Literatura japonesa,

Juízo final

Morto em março, Kenzaburo Oe se posicionou contra o militarismo durante toda a vida

14mar2023 - 13h42 | Edição #68

Qual o papel de um escritor? Kenzaburo Oe oferece uma bela resposta quando o protagonista de Adeus, meu livro! imagina a reação das pessoas se seu filho, que tem uma grave deficiência cognitiva, fosse denunciado por abuso sexual. A filha teme que o pai assuma a culpa no lugar do irmão e se suicide, replicando o comportamento do personagem de um conto escrito por ele. Esse caminho é descartado por Kogito Choko, o alter ego de Oe: “Seria mais provável, na verdade, eu escrever uma obra em defesa de Akari. E claro, lutaria contra tudo, o senso comum da sociedade ou seja lá o que for. Essa é a minha atitude como escritor”.


Kenzaburo Oe oferece uma bela resposta ao papel do escritor em Adeus, meu livro! 

Morto no último 3 de março, aos 88 anos, Oe era o último remanescente de um grupo de prosadores que viveu os traumas da Segunda Guerra, incluindo as bombas que varreram Hiroshima e Nagasaki, e assistiu à ocupação norte-americana e ao despertar da democracia japonesa no pós-guerra. As experiências aparecem, sob variados prismas e nem sempre convergentes ao posicionamento de Oe, nas obras de Junichiro Tanizaki, Yasunari Kawabata, Kobo Abe e Yukio Mishima.

Ao se tornar o segundo japonês (depois de Kawabata) a receber o Nobel de Literatura, em 1994, Oe expressou sua insatisfação com a qualidade do debate público no Japão, um “feliz deserto”, pobre em reflexão e mais interessado em dinheiro. É como se tivesse decidido fazer de sua própria obra o espaço fértil. Ele inseriu a si mesmo na figura de Kogito, que tem inúmeras coincidências biográficas com o autor, nascido em 1935 num vilarejo nas florestas de Shikoku, a menor das quatro principais ilhas do Japão. Dois eventos ocorridos em 1963 foram decisivos para o projeto: o nascimento do primeiro filho, Hikari, com uma má-formação cerebral, e uma visita a Hiroshima para reportar sobre o movimento contra as armas nucleares. “Sem aquela transformadora experiência de verão, meu trabalho literário e minha vida pessoal jamais teriam evoluído da forma como aconteceu”, escreve em Hiroshima Notes (1965), que reúne ensaios escritos na viagem. No ano anterior, ele lançara Uma questão pessoal, sobre um jovem pai que busca ressignificar a vida depois que o filho nasce com uma anomalia cerebral.

Ameaças

A defesa da democracia e do pacifismo inscritos na Constituição de 1947, aliada a uma rejeição absoluta de tudo relacionado ao passado imperial japonês renderam a Oe ataques e até ameaças de morte por militantes da extrema direita. “A geração do meu pai me caracterizou como um tolo a favor da democracia. Meus contemporâneos me criticaram por minha inação — por ser complacente com a democracia. E a geração mais jovem de hoje realmente não conhece a democracia ou o período pós-guerra democrático — os 25 anos após a guerra. Eles devem concordar com T.S. Eliot quando escreveu: ‘Que não me falem da sabedoria dos velhos’. Eliot era um homem quieto, mas eu não sou — ou pelo menos espero não ser”, disse em entrevista à Paris Review em 2007.

É imbuído desse espírito que Kogito volta em Adeus, meu livro! (2005) — segundo volume de uma trilogia iniciada por A substituição ou As regras do Tagame (2000) —, que sai agora em português. Depois de lidar com o suicídio do cunhado Goro Hanawa (baseado no cunhado de Oe, que se suicidou em 1997), Kogito reencontra o arquiteto Shigeru Tsubaki, com quem tem questões mal resolvidas desde a infância em Shikoku. Seu reaparecimento é um gatilho para Kogito, que aceita a proposta de serem vizinhos em uma propriedade que o escritor mantém nas montanhas. A carreira de Kogito está estagnada, e ele aguarda uma velhice solitária depois de ver sucessivos amigos “irem para o outro lado”.

