Literatura infantojuvenil,
Em corda bamba
Em Solo, Marcella Franco e Paula Schiavon narram a maternidade solo a partir de duas perspectivas: a da mãe e a do filho
15maio2026Quando o progenitor vai embora e as visitas deixam de tocar a campainha, a mãe de Solo (Bazar do Tempo) entende que “essa ia ser a nossa história”. O filho, no entanto, guarda outra memória da cena: “Fiquei feliz porque agora ia ter minha mãe só para mim”.
Escrito pela jornalista Marcella Franco e ilustrado pela artista Paula Schiavon, Solo aborda a maternidade a partir de duas vozes que se espelham sem jamais coincidirem completamente. Enquanto a mãe vive a exaustão e o medo de não dar conta, de adoecer e de faltar, o menino transforma o cotidiano em humor, afeto e descoberta. O que para ela é uma corda bamba, para ele é um espetáculo.
À Quatro Cinco Um, as autoras falam da experiência de criar os filhos sozinhas e da recusa ao retrato unicamente trágico das mães solo.
Solo parte de experiências autobiográficas. Como foi uni-las?
Marcella Franco: Solo nasce da observação como mãe solo durante dez anos, dos primeiros meses do meu filho até eu me casar com um parceiro que compartilha efetivamente a criação dele. Enquanto escrevia, comecei a perceber o quanto certas experiências se repetiam entre mães solo muito diferentes. Independentemente da rede de apoio ou da condição social, há momentos em que você está absolutamente sozinha. Depois, percebi algo mais amplo: a solidão é intrínseca à maternidade, não apenas à maternidade solo.
Eu admirava a Paula desde Loba (Pequena Zahar). Os desenhos dela têm algo mágico: você acha que já viu tudo, mas, quando abre o livro de novo, parece que os elementos mudaram de lugar. Pensei que, se um dia escrevesse um livro ilustrado, teria que ser com ela.
Paula Schiavon: A editora me procurou num momento em que eu não estava aceitando muitas parcerias. Mas li o texto e ele me arrepiou. Dialogava com a minha história pessoal, mas, para além disso, falava sobre maternidade de uma maneira muito ampla — essa mistura de solidão, fragilidade e força, que caminham juntas.
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Por que alternar entre duas vozes?
MF: O livro nasceu dessa brincadeira com os pontos de vista e o fio condutor era justamente o contraste entre as angústias da mãe e a forma generosa com que a criança percebe aquele mesmo universo. Enquanto ela está tomada por dúvidas e medos, o filho vive aquilo com encantamento. As ilustrações trouxeram outras camadas para esse jogo de espelhos.
PS: A banheira que, para a mãe, representa exaustão e solidão profunda, para o menino, vira lembrança de brincadeiras e fantasia. Queria que a narrativa visual da criança tivesse esse tom de encantamento, porque a infância vive muito o presente. Já a mãe me permitia trabalhar com metáforas e com o simbólico. Há angústias difíceis de ilustrar literalmente — como o momento em que ela pensa: “E se acontecer alguma coisa comigo?”. Então, os silêncios e os espaços em branco passam a dizer muito.
Como fugiram da idealização e dos estereótipos sobre a maternidade?
MF: Eu queria abrir conversas, não encerrar conceitos. Solo não pretende ser um tratado definitivo sobre maternidade solo, mas o retrato de uma experiência específica, construída ficcionalmente a partir de fatos reais. Por isso, escolhi cenas que fossem universais: o hospital, a escola, a chegada em casa depois do parto, o medo diante das responsabilidades cotidianas. Existe alegria nisso tudo. Mesmo nas condições mais difíceis há felicidade, cumplicidade e até liberdade. Às vezes, é bom poder decidir sozinha que o jantar vai ser salgadinho e chocolate sem precisar negociar com ninguém. No fim, mãe e filho formam uma dupla muito forte.
PS: Cada maternidade solo é diferente, mas existem sentimentos em comum. Tive minha primeira filha aos vinte anos, no primeiro semestre da faculdade. Sem a ajuda da minha mãe, não teria conseguido. Há momentos de desespero, mas também de força. Você abre mão de coisas pessoais e profissionais, mas também vive intensamente a alegria de acompanhar o crescimento de uma criança. Solo trabalha justamente essa mistura de sentimentos. Não existe um martelo dizendo “é horrível” ou “é maravilhoso”. É complexo.
Ao longo do livro, “solo” ganha vários sentidos. O que passou a significar para vocês?
MF: No começo, remetia diretamente à mãe solo, mas depois o significado se expandiu. Um amigo comentou que “solo” também é a terra onde algo cresce. Nunca tinha pensado nisso. Depois vieram outras leituras: o solo como dança individual, como performance, como chão.
PS: Um solo é também um bailarino sozinho no palco, é a música executada por um único instrumento, mas também é o chão que sustenta. No livro, essa mãe está o tempo todo numa espécie de corda bamba, tentando equilibrar medo e força. E, ao mesmo tempo, ela é o solo que sustenta o voo desse menino.
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