Literatura infantojuvenil,

A vida das árvores

Autores poloneses revelam a riqueza, nem sempre notada, das espécies arbóreas que nos cercam

01abr2023 - 03h51 | Edição #68

No olhar infantil (e no adulto também) as árvores costumam ser um elemento praticamente inerte da paisagem. Talvez rendam uma sombra agradável em dias ensolarados, carreguem frutos de vez em quando ou encham a calçada de folhas. Quem sabe até abriguem uns passarinhos ou macacos. Mas não suscitam muito interesse para além disso.

“As árvores são fáceis de achar/ ficam plantadas no chão”, já diria Arnaldo Antunes. Com esses versos, o músico não está fazendo pouco dos imóveis seres vegetais. Ao contrário, faz uma homenagem merecida — e necessariamente incompleta, afinal, é o que cabe em uma canção.

Piotr Socha e Wojciech Grajkowski vão além no livro Árvores. As encantadoras ilustrações de Socha e o texto de Grajkowski, que chegam ao país com tradução de Eneida Favre, revelam todo um mundo.

Aparecem nos desenhos as configurações mais diversas de árvores, desde arbustos até espécies gigantes de copa vasta, passando por falsas árvores, como cactos e palmeiras. As folhas têm formatos variados e mudam conforme as estações, as raízes formam arquiteturas espantosas — podem até construir pontes naturais, com uma ajudinha humana.

As árvores da paisagem podem ganhar novas faces — um novo mundo a ser desbravado

Os frutos, mais do que coloridos ou saborosos, representam uma estratégia de viagem, de carona com o vento ou com animais que se alimentam dessa produção. E que variedade de animais! Macacos, aves, répteis, insetos. Bichos voadores, escaladores, rastejantes. Longe de serem mero suporte para a vida animal, as árvores também ditam moda. E escondem com capricho os habitantes fantasiados de folha ou de tronco.

Elas também variam terrivelmente em tamanho e idade. Podem ser mais altas do que grandes monumentos erigidos por povos humanos, passando (raramente, é bem verdade) dos cem metros de altura. Também podem ser largas, exigindo várias pessoas de mãos dadas para abraçar um tronco, e chegam a viver mais de mil anos.

Para dar uma dimensão, uma das imagens do livro mostra uma fatia do tronco de uma sequoia-gigante californiana cortada no início do século 20, cujos anéis de crescimento — formados ano após ano — se transformam em uma linha do tempo de acontecimentos históricos que vão até o Egito Antigo.

Quando os dinossauros andavam pela Terra, podiam incluir no seu cardápio árvores bem diferentes das que hoje dominam nossas florestas, cidades e jardins. Mas algumas ainda existem, bem parecidas. Essa antiga existência é contemplada nas páginas que apresentam fósseis vegetais, achados raros que abrem janelas para o passado pré-histórico e às vezes se transformam em carvão mineral: um combustível feito de matéria orgânica produzida a partir do Sol há milhões e milhões de anos. Quanta coisa aconteceu, como o mundo mudou enquanto árvores cresciam.

Ciência e poesia

Nada que um lenhador não possa derrubar em poucas horas, com ajuda de uma série de ferramentas que mais parecem instrumentos de tortura. Essa é apenas uma das formas de sujeitar as árvores ou de viver mais perto delas. Elas podem ser miniaturizadas em bonsais ou podadas elaboradamente. Sua madeira pode servir para grandes, imponentes, espantosas construções ou se transformar em expressões da cultura, da arte e da mitologia na forma de máscaras ou instrumentos musicais.

São inúmeras as existências. E de quantas maneiras representam a vida? Na religião e no imaginário de várias culturas as árvores aparecem como a base essencial. Elas ilustram genealogias de famílias, a exemplo do naturalista britânico Charles Darwin que, no século 19, entendeu a formação de espécies por meio de um esboço ramificado.

O texto passeia entre o poético, o lúdico e o científico, sempre delicioso e informativo. Vale o clichê: é para crianças de todas as idades. Mas não para ser lido diretamente por qualquer idade. Cada dupla de páginas abriga um quadro ladeado por uma coluna de texto com certa densidade de informação. Crianças menores podem viajar nas imagens, repletas de detalhes que encantam, divertem, absorvem. Enquanto isso, alguém mais versado pode salpicar o conhecimento na experiência de leitura. A partir dos dez anos começa a ser possível desbravar sem ajuda. O difícil é ler sem que algum familiar mais velho queira participar.

Depois dessa leitura, as árvores da paisagem podem muito bem ganhar novas faces e os leitores podem se preparar para desbravar esse mundo, tão próximo e tão pouco notado. Só é pena, para o leitor brasileiro, que as referências sejam tão típicas do hemisfério Norte. A maior parte dos exemplos, tanto de espécies arbóreas como de monumentos ou pontos de referência, não existem por aqui. Longe de ser uma crítica: é mais um desejo de que houvesse uma versão tropical do mesmo livro.

Quem escreveu esse texto

Maria Guimarães

Bióloga, escreveu Guia dos jardins de Roberto Burle Marx no Instituto Moreira Salles (IMS).

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.