Literatura japonesa,

Paisagens compartilhadas

Yoko Ogawa fala de memória, corpos e crueldade, temas que atravessam sua obra e alcançam novos leitores com traduções

16ago2023 - 13h00 | Edição #73

Yoko Ogawa é uma das mais importantes autoras japonesas contemporâneas. Desde a sua estreia, em 1988, publicou mais de cinquenta livros de ficção e não ficção e recebeu, por Diário de gravidez — publicado agora pela Estação Liberdade em conjunto com as novelas A piscina e Dormitório — o mais prestigoso prêmio literário japonês, o Akutagawa. Por ocasião desse lançamento, a autora me concedeu, em maio, uma entrevista por e-mail, mediada pela tradução de Jefferson José Teixeira. A riqueza de suas respostas, atentas a detalhes das questões, assim como a gentileza em sua forma de se dirigir a uma interlocutora-leitora, deixam clara a generosidade dessa escritora absolutamente genial.

Cara Aparecida Vilaça,
Muito prazer. Sou Yoko Ogawa.

Agradeço o interesse pelas minhas obras. Fico feliz de, por meio da literatura, ter a oportunidade de poder trocar ideias desta forma com pessoas em locais tão distantes. Espero que minhas respostas possam esclarecer de alguma forma suas dúvidas.

Qual é, para você, o sentido da reunião dessas três novelas com temas muito distintos em um só livro? 
Escrevi essas três novelas de uma tacada, em um curto espaço de tempo, na casa dos meus vinte anos, pouco depois de minha estreia como escritora. Não sinto estranheza ao vê-las reunidas em um único volume, uma vez que elas condensam os elementos sobre os quais eu desejava escrever na época.

O tom noir, em que a crueldade surge como parte natural da vida, poderia ser considerado um dos elementos de ligação? Além disso, há outro elemento central em todas as histórias: os corpos. 
Como você observou, há uma crueldade injustificada dissimulada nos seres humanos e que flui na base das novelas. Essa crueldade é expressa por meio dos corpos. A protagonista de A piscina tenta aniquilar a ansiedade do desejo não correspondido pelo atleta de saltos ornamentais atacando o corpo imaturo de uma criança. Em Diário de gravidez, a irmã mais nova observa o corpo da irmã mais velha, que se transforma diariamente, com o olhar de uma pesquisadora e entregando-se a fantasias grotescas. Em Dormitório, o corpo desaparecido é o que emana a presença mais vívida. Todos esses personagens estão presos a seus corpos silenciosos. Nós, seres humanos, estamos todos confinados a nossos próprios corpos. Não são as palavras sensatas que alcançam mais profundamente a outra pessoa, mas as sensações físicas. Essa noção me acompanha até hoje desde minha estreia como escritora.

‘Compartilhar o corpo com alguém que não seja você mesma é uma experiência realmente misteriosa’

As três novelas têm protagonistas femininas, solitárias, um pouco desajustadas em relação ao seu meio, o que as leva a um olhar distanciado e às vezes cruel sobre a realidade. Qual a sua inspiração para criá-las?
O mundo do romance se expande quando o narrador não se deixa mover pela emoção e pode se tornar um observador estoico. Em Diário de gravidez, a narradora não é a grávida, mas irmã mais nova desta. Ela é a personagem que pode ver e ouvir calada, antes mesmo de pensar e sentir. É importante poder criar um personagem capaz de manter uma posição objetiva. No meu entender, não são as emoções abstratas que têm mais poder quando expressas em palavras, mas os objetos concretos. Eu almejo que minha escrita seja como um texto explicativo de um livro ilustrado. Não havendo em lugar algum sinais do escritor, mas apenas uma descrição precisa deste mundo, o leitor estará livre para viajar às profundezas do texto.

Em Diário de gravidez, a grávida revela o desconforto com o seu estado, uma espécie de rejeição pelo feto, na sua relação de amor e ódio com a comida. Li que você escreveu esse relato inusitado e original quando o seu filho era bebê. Alguma inspiração veio da sua experiência?
No Japão, uma “Caderneta de Saúde Materna e Infantil” é emitida para as mulheres grávidas. Nela, é registrada a saúde da mãe e de seu filho durante a gravidez, o parto e a criação da criança. Na primeira página há uma seção intitulada “Calendário da Gravidez”. No instante em que bati os olhos nela, surgiu em minha mente a imagem do mundo do romance. Durante minha gravidez eu sofri com enjoos matinais. Mesmo a medicina moderna parece ainda não compreender bem a causa desses enjoos. Pensando bem, compartilhar o próprio corpo com alguém que não seja você mesma é uma experiência realmente misteriosa. O enjoo matinal parecia ser a manifestação do medo diante desse mistério. Queria me dirigir várias vezes à minha barriga que não parava de aumentar e perguntar: “Quem diabos é você, afinal?”. De fato, essa experiência é a base da novela. Imaginei não ser estranho algumas mulheres grávidas entenderem o mistério como medo ou rejeição.

