Literatura japonesa,

A agonia de não morrer

Yoko Tawada retrata a relação inusitada de um homem com seu bisneto em um Japão vítima de uma catástrofe ambiental

22set2023 - 12h00 | Edição #74

O mais novo livro da premiada escritora japonesa Yoko Tawada traça a paisagem de um Japão vítima de uma catástrofe ambiental. Em meio à instabilidade climática — verões com ondas de frio e invernos quentes —, da poluição do ar e do solo, do desaparecimento dos animais e da escassez alimentar, os humanos tentam se adaptar às radicais transformações biológicas em seus corpos, dentre elas a mudança involuntária de sexo duas ou mais vezes na vida.

Assim como em outras ficções sobre futuros distópicos, os carros e aparelhos eletrônicos não existem mais, as pessoas têm dificuldade em encontrar alimentos e moradia e veem o cotidiano controlado em detalhes por uma profusão de leis criadas pelo Estado. Mas as semelhanças com boa parte das obras com essa temática param por aí, pois o cerne do livro não está na luta coletiva pela sobrevivência ou em um exame retrospectivo de suas causas. A história gira em torno do amor, surpresa e admiração mútua que caracterizam a relação inusitada entre um homem e o bisneto pelo qual se tornou responsável.

Na distopia de Tawada, temos um país não tão distante do que parece ser o futuro próximo de todos nós

Yoshirô vive em uma moradia temporária nos arredores de Tóquio, cujo centro, com seus 23 distritos, se encontra deserto devido aos riscos de contaminação pelo ar e pelo solo. O elemento surpresa é que ele está prestes a completar 108 anos e se sente cada dia mais vigoroso, assim como as demais pessoas da sua idade. Sai todos os dias de manhã para correr acompanhado de um ou outro cachorro escolhido para esse fim na loja de cães de aluguel, o único lugar onde se pode encontrar esses animais. Enquanto isso, seu bisneto, Mumei, o espera em casa para ser levado à escola de bicicleta. Como todas as crianças do que parece ser a primeira geração nascida depois da catástrofe, ele nasceu velho, enrugado e fraco, tem dificuldade para andar e problemas recorrentes de saúde, que vêm levando os pediatras que tratam dessas crianças à exaustão e ao suicídio.

A realização do sonho da longevidade, que havia sido a meta da medicina até então, se transforma, na pele de Yoshirô, em angústia, ao se ver condenado a presenciar, sem meios de agir, a deterioriação do bisneto: “Nunca pensara sobre a agonia da impossibilidade de morrer”. Mumei, por sua vez, desconhece o sofrimento e a autopiedade, se diverte com pequenas coisas e com sua poderosa imaginação. A imortalidade se inverte em praga, e a mortalidade precoce é encarada com naturalidade por suas vítimas: “A geração de Mumei vinha equipada contra o pessimismo”.

Na distopia de Tawada, o Japão se encontra isolado do continente, tanto física — pois o arquipélago sofreu mais um deslocamento — quanto culturalmente, pois são proibidos os intercâmbios internacionais. Não só isso: são vetadas as traduções de livros estrangeiros, assim como todas as palavras de outros idiomas, incluindo nomes de cidades. Todos esses detalhes são apresentados gradativamente, por meio da relação entre o homem e seu bisneto. Yoshirô, tomado por precauções, ensina ao bisneto as palavras proibidas e conta sobre esses lugares, o que dá asas à imaginação do menino. Impossibilitado de realizar um “piquenique no campo”, dados os riscos da poluição, Mumei pede ao avô que pinte uma das paredes internas da casa com uma paisagem campestre, com os pássaros e outros animais que ele conhece a partir dos livros, pois no país só sobraram corvos e aranhas.

Emissões

Como nos demais livros de Tawada, que vive há quarenta anos na Alemanha e escreve nos dois idiomas, a atenção à língua, com estranhamentos e jogos de linguagem, está presente (a compreensão se deve às excelentes notas dos tradutores). Com a proibição de se pronunciar nomes estrangeiros, estes são ressignificados na língua japonesa ao serem substituídos por outros com pronúncia parecida, mesmo que isso implique em um deslocamento do sentido, como no caso de “made in” (“feito em”, em inglês), substituído pelo japonês ma-de, que significa “originário de”.

O livro foi publicado no Japão em 2014, sob o impacto do terremoto seguido da catástrofe nuclear de Fukushima, em 2011. Traduzido para o inglês em 2018, e publicado nos Estados Unidos com o título original de O emissário (Kentoushi), foi agraciado com o National Book Award for Translated Literature, prêmio que se soma a diversos outros recebidos pela autora.

O sentido do título original vai sendo revelado ao longo do livro. Refere-se aos jovens escolhidos por uma sociedade secreta para serem enviados clandestinamente como emissários a países no exterior, para que possam buscar a cura para o envelhecimento precoce e informar aos demais, na volta, o que vinha se passando no mundo. No Japão real, esse título era dado a monges e pensadores enviados à China durante a dinastia Tang (séculos 7 a 10), onde passavam um ano ou mais aprendendo artes, budismo e direitos legais para disseminarem os novos conhecimentos na volta ao Japão.

A realização do sonho da longevidade, que havia sido a meta da medicina até então, transforma-se em angústia

Se alguns críticos apontam a semelhança entre As últimas crianças de Tóquio e Uma questão pessoal, livro autobiográfico do prêmio Nobel Kenzaburo Oe, em torno da conflituosa relação de um pai com o filho deficiente, o primeiro livro que me veio à mente foi o também distópico A polícia da memória, de Yoko Ogawa, contemporânea de Tawada, publicado no Japão em 1994. Nele, uma ilha se vê isolada do continente, e seus habitantes presenciam dia a dia o desaparecimento das coisas, desde animais até estações climáticas e partes de seus corpos. No livro de Tawada, o narrador se pergunta: “Será que as roupas continuariam a existir se deixássemos de chamá-las de determinadas formas? Ou elas sumiriam junto com seus nomes?”.

O que se tem é o retrato de um país não tão distante do que parece ser o futuro próximo de todos nós e que nos aflige sobretudo pelo destino das crianças e a impossibilidade de salvá-las, enquanto as vemos sonhar como Mumei, desprovidas de medo. Entretanto, a relação lúdica e amorosa entre os protagonistas, que faz lembrar aquela entre pai e filho no campo de concentração do filme A vida é bela, nos permite amenizar o temor e confiar na força da imaginação e dos sentimentos, assim como na resiliência e na criatividade da nova geração. 

A editoria de Literatura japonesa tem o apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.