Ilustração de Isabela Santos (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

Mães, filhos e outras espécies

Mãe adotiva, Adriana Carranca retrata afetos que prescindem de vínculo biológico a partir de hipopótamo adotado por uma tartaruga

25mar2026 | Edição #104

É curiosa a trajetória de Adriana Carranca, jornalista com mais de vinte anos de experiência na cobertura de conflitos e crises humanitárias, atuando em áreas conflagradas como o Iraque e a Síria durante o avanço do Estado Islâmico, e agora dedicada a escrever livros delicados para as crianças, como Malala: a menina que queria ir para a escola (2015) e o ganhador do Jabuti Entre sonhos e dragões (2022), ambos publicados pela Companhia das Letrinhas. 

A aridez das guerras e disputas de poder não a embruteceu. Ao contrário, parece ter refinado seu olhar para encontrar singularidades em meio às mazelas e hostilidades. “A vida apesar da guerra sempre me interessou mais do que a guerra em si”, diz. 

Ilustrações de Isabela Santos (Divulgação)

O título — Onde está a mamãe? — pode dar a sensação de se tratar de algo pueril. Mas que não se enganem os adultos que ainda se emocionam com histórias aparentemente destinadas a tenras idades.

Elos

Mãe adotiva desde 2021, Carranca mergulhou em pesquisas sobre afetos que prescindem de laços sanguíneos para dominar um assunto que desde pequena a fascina. Muito jovem, influenciada pela tia que apareceu segurando um bebê a quem chamou de filho, sem nunca ter engravidado, teve certeza de que também estabeleceria uma família via adoção. 

Após adotar a filha e depois de anos de leituras e conversas com adotivos e adotantes, a jornalista encontrou uma história peculiar no mundo animal: o caso de Owen, um filhote de hipopótamo que, encalhado após um tsunami atingir a costa do Quênia, na África Oriental, foi levado a um refúgio. Lá passou a conviver com outras espécies e criou um vínculo especial com Mzee, uma tartaruga-gigante-de-aldabra de 130 anos.

‘Na adoção, o colo é uma conquista. O abraço, o beijo, andar de mãos dadas — tudo é conquista’

Sem usar a palavra “adoção”, Carranca narra a saga de Owen e faz uma sutil analogia com os desafios pelos quais uma criança adotiva passa ao ser retirada de seu lar original e enviada a um novo espaço. 

A confusão do processo é muito bem ilustrada por Isabela Santos com a bagunça de árvores destroçadas e jogadas ao mar após o tsunami. A relação com Mzee, em quem o hipopótamo busca acolhimento e proteção, nada mais é do que a construção do vínculo entre pais e crianças adotivas. Um caminho gradual, lento, e cujos avanços ganham maior significado quando se desvincula o olhar da lógica de quem segura o próprio filho nos braços desde o nascimento.

“A família adotiva tem muito a ensinar para a sociedade sobre o que é ser uma família. Quando somos uma família biológica, tomamos isso como algo dado. A mãe tem aqueles nove meses para criar o vínculo com o filho, e o bebê vai para o seu colo assim que nasce. Na adoção, o colo é uma conquista. O abraço, o beijo, andar de mãos dadas — tudo é conquista, nada é take for granted [garantido], como se diz em inglês. Quando minha filha me deixou pegá-la no colo pela primeira vez, foi um marco na minha vida”, conta a autora. 

Origens

Conquistada pelo hipopótamo e vendo nele a ânsia de descobrir suas origens, a tartaruga Mzee revela as fragilidades de um amor tipicamente humano. Surge o medo de que Owen, ao partir em busca de respostas sobre o seu passado, comece a gostar um pouco menos da vida que leva com ela. “É um sentimento comum entre famílias adotivas. Todo mundo tem esse medo”, diz Carranca.

O amor entre espécies em quase tudo diferentes, mas com grande disposição para se gostar, mostra as engrenagens de uma adoção exemplar. É a lição de que o afeto pode surgir mesmo que uma criatura não tenha os olhos da cor dos nossos ou os traços de nossos pais. 

“É possível amar qualquer pessoa. Você precisa praticar isso. É um exercício que passa pelo esforço de aceitar e reconhecer que a outra pessoa é ela própria”, afirma a autora. 

Quem escreveu esse texto

Karine Dalla Valle

Jornalista, foi repórter de cultura do jornal Zero Hora, em Porto Alegre.

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.

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