Oe mais uma vez escreve sobre seus familiares (sob pseudônimos) e autores de cabeceira: Eliot, Blake, Yeats, Dostoiévski, Beckett e Céline. O título é emprestado do final de O dom, de Nabokov: “Adeus, meu livro! O olho vivo se cerra, e o inventado imita”. Ecoando um personagem de Viagem ao fim da noite que se deixa arrastar por um amigo para aventuras esquisitas e estabelecendo uma relação de pseudo-couple (como Beckett denominou essa interdependência às vezes neurótica) com Shigeru, Kogito não rechaça o arquiteto, que se aliou a um russo e a uma chinesa em um projeto misterioso e provavelmente violento.

Primeiro, Kogito é convidado a discutir a “problemática Mishima”, sobre o escritor que em 1970 tentou um golpe para restaurar o poder do imperador Hirohito e das Forças Armadas. Ao falhar, cometeu o seppuku, ritual de esventramento seguido de decapitação. Fascinado pelo episódio, o russo acredita que se em vez de se matar Mishima tivesse sido preso, seria solto em dez anos e poderia angariar capital político para uma nova tentativa de golpe, num contexto mais favorável devido à crise econômica do estouro da bolha japonesa entre o fim dos anos 80 e início dos 90. Assim como sua contraparte no mundo real, Kogito se correspondeu com Mishima e sempre manteve posições políticas diametralmente opostas às dele. Ao retomar esse personagem incontornável, Oe analisa o fantasma do militarismo que nunca deixou de assombrar a nação e parece estar mais vivo do que nunca. Em dezembro, o governo aprovou uma nova estratégia de segurança nacional que prevê dobrar os gastos militares em cinco anos e abre as portas para uma mudança no artigo 9º da Constituição, pedra basilar da doutrina pacifista que o Japão advoga desde o pós-guerra.

Oe era o último remanescente de prosadores que viveram os traumas da Segunda Guerra Mundial

Quando os membros do grupo de Shigeru percebem que não há nas Forças de Autodefesa (equivalente às Forças Armadas) clima para um golpe, Shigeru redesenha o plano mirando outro evento que assoma no contexto de escrita do romance: o 11 de Setembro. Ele desenvolve a teoria do Unbuild/Destruir, que libera “para grupos de pessoas livres os meios para combater a gigantesca estrutura de violência mundial atual. Essa estrutura é por si representada pela vulnerabilidade dos arranha-céus urbanos”.

Mais significativo, no entanto, é o diálogo interior que Oe estabelece por meio da relação entre seu alter ego e Shigeru. Ao recordar a trajetória do amigo na literatura, o arquiteto diz: “Quando jovem, o escritor começou a escrever romances influenciado pela literatura estrangeira. Seu estilo se contrapunha às formas do romance do eu japonês. Mas hoje ele escreve tão somente sobre a vida de sua família numa forma de escrita genuinamente japonesa”. Não só na forma, mas no conteúdo, Oe demonstra pouco interesse em escrever uma literatura voltada para fora — algo a que Murakami se dedica há décadas — e abraça o papel de consciência da nação.

Os primeiros versos de “Gerontion”, poema de Eliot que atravessa a narrativa, são especialmente reveladores para (e sobre) Kogito/Oe, que se comparou ao velho narrador desamparado por nunca ter lutado e que espera a chuva enquanto um jovem lê para ele. Oe lembra como, no dia da derrota do Japão, libertou-se do “terrível pesadelo de ser enviado aos campos de batalha como soldado, mas pegou-se fantasiando vagamente em seu espírito liberto digladiando de arma em punho”. Ao enxergar um “fosso profundo” entre ele e o velho, “só lhe restava desempenhar o papel de um jovem lendo um livro em voz alta”.

A editoria de Literatura japonesa tem o apoio da Japan House São Paulo.

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Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista, é editor de opinião do site Jota.

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.