Literatura infantojuvenil,

Sangue novo

Mais recente livro da série ‘Crepúsculo’ acompanha a história de amor entre Bella e Edward pelo olhar do vampiro

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Talvez seja bom começar explicando que eu não li nenhum outro livro da saga Crepúsculo. E só vi o primeiro dos cinco filmes em um modo meio preguiçoso — mal me lembro dele. Não que eu não me interesse por histórias de vampiro — o Drácula de Bram Stoker é fascinante, a lenda em torno da sede de sangue da aristocrata húngara Elizabeth Báthory (1560-1614) continua a ser intrigante e alguns títulos de Anne Rice me acompanharam na adolescência (minha incredulidade me impediu de continuar a adentrar esse mundo quando o vampiro Lestat se tornou um rock star). Na verdade, li muitas críticas, tanto positivas quanto negativas, às obras criadas por Stephenie Meyer na época do lançamento dos livros — inclusive, o único vídeo do youtuber Felipe Neto que eu vi na vida era dele detonando o livro. Achava tudo muito divertido: as reações eram extremas tanto da parte dos que elogiavam quanto dos que adotavam um tom depreciativo. As razões desse sucesso eram um mistério para mim. 

Diante do sucesso de ‘Sol da meia-noite’, a autora Stephenie Meyer anunciou que vai lançar mais dois livros que dão continuidade à série

Lançado em 2005, Crepúsculo foi seguido de Lua nova, Eclipse e Amanhecer, que venderam desde então 160 milhões de cópias no mundo todo. Em 2008, deu origem a uma franquia de cinco filmes que também fizeram um sucesso estrondoso, alavancando, para o bem e para o mal, a carreira dos seus protagonistas — Kristen Stewart chegou a ser a atriz mais bem paga do mundo no início dos anos 2010 e seu romance com Robert Pattinson (o próximo ator escalado para interpretar Batman no cinema), com quem fazia par romântico nos filmes, ainda causa certo furor em grupos de fãs mais salientes.

Além disso, mostrou que longas-metragens voltados para o público feminino feitos por mulheres podiam ser bastante lucrativos — o primeiro foi dirigido por Catherine Hardwicke e todos os roteiros foram assinados por Melissa Rosenberg, que depois se tornou a mente por trás da série Jessica Jones na Netflix. A saga também foi a inspiração para outra bem-sucedida trilogia literária e cinematográfica que tinha as mulheres como público-alvo: Cinquenta tons de cinza, lançado em 2011, foi originalmente publicado por E. L. James como uma fan fiction de Crepúsculo, com um conteúdo sexual mais explícito e cenas de sadomasoquismo.

Doze anos depois da publicação do último livro da saga, parece que o público continua sedento por mais detalhes em torno da história de amor entre a adolescente mortal Isabella Swan e o vampiro Edward Cullen, de 104 anos, eternizado no corpo de um  atraente jovem de dezessete. Sol da meia-noite, lançado no Brasil pela editora Intrínseca e vendido como um livro “companheiro” de Crepúsculo, vendeu 1 milhão de cópias apenas na sua primeira semana de lançamento. Diante disso, Meyer — que havia declarado em entrevistas que não prosseguiria com a história — voltou atrás e anunciou que vai lançar mais dois livros da série, para a alegria dos fãs.

Jorrar e latejar

Em Sol da meia-noite, a história é vista pelo olhar de Edward, espelhando a trama de Crepúsculo, narrado pelo ponto de vista de Bella. O vampiro, que mora com sua família na chuvosa cidade de Forks, localizada no estado de Washington, consegue ouvir os pensamentos de todos ao seu redor, menos da nova aluna que chega de Phoenix, Arizona. O cheiro da garota também desperta nele uma vontade de matá-la, para poder se alimentar de seu sangue, após décadas vivendo como um vampiro “vegetariano”, ou seja, só sorvendo sangue de animais.

