Bagagem Literária,

Os escritores e o Natal

Alguns acham a data cafona, outros passam de pijama, e há quem prefira beber e jogar sinuca

15dez2025 • Atualizado em: 16dez2025

A Quatro Cinco Um convidou alguns autores brasileiros a contarem como passam o Natal — se aderem ao espírito natalino e empolgam-se em seguir a tradição ou se vivem um dia à parte, fora dos padrões e expectativas sociais. 

Há todo tipo de resposta: a escritora que já passou o Natal de pijama em frente à TV, o escritor que prefere beber a comer, aquele que sempre detestou a festa mas está sendo incitado a ressignificá-la por causa dos filhos, a que passa a noite com os pais no silêncio da zona rural e o que enxerga com muito sarro as cenas familiares que sempre destoam dos comerciais de margarina. Leia a seguir os relatos enviados à revista. 

Aline Bei

meus natais nunca foram do tipo casa cheia. muitos deles passei de pijama, assistindo ao show do Roberto Carlos na tevê. venho de uma família que diminuiu com as mortes dos meus avós e assim nos tornamos apenas a semente da fruta, pai

mãe

 irmã e

      eu.

         além disso, conhecemos os prazeres do Sono, especialmente numa noite iluminada de Natal. dormir

sem culpa

enquanto a maioria festeja

é um desvio que nos orgulha, e a Vida, que adora uma desobediência, dá um jeito de nos recompensar com sonhos que borram a lógica do mundo, justamente na noite em que a cidade está mais propícia para ouvir os poucos que dormem, e se for pensar, a Cidade faz o papel de família estendida, é o verdadeiro ouvido dos desejos, uma espécie de Deus urbano, ou como dizem nas lojas, um Papai Noel.

o que peço nessas noites

(desde a infância)

é ser artista. por favor, Cidade, eu quero ser

artista.

vocês podem imaginar, portanto, que não foi das maiores quedas

o Natal de 2024, que passei sozinha.

as ceias dos outros anos

me prepararam para estar ali sem autocomplacência.

Mesa de Aline Bei na época do Natal de 2024 (Acervo pessoal)

o que me aconteceu não foi uma tragédia, mas um prazo para entregar Uma delicada coleção de ausências, que por sinal ainda não tinha esse título, mas eu o buscava, um tanto mística, no chuveiro.

o que me aconteceu foi que em meados de dezembro, depois de uma reunião com as minhas editoras, soube que teria que entregar o livro impreterivelmente em janeiro.

preciso ficar

sozinha, eu disse aos meus compromissos.

protegida por esse mantra, entrei no espaço de vidro do apartamento onde moro, para reescrever o texto num ritmo que não costuma ser o meu — velocidade, poesia, café, silêncio —, e quando levantei o rosto da folha, com os olhos escurecidos pela angústia de não encontrar

um sinônimo,

percebi que a Cidade foi generosa, provou ter ouvidos

(invisíveis apenas aos que não sabem dormir sem culpa numa noite de Natal).

Jeferson Tenório

Por muito tempo detestei comemorar meus aniversários. Mesmo ainda menino, achava um tanto grotesco e sem sentido aquele cenário feito de balões, bolos glaceados, garfinhos de plásticos e decorações de desenhos animados. Na vida adulta, quando tomei as rédeas do que fazer nessa data e comecei a passá-la longe dos parentes que eu não queria ver por perto, mas em bares e com amigos, comecei a achar uma certa graça. Há os que argumentam que é preciso celebrar a vida. Então sempre recordo de Alice no País das Maravilhas, em que, talvez, o mais importante são os desaniversários, e então podemos celebrar nosso nascimento em qualquer dia.

Com o Natal ocorre algo parecido, momento em que trocamos os balões e bolos glaceados por enfeites brilhosos, luzinhas piscantes, árvores bregas cheias de bolinhas vermelhas, bonequinhos de neve contrastando com a realidade de um país tropical de 40 graus em dezembro. Uma noite feliz, uma TV irritante ligada ininterruptamente na sala, passando um especial chatérrimo de Natal, com músicas pop chatérrimas, e os parentes em silêncio olhando para a tela e fazendo algum comentário vazio. Depois de algumas cervejas começam a se acusar de coisas que quase sempre envolvem dinheiro. Cenas lamentáveis de bebedeiras que só parentes sabem fazer tão bem.

