Entrevista,

A escrita como hibernação

De baleias a ursos-polares, escritora japonesa fala sobre direitos dos animais e de como a escrita está ligada ao clima

01ago2019 - 01h00 | Edição #25 ago.2019

Ganhadora de prêmios importantes tanto no seu Japão natal quanto na Alemanha, seu local de residência, Yoko Tawada já é uma figura icônica, especialmente entre os escritores imigrantes residentes no país. Foi por isso que não tive problemas em reconhecê-la imediatamente quando, por total acaso e já convidado a conduzir esta entrevista, nos encontramos pela primeira vez na fazenda de um amigo comum, o artista visual — e também imigrante — vietnamita-dinamarquês Danh Vō.

O trabalho de Tawada é um foco contemporâneo importante para aqueles que se interessam pela noção de uma zoopoética — termo usado para designar obras literárias que tratam do ponto de vista dos animais —, marcada por tradições tão distintas. Nessa linha, Tawada escreveu Memórias de um urso-polar, que traz três gerações de ursos-polares narrando suas próprias histórias, ao se ver inspirada pelo episódio do urso Knut, que foi rejeitado quando filhote pela mãe no zoológico de Berlim, onde foi criado por um tratador, de 2006 a 2011.

Nascida em Tóquio em 1960, Tawada se mudou para Hamburgo, aos 22 anos, e depois para Berlim em 2006. Formada em literatura russa, ela escreve tanto em japonês quanto em alemão, e, tendo a questão da língua em mente, fiquei me perguntando se uma escritora japonesa e um escritor brasileiro poderiam se comunicar realmente. E foi assim que começou a conversa com Tawada em Berlim, conduzida em alemão, numa tarde quente demais para ursos-polares, escritoras japonesas ou mesmo escritores brasileiros.

451 Você nasceu no Japão, eu sou um escritor nascido no Brasil, ambos nos encontramos na Alemanha, onde vivemos, e estamos prestes a iniciar uma conversa em um idioma que não é nossa língua materna. Acredita que conduziremos a entrevista sem muitos mal-entendidos?

YT Eu acredito que mal-entendidos também podem ser interessantes e até frutíferos [risos]. Mas há também um campo comum para nossa conversa. Nós dois vivemos em Berlim. Então, há coisas que nós também podemos compreender juntos de forma imediata. Veja bem, eu muitas vezes tenho que explicar a japoneses — apesar de ser japonesa e falar a mesma língua — o que realmente quero dizer com isto ou aquilo por serem coisas da cultura alemã. Isso ocorreu com Memórias de um urso-polar, por estar tão ligado às minhas experiências na Rússia e na Alemanha. Então, nossa conexão berlinense é uma vantagem.

Como foi sua relação com animais na infância em Tóquio? 

Quando eu era criança, numa cidade como Tóquio, havia — além dos gatos e cachorros , é claro — sempre muitos insetos, e eu era fascinada por eles, enquanto outras crianças os achavam nojentos. Eu sempre amei insetos! Talvez porque era o que eu tinha por perto. Nunca vi uma vaca quando criança! Nem vacas, nem porcos. Nada de cavalos. Nada disso existia em Tóquio, é claro. Não é estranho que eu só conhecesse vacas e porcos a partir de ilustrações? Animais tão comuns a outras crianças. Foi quando, aos cinco anos, veio um circo moscovita a Tóquio, com ursos e leões [risos]. Foi a primeira vez que vi animais grandes de verdade, num circo.

É possível que venha daí seu interesse por literatura russa? 

É difícil dizer. Meus pais liam muito e tinham muito interesse por literatura ocidental; sempre falavam de escritores franceses, alemães, russos. Por isso, desde meus primeiros passos como leitora, estavam lá os escritores estrangeiros. Mas os russos eram os que mais me fascinavam. Quanto a animais, eu sempre fiquei fascinada pela maneira como os cachorros alemães eram educados! Entravam nos restaurantes, nos trens. Pareciam seres humanos. 

Há muita vida animal e silvestre no Brasil. Mas as pessoas parecem querer se distanciar dessas formas de vida. Como é a relação dos japoneses com a vida selvagem do país?

No Japão, especialmente na ilha principal, há uma divisão muito clara entre os humanos e as outras espécies. São vidas exiladas umas das outras. É como um muro invisível entre duas realidades distintas. É claro que aqui na Europa, em lugares como a Suíça, você pode ir até a natureza, calçar botas e escalar montanhas, imaginando estar na natureza. 

Mas mesmo o selvagem parece civilizado por aqui. Os perigos foram afastados. Nenhum urso vai saltar de uma moita e devorá-lo. As pessoas querem o selvagem, mas com segurança. No Japão, nas ilhas menores, ainda há riscos no selvagem. Imagino que no Brasil também. Ao mesmo tempo, é mais fácil ver animais como raposas, javalis e lebres em uma cidade como Berlim do que em Tóquio. Imagino que São Paulo seja mais como Tóquio.