A partir daí, vemos Edward se apaixonar por Bella, lutar contra esse desejo, depois ceder a ele, apresentá-la à sua família, salvá-la inúmeras vezes — ele inclusive a impede de se tornar uma morta-viva após ser mordida por um vampiro rastreador, ao sugar para fora de seu corpo o veneno com o qual seu sangue foi inoculado — e, por fim, levá-la ao baile de formatura. 

Ao que parece, Meyer seguiu à risca diálogos e cenas presentes em Crepúsculo para compor a trama de Sol da meia-noite, mas trazendo novos insights sobre Edward e sua família imortal, o que deve ser um belo presente para os nostálgicos fãs da série. Agora, para quem é novato nesse mundo, o livro se resume, em suas quase 740 páginas, a Edward explicando para si mesmo por que não merece ficar com Bella por ser um “monstro” (o que, obviamente, prolonga a tensão sexual entre os dois) e a longas e arrastadas descrições do sangue da garota:

“Eu sempre tinha tanto cuidado para não pensar no sangue dela — não podia evitar o aroma, mas o fluido, o movimento, o pulso, a liquidez ardente, essas eram coisas em que eu não podia pensar. Mas naquele momento deixei que aquilo permeasse a minha mente, invadisse meu sistema, atacasse meu controle. O jorrar e latejar, o bater e escorrer. O ímpeto pelas artérias maiores, as ondulações nas veias menores. O calor, calor que atingia em ondas minha pele exposta apesar da distância entre nós. O sabor dele queimando minha língua e fazendo doer minha garganta”.

Os personagens mais interessantes são, de longe, a família de Edward, em especial suas irmãs, Alice e Rosalie. Alice tem o dom de prever vários futuros possíveis, sendo essencial na hora de lutas mortais. Já a vaidosa Rosalie, dona de uma beleza sobrenatural, ressente-se do fato de Bella querer ser transformada em vampira, uma vez que ela faria de tudo para voltar a ser humana, tendo sido transformada após ser brutalmente violentada por um grupo de homens — esse desejo a torna, paradoxalmente, a personagem mais “humana” da obra.

Algumas partes foram claramente escritas para justificar críticas ao modo como a obra romantizava certos comportamentos perturbadores: se em Crepúsculo Bella vê como um ato de devoção o fato de Edward espioná-la enquanto ela dorme em seu quarto — em algum momento, ela pede a ele que faça justamente isso e não a deixe sozinha —, o vampiro, em seu monólogo interior, justifica que faz isso porque a garota desperta nele um sentido de proteção muito grande e, como ela atrai problemas e é muito frágil e desajeitada, ele não pode deixá-la sozinha por nem um minuto sequer. Um prato cheio para o início de uma relação tóxica e de codependência. 

A visão que Sol da meia-noite traz de relações amorosas é, no final, uma verdadeira fantasia adolescente, pela angústia e pelo erotismo advindos do adiamento da consumação da relação entre Bella e Edward. Mas não só. No livro, Meyer repete à exaustão que, quando transformados, os vampiros ficam congelados no tempo, viram seres imutáveis, ao contrário dos humanos, cuja vida é marcada pela impermanência. Uma das poucas mudanças que acontecem nessa segunda vida é quando encontram o primeiro e único amor, que seria em tese um outro vampiro, para viverem a eternidade juntos.

Essa relação, portanto, também seria imutável, como se, passados oitenta anos, cada uma das partes do casal ainda se veria como se fosse a primeira vez — é como Edward descreve a relação entre Carlisle e Esme, seus “pais” vampiros. Nesse mundo, as relações são seguras, estáveis, garantidas. Não há tédio, cansaço, conflitos, traições, desejos por outras criaturas ou vontades distintas. Não há espaço para que as pessoas que fazem parte da relação mudem — é negada, inclusive, a evolução do próprio relacionamento, para o bem ou para o mal. É uma visão imatura do que é se relacionar com outra pessoa, e, por isso mesmo, uma fantasia.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.