Ano após ano, as ceias natalinas foram se tornando repetitivas e melancólicas para mim, e assim, igual a tantos adultos, travei uma verdadeira luta para conseguir me recusar a passar o Natal na casa dos meus pais, pois não queria ver novamente a mesa farta, com frutas secas, rabanadas, farofa, chester, refrigerante, fios de ovos, panetone, e mais farofa introduzida por algum orifício da ave, pudim de leite, champanhe. Essa mesa farta não era possível em minha infância, o que me deixava mais triste.

Tudo isso em nome do aniversariante Jesus, que talvez não tenha imaginado um aniversário assim, que há mais de dois mil anos é celebrado nas casas e depois, com a modernidade, nos shoppings e camelódromos das cidades. Um aniversário que obriga todas as pessoas a irem para algum lugar nessa noite tão especial, a tal ponto que, se alguém resolver passá-la sozinho, será condenado para todo o sempre a viver só.

Decoração natalina de Jeferson Tenório (Acervo pessoal)

Tornei-me pai aos 33 anos e me vi obrigado a entrar no ciclo e reproduzir com meu filho a estética e o ambiente de aniversários e natais que eu tanto detestava. De repente, fui empurrado para uma loja de decoração, comprando coisas de isopor, papel celofane e velinhas coloridas.

Quando meu primeiro filho completou dez anos, resolveu escrever uma cartinha para o coelhinho da Páscoa. Na verdade, foi um ultimato dizendo o seguinte: “Coelhinho, vou esperar você aparecer até as três horas da tarde, porque você sempre disse que vem deixar os ovinhos aqui, mas eu nunca te vi. Se você não aparecer, não vou mais acreditar que você existe. Assinado: João.” 

Ao ler aquele bilhete, sem que meu filho soubesse, tive orgulho daquele rompante, mas logo em seguida enchi meus olhos d’água porque entendi que ele estava perdendo a inocência. Naquele mesmo dia, encontrei na Folhinha [suplemento infantil do jornal Folha de S.Paulo], por acaso, uma entrevista feita por Gregorio Duvivier com o próprio coelhinho da Páscoa. Era uma conversa tão bem escrita e verdadeira que convenceu João de que o coelho existia. Me comovi com a inocência preservada.

Recentemente me tornei pai mais uma vez. Tenho um bebê de quase um ano. Eu e minha companheira, Taiane, montamos uma árvore com todos aqueles apetrechos chamativos. Então, quando ligamos as luzes, vi no rosto de meu filho um olhar de espanto e alegria de quem vê as coisas pela primeira vez. Fui vencido pela pieguice e admiti que o Natal não é tão ruim assim. E que, para continuar a ver aquele sorriso, teria de passar por cima do meu mau humor natalino, porque no fim das contas não é exatamente o Natal que me importa, mas resgatar um pouco de minha própria ingenuidade nos olhos dos meus filhos.

José Falero

Tive ceias de Natal sempre iguais durante muitos anos. Mas já não é mais a minha realidade há pelo menos uma década. O que acontece agora é que a cada ano a minha ceia é completamente diferente da anterior. Então, não estou em condições de dizer como é. O que eu posso fazer é dizer como acho que ela será este ano. E mesmo assim não garanto nada. 

José Falero jogando sinuca (Acervo pessoal)

Sentirei fome por volta das 20h. Mas estarei jogando sinuca e bebendo em algum boteco, então provavelmente ficarei com preguiça de ir comer. Lá pela meia-noite estarei com muita fome, mas bêbado demais para comer, então vou comprar uma bala de goma, no boteco mesmo, só pra não acabar desmaiando. Quando o boteco fechar, vou procurar outro lugar onde eu possa continuar bebendo. Daí irei para casa, deitarei na cama e chorarei até pegar no sono.