O público brasileiro conhece a sua obra através de títulos que têm a memória como tema central, e nos quais você curiosamente problematiza a diferença que fazemos entre o nosso corpo e os objetos que nos circundam. Como antropóloga, trabalho com um povo indígena amazônico para quem os corpos são a sede do pensamento e da identidade, e os objetos podem ser pessoas. Teria alguma relação com a cultura japonesa?
“Objetos podem ser pessoas”. Essa é uma frase-chave de enorme relevância. Na língua japonesa, a palavra “MONO” é tanto usada para expressar uma pessoa (者) quanto um objeto (物); são homófonas. Talvez por terem uma história religiosa distinta do monoteísmo, os japoneses acreditam que Deus reside na cozinha, na montanha, em um grão de arroz ou em uma folha seca. Por exemplo, digamos que haja agora uma pedra aqui. Eu a pego, sinto seu peso, acaricio sua superfície, observo seu formato. Dessa forma, revivo em minha mente a imagem das pessoas que da mesma forma que eu seguraram essa pedra no passado. Escrevo romances para trazer essas pessoas de volta por um momento do mundo dos mortos.

Em Dormitório, um dos personagens, o guardião do dormitório, não tem braços e somente uma perna, o que me lembra os corpos em desaparecimento de A polícia da memória, escrito posteriormente. Esse personagem teria servido de inspiração para você escrever o livro?
Quando comecei a escrever A polícia da memória, me dei conta de que à medida em que várias coisas desaparecem, o corpo por fim acaba se perdendo. Não fui eu quem decidiu dessa forma, mas o romance me mostrou isso. Essa observação de que o professor em Dormitório possa ter servido de inspiração é inesperada para mim. Mas, pensando bem, não se pode dizer que não estejam relacionados. Os personagens são retratados não por algo que possuem agora, mas pela falta das memórias, corpos e objetos já perdidos. Algo inexistente é posto em palavras. Sinto estar enfrentando essa contradição há muito tempo.

Seus livros têm sido traduzidos com vários anos de atraso — A polícia da memória, grande sucesso nos anos 90, foi chegar no mercado ocidental quase vinte anos depois. Como vê a presença da literatura japonesa nos mercados internacionais? Isso tem relação com a percepção do público de um grande hiato cultural entre Oriente e Ocidente?
Para um escritor é uma grande alegria ver seus romances se difundirem pelo mundo rompendo barreiras linguísticas e culturais. Nos últimos tempos, vêm aumentando finalmente as oportunidades de se traduzir e publicar também literatura contemporânea japonesa. Contudo, apenas o esforço dos escritores não é suficiente. O ideal é que as editoras, agentes literários e tradutores trabalhem bem, em conjunto, para que, independentemente do idioma, possam compartilhar a literatura de seu tempo. Uma deslumbrante literatura sem dúvida fará desaparecer as lacunas culturais.

Você disse em uma entrevista que seus livros não estão ancorados em uma cultura específica, mas na paisagem da mente, e que por isso não deveria haver uma barreira para leitores de outros países. Os cenários das histórias não são nomeados. Mesmo assim, seu pensamento está enraizado na cultura japonesa, na qual você nasceu e se formou. Você acha que um leitor que desconheça completamente essa cultura fará uma leitura semelhante àquela de alguém que, mesmo lendo uma tradução, tenha interesse pelo Japão?
Nunca morei fora do Japão. Sou profundamente influenciada pela cultura e pelo clima do meu país, e isso talvez inconscientemente seja a base do mundo das minhas obras sob alguns aspectos. Entretanto, em muitas das minhas obras os personagens não têm nome e não me atrevo a especificar o local onde estão. Isso facilita a escrita. Quando coloco em palavras a imagem do mundo da obra que tenho em minha mente, não consigo determinar a localização ou os nomes dos personagens. Apenas posso afirmar se tratar de um mundo que existe em função desse romance específico. Escrevo na esperança de que a imaginação do leitor revele paisagens que eu mesma não previ, sem precisar, como escritora, definir as coisas de maneira conclusiva. Espero que tanto os leitores interessados pelo Japão quanto os demais possam desfrutar de forma igualitária as minhas obras.

