Literatura infantojuvenil, Os Melhores Livros de 2025,
Jovens e maduros
Organizadores de antologia poética para o público infantojuvenil, Bruna Beber e Fabrício Corsaletti tratam os mais novos com a seriedade que merecem
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100Poesia para crianças precisa ser boba, fácil, infantilizada? Bruna Beber e Fabrício Corsaletti acreditam que não. Para A primeira coisa que existiu: poesia brasileira para jovens leitores, com ilustrações de Gabriel Furmiga, os amigos e poetas escolheram poemas que não foram feitos originalmente para pessoas com menos de doze anos. Mas há, em cada um dos textos selecionados, um quê de surpresa, de olhar o mundo pela primeira vez, natural de quem ainda não foi solapado pela maturidade.
São quarenta poemas produzidos por vinte autores brasileiros de diferentes gerações, todos dentro do escopo da literatura contemporânea e ainda em atividade. Há Chacal, que publica desde os anos 70; Arnaldo Antunes, Miriam Alves, Ledusha Spinardi e Eliane Potiguara, publicando desde os 80; e nomes mais recentes, como Ana Martins Marques, Gregorio Duvivier, Angélica Freitas e Alice Sant’Anna.
Partiu da Baião, selo infantil da editora Todavia, a proposta para que Beber e Corsaletti, dois dos maiores nomes da geração atual de poetas no Brasil, organizassem um livro de poesia para os jovens. Beber quis que fossem autores vivos — na sua juventude, leu muitos autores mortos. Corsaletti tinha convicção de que os poemas não precisavam ter sido escritos especialmente para crianças. Cada um foi garimpar na própria biblioteca.

“Descemos das estantes todos os nossos livros de poesia contemporânea e começamos a ler para pescar. Nos reunimos com nossos peixes pescados e propusemos vinte nomes com dois poemas cada um”, conta Beber. “Não foi uma tarefa, nem uma missão. Foi uma delícia fazer esse trabalho.” Por elegância, não se incluíram na seleta.
O que salta aos olhos é a quantidade de autoras — dos vinte nomes selecionados, treze são de mulheres. Beber diz que incluir uma maioria de mulheres não foi um critério preestabelecido, mas consequência do atual cenário da poesia no Brasil. “Não tem para onde correr. A maior parte da poesia das últimas duas décadas foi produzida por mulheres. Se você quiser ler só poesia contemporânea, você vai encontrar obras muito interessantes feitas por homens, mas as das mulheres são mais vibrantes.”
Bons entendedores
Ao ministrar um curso sobre literatura infantil em uma formação de escritores, Corsaletti se distanciou da ideia de que crianças só podem ler livros feitos especialmente para elas. “Percebi que era muito limitado apresentar só os livros feitos para crianças. E comecei a lembrar de poetas de que eu gostava quando era criança, como o Manuel Bandeira, que fez poemas muito ternos, delicados, que servem para qualquer idade. Então apresentei poemas de modernistas como Drummond e Cecília Meireles nessas aulas. E vi que funcionava perfeitamente. Os alunos também acharam”, diz.
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Autor de seis obras infantis, o poeta vencedor do Jabuti de Livro do Ano em 2023 desmonta outras noções engessadas sobre a relação entre jovens e livros. “Sempre me perguntam: ‘como se faz para criança gostar de poesia?’. Quem não gosta de poesia é o adulto, não a criança. É depois que começa a crescer que a criança fica careta, quer imitar os amigos e ficar igual a todo mundo. E a poesia não entra bem nisso. A poesia é a diferença, a loucura, a festa, o espanto. Isso não pega bem na sociedade.”
Despidos dos preconceitos, colocaram uma lente diferente para pescar os poemas que entrariam na coleção. Uma lente que enxerga a vida com olhos mais brilhantes, brejeiros. A voz que sai desses poemas não é infantilizada, mas uma voz que interpreta o mundo com a autenticidade desestabilizadora de uma criança. “Tudo o que a criança não quer é ser tratada como criança”, observa Corsaletti.
Não evitaram temas que muita gente grande acha que não é conversa para criança. A primeira coisa que existiu fala do amor, do desencontro, da morte, do desbotamento natural que vem com o amadurecimento. Como neste poema de Gregorio Duvivier:
Felizes são as pessoas na foto/ de escola da minha avó/ que não sabem ainda/ que vão ser avós/ e isso se tudo der certo/ e elas não morrerem antes.
Pode parecer óbvio agora, mas Beber lembra algo que o mundo adulto às vezes esquece: criança pensa sobre assuntos sérios. “A criança pensa no país em que vive. O leitor em formação é muito complexo. Ele vai ganhando massa ao longo da vida, mas várias questões já se apresentam na infância.” Por isso a presença deste pequeno poema de Bruna Mitrano, e de tantos outros, na antologia: “que a chuva poupe as telhas pobres/ e mais nada”. Às crianças, boas entendedoras que são, bastam poucas palavras.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Jovens e maduros”
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