Nós moramos numa cidade com uma relação muito forte com ursos. É o símbolo de Berlim. E um dos personagens do seu livro é o urso-polar mais famoso da Alemanha, Knut. Ursos-polares são exóticos para alemães, menos para japoneses e muito mais para brasileiros. Você acha que isso pode influenciar a relação de leitores com seu livro?

Eu dei entrevistas sobre esse livro na Espanha, por exemplo, onde ursos-polares são certamente exóticos. Lá, a entrevista coletiva foi no zoológico. As pessoas reagiam de forma diferente da dos alemães, sim. E também estive em Cartagena, na Colômbia, onde imagino que um urso-polar seja tão exótico quanto para os brasileiros. Então, é possível que o livro assuma um caráter mais forte de fábula, em que os ursos-polares são animais fabulosos, estranhos, exóticos. 

Ao mesmo tempo, eu acredito que, graças aos esforços de conservação e da nossa tentativa de deter o aquecimento global, o urso-polar se tornou um símbolo tão forte da catástrofe que se avizinha que ele talvez comece a ser cada vez menos exótico na mente das pessoas. Eu só espero que eles sigam existindo e não se transformem mesmo em animais de fábula! Talvez os alemães tenham mais familiaridade com ursos, mas não como personagens de livros. Em geral, animais são protagonistas apenas na literatura infantil. Na literatura para adultos, já não se faz muito isso, não como nos tempos de Heinrich Heine e Franz Kafka. No Japão, isso é muito mais comum.

Mesmo o selvagem parece civilizado na Europa. Os perigos foram afastados. As pessoas querem o selvagem, mas com segurança

Heine e Kafka, inclusive, comparecem no livro. Essa tradição, digamos, de uma zoopoética é mais comum no Japão. Há algo disso no Brasil, com autores como Clarice Lispector, que era obcecada por galinhas, João Guimarães Rosa, que trabalhou com a onça, e Hilda Hilst, que escrevia sobre porcos. 

Ah, sim! Eu conheço algo de Hilst. No Japão, há bastante escrita com gatos. E eu li muita literatura popular japonesa, que sempre busca uma relação com os animais. Há várias histórias de casamentos de animais nas fábulas japonesas. Então, quis muito trabalhar com isso, principalmente nos meus primeiros livros. É bastante interessante. Geralmente, a história gira em torno de um um animal que é salvo por um humano, após cair num poço ou estar nas garras de um predador. Então, o animal se apresenta em forma humana para a pessoa que o salvou, como noivo ou noiva.

Há uma questão de tradução e de gênero literário que está já no título. O original alemão é Etüden im Schnee [Estudos na neve] e em inglês e português os “estudos” se transformaram em “memórias”, o que sugere gêneros distintos. 

A noção de “estudo” é importante para mim, porque dá a ideia também de ensaio, e é como os animais vivem a cada dia, diferentemente de quem começa a contar sua vida a partir do final, quando já está quase completa. Para os animais, todo dia é um novo estudo, um ensaio de sobrevivência, e eu gosto de ver minha vida assim também. Mas eu confio nos meus tradutores. A palavra “estudo” acaba tendo outras conotações em inglês ou português, imagino. Mas isso ocorreu em todas as línguas. Só os islandeses, que conhecem bem a neve, mantiveram o título original. É preciso notar que a palavra “étude” na Alemanha sempre tem uma conotação de gênero musical também.

Eu já vi o livro ser descrito como romance e também como três novelas ou contos interligados. 

Eu não penso em gênero antes de escrever. É claro que sei se estou prestes a escrever um trabalho de prosa ou de poesia. Mas sempre prefiro pensar na história, se será longa ou curta, quantas partes terá. Se será classificado como isto ou aquilo, prefiro não pensar. E mesmo o que planejo de antemão acaba, às vezes, mudando durante a escrita.

Numa passagem do livro, você escreve: “Para os animais, não é o instinto, e sim a arte que permite criar seus filhotes. Com os seres humanos não pode ser muito diferente, ou não adotariam crianças diferentes, de outras espécies”. Gosto muito dessa noção de animais de estimação como adoção de crianças de outra espécie. Você já adotou crianças de outras espécies?

Eu já salvei filhotes de pássaros. Também um par de gatos órfãos.

Em outra passagem, você fala sobre as fronteiras humanas e a maneira como as outras espécies não se importam muito com isso: “A ideia de uma identidade nacional sempre foi estranha para os ursos-polares. Era comum engravidarem na Groenlândia, dar à luz no Canadá e criar os filhotes na União Soviética. Eles não tinham cidadania, não tinham passaporte. Nunca eram exilados, cruzavam as fronteiras sem pedir aprovação de ninguém”. É verdade que para as outras espécies as únicas fronteiras são as naturais. Para nós, escritores, não há fronteiras, além da língua. Você disse em uma entrevista que se interessa muito pela literatura do norte, e que é uma “escritora de clima frio”. Esta é uma entrevista para leitores tropicais. Haveria, então, um habitat para um escritor? Como escritores são afetados pelo clima e pela paisagem? 