Mar Becker

Minha ceia de Natal acontece geralmente em Passo Fundo (RS), na casa dos meus pais. Fazemos uma janta simples, nada de mais, a gente gosta da função de estar reunido conversando e dando risada, por si.

Sempre tem música ao fundo, numa seleção que não sei bem classificar. Vai de “Hurt”, do Johnny Cash (somos dramáticos) até o clássico “Perigosa e linda, jeito de bandida, mas com um toque sedutor” (somos suspeitos), do glorioso grupo Os Atuais. Só pra se ter uma ideia.

As conversas variam: futebol (meu irmão é jornalista esportivo, meu pai jogava), trocas de família, bobagem, trabalho.

Meu marido está sempre junto; minha irmã se arruma, eu faço a maionese, minha maionese é a melhor de todas. Se tem coisa neste mundo que é boa é a tal da batata.

Não falamos de poesia ou de escrita. Mas as coisas ali vão tecendo seu idioma específico, tento escutar.

Marcelino Freire

Tem o novo disco do Rei. Ainda que ele não grave mais tanto. Toca na vitrola “Lady Laura”. Meu amigo de fé. Das horas incertas o mais certo. Aquele ininterrupto inferno santo. Tem rum. Mesmo que a bebida seja quente para um passado escaldante. Minha mãe gostava de beber Campari. Porque tem uma cor bonita e é bebida doce. Vôte! 

Tem sempiternamente a visita da tia amarga. Porque o ano foi péssimo. Diz que está mole e aposentada e não comprou nada de roupa nova para os netinhos. Dezenas de crianças tontas pela casa da minha infância escalando o sofá feinho.

Tem maldade e tristeza. Eu querendo dar um sumiço no Papai Noel. Por isso que ele nunca vem no pedaço. Ele adivinha os meus planos maus. Eu, de fato, nunca quis ser um bom menino, ir pro céu o escambau. 

Tem maionese. Frango desfiado. Manjedoura e manjar. Coca-Cola de dois litros. Alguém que chora escondido. Meu irmão que se embebeda arrependido. Sadia é o peru, não a família. Tem a Missa do Galo. O papa fica melhor de bico calado. 

O Natal é tipo um Carnaval medieval. O bom velhinho fantasiado. Barba postiça, gorro de assassino americano. As máscaras adultas pesadas de sonho. Pobrezinho de mim! Todo ano é assim. Do nada me vem a mesma história contada. Essas lembranças, que tocam sino em meu juízo, endiabradas. 

Noite feliz quando acaba.

Morgana Kretzmann

Durante muitos anos não entendi que o Natal da minha família, na zona rural de uma cidade próxima à fronteira com a Argentina, era um Natal que seguia o andar dos animais, a luminosidade do céu que nunca deixa a noite escura por causa do seu enxame de estrelas. Um Natal marcado pelo silêncio das ausências — dos que se foram, mas permanecem — e pela impressão inarredável dos corpos, dos sorrisos e das lágrimas que moldaram aquele lugar. Um Natal suspenso pelo vento, seguido da brisa quente, mansa e ininterrupta, típica do verão que só acontece em dezembro.

Há quinze anos, uma presença nova​ passou a acompanhar nossa família nessa data: a do Paulo Scott, trazendo seu tempo Iroko para junto da reza luterana que antecede a ceia e que meu pai sempre conduz, de mãos dadas ao redor da mesa simples, de madeira pintada de bordô, colocada no gramado. É quando algo raro acontece, como uma realidade atravessada pelo fantástico: nossos olhos se enchem d’água, sentamos entre as distâncias que o ano​, ou talvez a vida, impôs, e, naqueles instantes, renovamos ​como família, mesmo sabendo que podemos nos perder novamente dali a alguns meses.

Quem sabe isso seja o que chamamos, sem saber, de Espírito de Natal.

Quem sabe seja a Fé, não a que se explica, mas a que apenas acontece.

Quem escreveu esse texto

Karine Dalla Valle

Jornalista, foi repórter de cultura do jornal Zero Hora, em Porto Alegre.