Literatura japonesa,

Jogo de reminiscências

Com toques autobiográficos e autorreferenciais, romance de ganhador do Nobel Kenzaburo Oe é prova de que uma história pode ganhar vida própria

01abr2022 - 04h51 | Edição #56

Existe na escrita de Kenzaburo Oe a urgência de uma história a ser contada. Uma narrativa que se impõe, implacável, sobre a vida de quem escreve — ora corroendo o presente, imiscuindo-se no tecido do cotidiano e manipulando a memória do hospedeiro até por fim ganhar o papel, ora surgindo, fulminante, num irrecusável chamado à escrita. Vida e literatura, biografia e processo criativo se mesclam, assim, de forma indissociável e íntima.

A substituição ou As regras do Tagame, de 2000, publicado agora no Brasil, parece ser, na trajetória de Oe, o paroxismo desse modus operandi. Aqui, o escritor Kogito Choko — alter ego que está para Oe como Nathan Zuckerman está para Philip Roth — ganha de presente do cineasta Goro, seu amigo e cunhado, um gravador, cujos fones se assemelham aos enormes besouros de sua infância: tagame, em japonês. Junto vem um baú com fitas cassete contendo ininterruptos monólogos de Goro sobre cinema e literatura, sobre Rimbaud e projetos inacabados e sobre a vida pregressa de ambos. Numa delas, ele se despede. “… É isso. Agora estou me transferindo para o outro lado”, diz a voz, seguida do baque surdo do corpo no chão. “Porém, nossa comunicação não se interromperá”, segue Goro. “Para tanto, preparei expressamente o sistema do Tagame.” Minutos depois, Chikashi, mulher de Kogito e irmã de Goro, traz a notícia do suicídio.


A substituição ou As regras do Tagame, de Kenzaburo Oe

Na “vida real”, Oe perdeu o cunhado, Juzo Itami, diretor de Tampopo, para um suicídio, tempos depois de ter sido esfaqueado por gângsteres da Yakuza, descontentes com o modo como Itami os retratou num filme. Na ficção, o suicídio, o atentado e aquilo — o evento sobre o qual “é preciso escrever”, e que conheceremos ao longo do livro — se entrelaçam de modo indissociável à vida e à escrita de Kogito.

Ao ouvir as fitas à exaustão, a ponto de duvidar de sua sanidade, Kogito percebe os monólogos se transformando em uma forma peculiar de diálogo, que o faz reinterpretar o passado, repensar o presente e planejar o futuro. Cada trecho ganha vida própria nas respostas do escritor, pronunciadas em voz alta na solidão de sua biblioteca. É assim que o Tagame se torna uma caixa de ressonância narrativa, dando início a um jogo de reminiscências cujo fim só pode ser a literatura.

Oe escreve seus melhores livros sobre histórias que demandam uma resposta — e são, por isso, recontadas, às vezes interpretadas, à exaustão

Numa busca existencial, ele se torna dependente da conversa com o além, a tal ponto que decide aceitar um convite de uma universidade e parte para uma “quarentena” em Berlim. A partir daí, a narrativa vai e vem entre passado e presente: por meio de diálogos com figuras conhecidas que ressurgem no presente, reportagens e conversas com jornalistas, cartas e rascunhos, Oe repassa as mesmas histórias diversas vezes, sob diversos ângulos (o que, em seu fictício “Técnica do romance”, ele define como “repetição com desvio”), até embaralhá-las numa narração suspensa no tempo.

Sem o diálogo do Tagame, porém, a premissa potente perde viço e originalidade, e o livro se torna um parêntese marcado por certa verborragia típica de Oe. Mas só até Kogito ouvir o “chamado de Goro” — que vem dentro de uma mala de couro vermelha contendo textos como um roteiro nunca filmado por Goro, o que estabelece uma nova forma de diálogo entre a vida e a arte dos dois —, permitindo à obra alcançar o ápice autobiográfico e amarrar perfeitamente seu jogo metaficcional.

Malas vermelhas

Oe adora malas com reminiscências poderosas, que permitem à narrativa se construir entre passado e presente. Para o leitor que nada conhece da obra de Oe (apesar do Nobel em 1994, raros são seus livros publicados no país), vale ler na sequência Morte na água, de 2009, impresso ano passado no Brasil pela Companhia das Letras. Também aqui, uma mala de couro vermelha com textos chega às mãos do escritor, alavancando o diálogo entre vida e escrita, Leitmotiv do livro. A morte do pai o persegue. Como se deu essa morte? E como vertê-la em ficção, posto que sua carreira, diz um Kogito já divisando a morte, não pode terminar sem essa culminação?

O fato de ambos terem sido publicados há pouco no Brasil, e por editoras diferentes, permitindo uma leitura sequencial e dialógica, é uma coincidência feliz: ambos trazem Kogito (sim, o nome é um trocadilho com o cogito cartesiano) empenhado numa arqueologia do passado, perpassada por uma reflexão autocrítica sobre o processo de escrita e marcada pela delicada relação entre arte, memória e morte. 

Oe escreve seus melhores livros sobre histórias que demandam uma resposta — e são, por isso, recontadas, às vezes reinterpretadas, à exaustão: a morte do pai, o suicídio do amigo e, de modo distinto, a deficiência mental do filho, Akari (tema central de seus primeiros livros de cunho autobiográfico, desde o premiado Uma questão pessoal). Fictícias ou reais, elas abarcam versões conflitantes que se justapõem, superpõem e entrechocam até uma narrativa final se tornar soberana sobre quem escreve e quem lê.

Em A substituição, Choko se vê assombrado por algo ocorrido quando ele e Goro eram adolescentes em sua cidade natal. No fim da guerra, diante da rendição do Japão, com o nacionalismo à flor da pele, os dois se veem envolvidos num arremedo de levante. O evento não parece grande coisa, mas serve de encontro entre a busca rememorativa de Choko e a de Goro, fazendo do romance não só um livro sobre memória e escrita, mas sobre autobiografias compartilhadas — e amizade. É, acima de tudo, um livro sobre como materializar histórias fantasmas, que assombram o escritor em busca de um corpo. O título original, Torikae ko — The Changeling, em inglês (no folclore europeu, uma criança mágica, deixada no lugar de outra) —, ganha sentido no epílogo escrito sob o ponto de vista de Chikashi. É o tema do livro que ela encontra e entremeia à sua versão do evento, relacionando todas as histórias contadas antes com a própria vida. Prova de que, tal qual um Golem, uma história pode ganhar vida própria.

Essa editoria tem apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Willian Vieira

É jornalista e fez doutorado em letras francesas pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.