Literatura japonesa,

Na cama com Murakami

Romance de 1992 percorre educação amorosa e sexual de um filho único da geração de Maio de 1968 na prosperidade do pós-guerra

01abr2021 - 00h00 | Edição #44

O tom escolhido por Haruki Murakami nos capítulos iniciais desse romance breve e magnético traz a impressão de que aqui se encontra uma das peças perdidas do peculiar quebra-cabeças autobiográfico que o autor se diverte em espalhar por sua obra. E é uma das peças centrais, daquelas que revelam as formas de um desenho maior: o papel do sexo e do amor em sua educação sentimental.

Em “Abandonar um gato”, texto autobiográfico publicado pela Quatro Cinco Um em janeiro de 2020, a história do Japão é a tônica da narrativa. Já nessas memórias de menino publicadas em 1992, que só agora chegam ao Brasil pelas hábeis mãos da tradutora Rita Kohl, quase não há pistas sobre questões históricas, exceto pelo primeiro parágrafo, um perfil breve e eloquente dos pais do narrador e mais uma ou outra passagem. 

 “Ambos pertenciam à geração marcada pela longa guerra”, demarca Hajime, o narrador, um raro filho único nascido no baby boom japonês, período em que, findo o conflito internacional, muitos casais tiveram dois ou três filhos. Hajime significa “começo”, ele explica, ainda na primeira página, como quem esclarece que o que importa ali não é o que veio antes, não é o campo de refugiados onde o pai passou uma temporada depois de combater em Singapura, nem a destruição da casa da mãe num bombardeio, mas a história que se inicia. Vamos esquecer a guerra e ir ao que realmente importa. E, como sabemos, resolvidas as questões mais urgentes relativas à sobrevivência e à liberdade, o que importa é o sexo. Não por acaso, a liberação sexual foi uma das bandeiras da geração de Murakami no mundo todo, a de Maio de 1968.

Na formulação metafórica do título, esse território fica ao sul da fronteira, a oeste do sol. Regiões inatingíveis pela razão, não mapeadas, imaginadas, que ficam além da cartografia tradicional — espaços da ordem do desejo, da utopia. O que existe a oeste do sol? O que acontece quando cruzamos a fronteira do sul, o baixo, e perdemos definitivamente o norte? 

Hajime conta sua vida amorosa dos doze aos 37 anos, o período de 25 anos em que se dá o auge do seu vigor sexual. Em tom de uma confissão sem culpa, ele relembra os primeiros sinais de atração por garotas, o difícil controle do próprio corpo, as negociações com a primeira namorada para que pelo menos pudessem ficar nus, a bonita colega de escola que arrastava uma perna como a Eugênia de Brás Cubas — e que um dia mudou de casa e desapareceu. Histórias amorosas de tempos em que não existia “fita cassete, absorventes internos nem trem-bala”. 

Literatura masculina

As primeiras cinquenta páginas sugerem a filiação do livro a uma literatura masculina que tem Philip Roth como exemplo maior, mas também inclui o Domingos de Oliveira de Todas as mulheres do mundo e o Truffaut de O homem que amava as mulheres. Neles, o protagonista é o sedutor descontrolado que sai cometendo atrocidades afetivas a pretexto de amar e desejar. 

“Sou um caramujo sem casca”, diz Hajime a uma mulher, tentando explicar o desejo, mais uma angústia que gozo ou peripécia. “Assim como há quem goste secretamente de tempestades, terremotos ou blecautes, eu gosto desta força discreta e intensa que o sexo oposto exerce sobre mim”, confessa. “Posso chamá-la, por falta de expressão melhor para definir, de ‘magnetismo’. Um poder que atrai as pessoas, queiram elas ou não.” 

Hajime conta sua vida amorosa dos doze aos 37 anos, quando se dá o auge do seu vigor sexual

Mas o narrador de Murakami não é autodestrutivo como o Portnoy de Roth nem se cobre de uma culpa cheia de orgulho como um Knausgard. Hajime vai narrando as suas obsessões sexuais e as besteiras que cometeu, típicas de moleques da sua idade e geração — transar com a prima da namorada “até o cérebro derreter”, dar um perdido na menina de quem na verdade gostava, dar falsas esperanças de namoro e até casamento a uma garota com quem só queria transar, seguir desconhecidas na rua, ter casos extraconjugais quando a mulher estava grávida, mentir. Ele conta, sobre uma de suas cafajestagens: “Olhando pra trás, muitos anos mais tarde, o que eu tirei dessa experiência foi uma única verdade fundamental: ao fim e ao cabo, eu era um ser humano capaz de fazer o mal. Nunca foi minha intenção fazer mal a ninguém. Mas […] eu podia ser egoísta e cruel.” E conclui: “Não dá para fazer os ponteiros do relógio girarem no sentido contrário”. Resta, então, seguir adiante, acompanhando o giro dos ponteiros para a frente.

Mas sabemos que, na vida amorosa, o relógio muitas vezes fica parado. E nem sempre nos damos conta disso, já que duas vezes por dia ele mostra a hora certa. De modo previsível, Hajime acaba se casando, forma uma família que parece perfeita e abre dois bares de jazz com dinheiro emprestado pelo sogro, instalando-se no conforto da classe média. “Sou da geração que atravessou as ferrenhas lutas estudantis do final da década de 1960 à primeira metade da década de 1970. […] Aquilo foi um grito de ‘não’ à lógica do capitalismo mais desenvolvido, mais complexo e mais refinado, que estava começando a devorar o idealismo do pós-guerra. […] Mas, agora, eu vivia em um mundo criado pela lógica desse capitalismo desenvolvido”. Sim, o clima é bem anos 1990. A desilusão amorosa acompanha a desilusão política. Debaixo do tal idealismo do pós-guerra estava também o menino que descobria o “magnetismo” ao se apaixonar pela colega que arrastava a perna e que, como tantas mulheres de Murakami, sempre desaparece. 

A certa altura, o tom memorialístico dá lugar à prosa nonsense, às cenas de suspense, tiradas e clichês que o narrador recolhe na cultura pop, na música, no cinema e até mesmo na própria obra de Murakami. Felizmente o escritor  não permite que esses jogos narrativos, exagerados em livros como o recente A morte do comendador, ofusquem a beleza da reflexão feita no coração do romance, uma investigação sobre o irrefreável desejo sexual dos anos de juventude e o que acontece depois que tudo passa. Ou parece ter passado. Pois há algo que permanece, e que é impossível manter oculto, nas zonas desconhecidas da cartografia humana, a oeste do sol e ao sul da fronteira. Essa matéria reemerge, quando menos esperamos, na forma de neurose. Ou então literatura.  

Este texto foi realizado com o apoio da Japan House São Paulo. 

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Paulo Werneck

É editor da revista Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.