Eu acredito, sim, que escritores têm um habitat, ainda que o carreguem dentro de si. Eu fui muito influenciada pelas paisagens, tanto físicas quanto literárias, nas quais eu cresci. No Japão, é claro, mas também no norte da Europa. Além disso, sempre haverá aquelas tempestades de neve dos livros russos em mim. Uma paisagem física e uma literária. É por isso que entendo tão bem a escuridão de certa literatura alemã ou russa. Eu sou mesmo um pouco urso-polar. Eu sinto esse clima do norte em mim. 

Thomas Mann se exilou na Califórnia durante o regime nazista, mas odiava aquela claridade californiana, porque cresceu nos contrastes entre luz e trevas do norte da Europa. E é interessante como o clima da Califórnia não parece ter deixado marcas na escrita dele. As coisas mudam, é claro. Veja só este calor infernal aqui em Berlim atrapalhando nossa conversa! Mas eu não sei bem de onde vem isso. O inverno japonês é rápido, não é como o inverno daqui [risos]. Talvez por isso nossos haicais sejam tão curtos! Não sei de onde veio isso em mim. Eu gosto do escuro, do frio. São propícios para a minha escrita. É claro que outros escritores preferem o sol e o calor. Isso tudo torna a literatura mais interessante.

Sempre haverá as tempestades de neve dos livros russos em mim. Sou mesmo um pouco urso-polar. Eu sinto esse clima do norte em mim

Falamos muito atualmente sobre os direitos humanos e os direitos dos animais. Para alguns, os direitos humanos deveriam ser estendidos às outras espécies. Para outros, nós deveríamos tirar o “humano” da espécie Homo sapiens e considerar a nossa espécie apenas uma entre outras. Como você vê isso, diante dos perigos de catástrofe ecológica que vivemos? Todos são humanos ou ninguém é humano? Quais as saídas? 

Essa é uma pergunta difícil. Politicamente, eu creio que, por mais duro que isso seja, tem que haver limites entre as espécies. As duas visões, se radicalizadas, podem ser perigosas. Onde traçar a linha? É claro que o tratamento desumano e cruel de muitas espécies precisa ser detido! Não podemos seguir assim. Mas você já percebeu como as pessoas tendem a se preocupar mais com espécies grandes como baleias do que com as que são minúsculas? Eu sempre desconfio de uma radicalização nessa conversa.

Num momento como o nosso, é preciso estabelecer sempre a importância dos direitos humanos antes de começar a ter uma conversa séria sobre os direitos das outras espécies. Parece-me muito difícil defendermos baleias se não conseguimos defender nossos iguais. Veja, quando a linha entre humanos e animais se torna confusa, também corremos grandes riscos. Basta pensar nos nazistas e como desumanizaram aqueles que eram diferentes antes de aniquilá-los.

Eu vou citar duas frases do livro e gostaria que você fizesse algum comentário sobre elas. A primeira é: “O escrever não se diferencia tanto da hibernação”.

Escrever, para mim, é um período quase de semivigília, entre o sonho e a realidade, e, de certa forma, distanciada do resto da espécie. Sozinha. Sim, como hibernar.

A segunda frase do livro é: “A fome não é a melhor amiga da poesia. Vamos às compras”.

Bem, eu não consigo escrever nem com fome nem me sentindo completamente estufada.

Há uma proposição de Ludwig Wittgenstein de que gosto bastante. Ele escreve: “Se um leão pudesse falar, não poderíamos compreendê-lo”. Há sempre essa distância entre as experiências de cada espécie. Daí a própria noção de “específico”. Há tantos filmes que mostram como nos comunicaríamos com vida inteligente em outros planetas, enquanto há espécies inteligentes aqui mesmo com as quais não podemos nos comunicar. Você acredita que um dia nos comunicaremos melhor com ursos-polares? Que um dia vamos entendê-los?

Hum. O problema já está na própria noção de “entender”. Mesmo nossa noção de “entendimento” é complexa. Nós, com certeza, um dia teremos mais informações, à nossa maneira, sobre outras espécies. Talvez aprendamos a viver melhor com elas, de forma menos destrutiva. Ainda temos dificuldades de nos entendermos entre nós mesmos. Há aqui uma questão de tradução também. Como nos entendemos entre culturas. Mas nós começamos nossa conversa falando sobre mal-entendidos. Sobre o modo como alemães, japoneses e brasileiros podem entender coisas de maneiras diferentes. Talvez haja nesses mal-entendidos uma outra forma de entender. De entender coisas que estavam ocultas.

Nota do editor
O livro Memórias de um urso-polar foi tema do mês de junho do Clube de Leitura da Quatro Cinco Um  em parceira com a Japan House, em São Paulo, com a presença da professora de teoria literária e literatura comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maria Esther Maciel. Saiba mais sobre esse e os próximos encontros em nosso site: quatrocincoum.com.br.

Quem escreveu esse texto

Ricardo Domeneck

Escreveu Odes a Maximin (Garupa) e Sob a sombra da aboboreira (7 Letras).
 

Matéria publicada na edição impressa #25 ago.2019 em julho de 2019.