Literatura brasileira,

Diário da vontade assassinada

Lúcio Cardoso se revela em carne e espírito nas anotações íntimas que amplificam sua criação

26jul2023 - 17h07 | Edição #72

Me deu um bruto de soco no estômago, fiquei sem ar, li, lia, o caso me prendia, os personagens não me interessavam, às vezes as análises me fatigavam muito, às vezes me iluminavam, não sabia em que mundo estava, inteiramente despaisado.

Quem escreve é Mário de Andrade, narrando a Lúcio Cardoso, em carta de 1936, o que sentiu ao ler o romance A luz no subsolo, que acabava de ser lançado pelo escritor mineiro. Lúcio deve ter experimentado a satisfação, visto que anotou em um de seus diários: “Gostaria que meus leitores se transportassem a um estado de tão alta emoção passional que isto lhes destruísse o equilíbrio e eles se sentissem fisicamente doentes”.

O autor do romance Crônica da casa assassinada, que abalou o meio literário em 1959 ao erguer seu punhal carregado de incesto, decadência e loucura “contra a família mineira, contra a literatura mineira, contra a religião mineira”, foi uma das almas mais interessantes a publicar livros no Brasil do século passado. Depois de uma breve incursão no romance de temática social em voga na década de 30, Lúcio decide rumar com seu projeto literário para outras paragens, onde despontam os conflitos existenciais dos personagens, seus medos, suas culpas, seus desejos e tormentos, numa chave universal. 

O escritor mineiro planejava publicar o conjunto de suas anotações em cinco volumes

“Não é a política, é a psicologia o que me interessa”, escreveu. Essa abordagem lhe rendeu a alcunha de “Dostoiévski mineiro” — não por acaso, o russo ocupava posição privilegiada entre seus livros de cabeceira.

Era de se esperar, portanto, que seus diários nada tivessem de uma enumeração cartorial de eventos. Nas quase oitocentos páginas da edição organizada por Ésio Macedo Ribeiro para a Companhia das Letras, Lúcio pouco fala sobre seu cotidiano no Rio de Janeiro dos anos 40, 50 e 60, mas muito revela sobre as angústias que ardiam em seu íntimo: a homossexualidade, a culpa católica, os projetos inacabados, a impossibilidade de se dedicar exclusivamente à escrita. “Dizem que Balzac exclamava: ‘Uma noite de amor é um livro a menos’. E quantos livros a menos são estes horríveis dias arrastados em redações de jornais.”

Sangue do pecado

Crítico de uma Igreja que via como “sindicalizada” para se “adaptar às lutas do nosso tempo”, ele ataca o catolicismo que banira o sobrenatural (“o terror e o sangue do pecado”) dos altares em nome de um “Cristo social e sem cicatrizes”. Lúcio clama por um Deus à imagem daquele do Antigo Testamento, e suas impressões sobre essa parte da Bíblia dominam as primeiras páginas, assim como suas leituras de Nietzsche, de autores franceses — muitos homossexuais — e de outros diários de escritores.

Lúcio nunca escondeu de amigos sua homossexualidade, mas as referências quase elípticas a ela em seus  diários sugerem uma questão ainda entremeada à culpa:

A questão sexual, por exemplo, que alguns leitores provavelmente reclamariam, que adiantaria estampá-la, destituída de força, apenas para catalogar pequenas misérias sem calor e sem necessidade?

Para ele, ora o diário figura como “o único itinerário válido da minha vida” num esforço do autor para se fixar, ora como um exercício infrutífero. O mineiro planejava publicar o conjunto das suas anotações em cinco volumes sob o título “Itinerário de um escritor”, mas em vida só viu o primeiro sair do prelo, em 1960. Dez anos depois, o Diário completo reuniu este a um segundo volume. Completo, porém, não era, pois vários cadernos ficaram de fora. Foi apenas no centenário de Lúcio, em 2012, que veio a lume uma edição mais alentada, graças ao trabalho de Ésio Macedo Ribeiro. O pesquisador corrigiu erros das publicações anteriores, reuniu escritos dispersos editados em periódicos e incluiu um diário anterior, escrito entre 1942 e 1947. Ribeiro encontrou esse primeiro diário, datilografado e organizado, durante sua pesquisa no acervo do escritor, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Não se sabe por que Lúcio não o publicara.

   
Todos os diários apresenta agora o conteúdo da edição de 2012 acrescido de textos inéditos, entre eles um depoimento de Lúcio sobre a infância e uma apresentação provavelmente escrita para o diário publicado em 1960

Com um título mais apropriado, Todos os diários apresenta agora o conteúdo da edição de 2012 acrescido de textos inéditos, entre eles um depoimento de Lúcio sobre a infância e uma apresentação provavelmente escrita para o diário publicado em 1960. Aparecem completas pela primeira vez em livro 75 das 77 colunas do “Diário não íntimo”, uma espécie de coluna social que Lúcio manteve no jornal A Noite entre agosto de 1956 e fevereiro de 1957, na qual mesclava comentários sobre leituras com notícias de amigos como Clarice Lispector e Otto Lara Resende.

É curioso ver o entusiasmo com que ele registrou na coluna o lançamento de Grande sertão: veredas e, mais tarde, lamentou que o Brasil não tivesse nenhum grande livro em que se apoiar: “Guimarães Rosa, que em determinado momento poderia parecer o indicado, visto de longe surge-nos perdido pelo maneirismo”, escreveu. Melindrar alguém do meio era um medo do qual Lúcio não comungava, vide sua célebre frase em uma entrevista: “Diria que sou um lírico que prefere ser citado como frequentador do bar Veloso do que como candidato à Academia Brasileira de Letras”.

Modernismo

O historiador da arte Rafael Cardoso, autor de Modernidade em preto e branco (Companhia das Letras) e sobrinho-neto de Lúcio, credita a uma definição estreita de modernismo a tentativa de afastar o tio-avô do movimento: “O modernismo dele está ligado ao Grupo Festa, ao Alceu Amoroso Lima, ao simbolismo, às disputas com a Igreja católica. O panorama é muito mais amplo e ele tem sido jogado à margem por uma certa historiografia”, diz Rafael.

Em uma entrada de agosto de 1962, às vésperas de completar cinquenta anos, Lúcio deixa entrever um raio de esperança: “Se não estou nada satisfeito com o passado, ainda espero alguma coisa do futuro”. Quatro meses depois de escrever essas palavras, sofreu um avc que o deixou paralisado do lado direito do corpo e sem fala. Nos anos seguintes, foi por meio da pintura que o escritor, dramaturgo, poeta e roteirista deu vazão para seu pensamento. Ele morreu em setembro de 1968, depois de um novo AVC. Dez anos antes, escrevera: “O que eu faço não tem importância: é sendo eu mesmo, e com dureza, no instante que sou, que mais tarde, quando já não for, ainda poderei resplandecer aos olhos dos outros”.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista, é editor de opinião do site Jota.

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.