro, em Nova Orleans, nos Estados Unidos; a origem do golem no antigo cemitério judeu de Praga, na República Tcheca; o turismo tumular predatório criado pelo sucesso estrondoso do livro Meia-noite no jardim do bem e do mal, de John Berendt, em Savannah, Estados Unidos — essas são algumas das histórias macabras que Enriquez se deleita em narrar.

‘O que faltava na história da Argentina eram tumbas com nomes: desaparecidos não têm corpo’

A mais absurda é a da visita às catacumbas de Paris, onde ela rouba um osso de vinte centímetros, que chama de François, em homenagem a François Rabelais, e que guarda dentro de uma das mangas do seu gamulán, um casaco de camurça forrado com pele de carneiro. A tensão é crescente, pois espera-se que seja descoberta, se não no ossuário, em alguma alfândega aeroportuária. Nada disso acontece, e Enriquez sai triunfante com seu osso.

Perguntada se ainda tem essa relíquia, a escritora responde afirmativamente, mas explica que o osso está na Argentina com um amigo querido. Atualmente, ela mora na Austrália com o marido, Paul, e prefere não se arriscar a ser barrada pelas autoridades australianas transportando um material humano de um país para o outro. “A Austrália é um país muito rígido nas fronteiras e, meu Deus, ainda estou com visto de residência. Se eu fizer o processo para obter a cidadania australiana, talvez me atreva a fazer isso — vai ser mais difícil expulsar uma cidadã australiana por causa de um osso”, pondera.

Reparação

O que no início era curiosidade estética e interesse por histórias macabras ganhou outras camadas quando, em 2011, Enriquez recebeu um e-mail de sua amiga Marta Dillon convidando-a para o enterro da mãe, Marta Taboada. A advogada e militante era uma das muitas sequestradas e desaparecidas durante a ditadura militar argentina. Os seus restos haviam sido identificados pela Equipe Argentina de Antropologia Forense e seriam enterrados no cemitério La Reja, na cidade de Moreno, na província de Buenos Aires.

“Aquele funeral — que foi quase uma festa, com todo o significado que teve a cerimônia, num sentido político — me fez perceber que, além da questão estética, do gosto pelo paranormal, havia um motivo mais profundo [no interesse por cemitérios]”, explicou Enriquez. “Percebi que, para a minha geração, que nasceu na ditadura, e para a geração dos meus pais, que é a dos desaparecidos, ter uma tumba com nome trazia uma espécie de tranquilidade, de alívio. Havia a sensação de que o que faltava na minha história, naquele momento da história da Argentina, eram tumbas com nomes. Havia algo reparador em ter uma memória no cemitério.”

Para os latino-americanos, afirma, as ossadas são como prova de existência. “Desaparecidos não possuem corpo, ossos, nem nomes”, completa. Com a história dos ossos de Taboada — contada em Alguém caminha sobre o seu túmulo — ela percebeu que poderia criar um livro a partir do seu fascínio por cemitérios. Esse viés político atravessa várias das crônicas, com destaque para os cemitérios de Rottnest Island, na Austrália; de Punta Arenas, no Chile; e da ilha Martín García e de Carhué, na Argentina, a partir dos quais trata da colonização europeia e do extermínio das populações indígenas.

Enriquez conta ainda como foi a experiência de ver uma de suas bandas de rock preferidas, o Manic Street Preachers, tocar em Cuba em 2001, quando aproveitou para visitar a Necrópole de Cristóvão Colombo, em Havana. A escritora prepara o segundo volume dos seus passeios por cemitérios, entre os quais quer incluir algum do continente asiático — e garante querer visitar alguns no Brasil. A crônica que encerra o volume é sobre o famoso Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, e narra a absurda história do roubo do corpo de Eva Perón (que também contém sua dose de necrofilia) e como a autora não encontrou o Panteão Mendoza Paz, jazigo erguido pelo fundador da Sociedade Protetora dos Animais. A pirâmide pontiaguda privada de qualquer símbolo cristão era o local onde Enriquez gostaria que suas cinzas fossem jogadas após a cremação do seu corpo. Contudo, aparentemente o panteão foi desmontado pela família. Agora ela está à procura de outro local para que seus restos descansem em paz.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.