‘Escrevo na esperança de que a imaginação do leitor revele paisagens que eu mesma não previ’

Você mencionou em uma entrevista que Diário de Anne Frank foi uma leitura marcante da adolescência. Essa é uma inspiração de A polícia de memória? Outra influência em sua obra é Paul Auster, que, segundo você, faz o leitor imaginar que ele está somente contando uma história que já existe em algum lugar. Algum dos seus livros traz esse estilo?
A polícia da memória foi muito inspirada pelo Diário de Anne Frank. Comecei a escrever decidida a registrar, da minha maneira, a crueldade daquela época, quando as pessoas foram gradualmente privadas de sua liberdade, de sua dignidade e, por fim, de suas vidas. Embora tenham sido seres humanos os causadores do Holocausto, os desaparecimentos ocorridos na ilha em A polícia da memória constituem um fenômeno natural. A polícia secreta apenas vigia sem apagar as memórias. Em outras palavras, os habitantes da ilha não têm habilidade para resistir aos desaparecimentos. Sem escolha, eles aceitam passivamente as regras. Eu desejava descrever a preciosidade disso. Quanto a Paul Auster, admiro seu estilo de escrita que parece falar apenas aos próprios ouvidos. É um estilo sem resistência, que não impõe a personalidade do escritor, criando a ilusão de que foi transmitido oralmente por inúmeras pessoas durante um longo período. Eu escrevi um livro intitulado Leituras dos reféns, ainda não traduzido no Brasil. Adotei personagens que sob determinada situação foram tornadas reféns, com cada uma delas relatando a experiência mais memorável de sua vida até então. Contar e escrever. Eu busco por romances que sobreponham naturalmente essas duas ações.

Além de Kenzaburo Oe, citado por você como inspiração, há outros autores japoneses contemporâneos? Os leitores brasileiros costumam associar sua obra àquelas de Sayaka Murata, Hiromi Kawakami, Mieko Kawakami e Banana Yoshimoto.
Os romances de Hiromi Kawakami são meus preferidos. Com sua escrita casual, eles têm o charme de atrair o leitor para um outro mundo. Outro escritor por quem tenho grande admiração é Yasunari Kawabata. Sinto nos desvirtuamentos humanos descritos por ele uma sensualidade e obstinação singulares.

Gostaria de entender a origem do seu interesse pela matemática. O romance A fórmula preferida do professor gira em torno da matemática, que também está presente em Dormitório. Além dessas ficções, você escreveu Beautiful Mathematics (Bela matemática), ainda sem tradução no Brasil, em diálogo com o matemático Masahiko Fujiwara. Nele constatam a importância da matemática no Japão, provavelmente associada ao aguçado senso estético japonês, e mencionam os poemas haiku, expressões literárias de uma fórmula matemática: 7-5-7. Para ser boa, a matemática tem que ser concisa, simples e bonita. O mesmo pode ser dito da literatura?
Meu interesse inicial era mais pelos matemáticos do que pela matemática. Eu me perguntava como eles conseguem descobrir beleza em algo tão inorgânico como os números. À medida que eu os entrevistava, me impressionava sua atitude humilde se ajoelhando e abaixando a cabeça em reverência diante dos segredos ocultos nos números objeto de seus estudos. Não há desperdícios em nenhuma fórmula matemática. A matemática se expressa em última análise no haiku. Ao escrever A fórmula preferida do professor pude perceber que matemática e literatura se situam, na verdade, muito próximas uma da outra.

Um escritor cria por si próprio uma história do zero. No entanto, ao terminar de escrever, sempre sente que o romance foi concluído por um arranjo fortuito que ultrapassa sua própria capacidade. Ele chega a um lugar que nunca imaginara alcançar antes de começar a escrever. Até mesmo se questiona se foi realmente ele quem escreveu o romance. Esse é o tipo de romance que se deve escrever. Isso é tudo. Suas perguntas me proporcionaram uma oportunidade para analisar com calma meu próprio trabalho. Estou muito agradecida. 

O inverno está chegando por aí? Cuide-se bem!

A editoria de Literatura japonesa tem o apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.