Literatura em língua portuguesa,

Voz pela independência do Timor-Leste

Romance vencedor do Prêmio Oceanos tem narradora que testemunha as guerras timorenses

28jun2022 - 14h48 | Edição #59

Vem de um diminuto país do Sudeste Asiático, onde a língua portuguesa é um dos idiomas oficiais, o romance O plantador de abóboras, de Luís Cardoso. Nascido no interior do Timor-Leste, em Cailaco, Cardoso representa uma geração que busca consolidar a literatura escrita no seu país, onde a literatura oral é predominante.


O romance O plantador de abóboras, de Luís Cardoso

Na obra, uma narradora conta a história de três gerações da sua família, incluindo ela própria. Sua voz dá um tom quase místico aos fatos, mesclando mitos originários dos povos locais com as disputas territoriais e ideológicas que o Timor-Leste sofreu. A leitura de O plantador de abóboras não soa exótica ao leitor brasileiro. Como latino-americanos, os efeitos da colonização e a subjugação às potências estrangeiras nos são bastante familiares. Mas, como lusofalantes, a realidade timorense nos é ainda um tanto desconhecida. Não que a literatura tenha como compromisso informar, mas certamente aproxima culturas, especialmente as que compartilham o mesmo idioma.

Timor-Leste é o país mais jovem da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com apenas vinte anos desde a independência. Em maio de 2022, completaram-se duas décadas de sua libertação, após uma longa trajetória de luta, que teve início ainda no século 16.

O processo violento em busca da autonomia é o pano de fundo de O plantador de abóboras, romance que venceu o Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa do ano passado. É a primeira vez que uma obra timorense conquista tal reconhecimento literário. A vitória é um acontecimento relevante em um momento em que a discussão decolonial tem recebido atenção no mundo das letras — o último Nobel para o tanzaniano Abdulrazak Gurnah é um exemplo, a Quatro Cinco Um é outro.

Três guerras

A estrutura da narrativa de O plantador de abóboras é composta de três partes. A saber: Primeiro Andamento, Segundo Andamento e Terceiro Andamento. A organização em forma de tríade serve como metáfora para os processos de dominação mais evidentes aos quais o Timor-Leste foi submetido: a colonização portuguesa do século 16 até 1975; a Segunda Guerra Mundial com a invasão pelo Japão, que resultou em cerca de 60 mil mortos; e a invasão pela Indonésia apoiada pelos Estados Unidos, que cessou apenas em 2002. Esta última buscava “proteger” o Timor-Leste do comunismo logo após tornar-se independente de Portugal. A invasão indonésia coincidiu com a Revolução dos Cravos em Portugal, que acabou com a ditadura fascista de Salazar. Com ajuda estadunidense, os indonésios usaram napalm para enfrentar a resistência timorense. A política de genocídio massacrou a população local. Estima-se que um terço dos habitantes do país foram mortos.

Nesse contexto de sucessivos conflitos, Luís Cardoso, nascido em 1958, mudou-se ainda jovem para Portugal, onde militou pela independência do seu país de origem. É também em Portugal que inicia sua atividade literária com a publicação de Crónica de uma travessia: a época do Ai-Dik-Funam, em 1997, e onde exerce o ofício de escritor até hoje. O plantador de abóboras foi publicado originalmente em 2020, mas a ideia nasceu anos antes. A população timorense votou por livrar-se da invasão da Indonésia em um referendo em 1999, que não foi respeitado. Os noticiários de todo o mundo relatavam o cenário de destruição causado pela guerra e pela intervenção da Organização das Nações Unidas (onu), iniciada naquele ano. Luís Cardoso e o escritor português José Saramago viajaram para o Timor-Leste nessas circunstâncias, antes da independência propriamente dita. Cardoso conta que os dois escritores encontraram uma mulher, em meio às ruínas, que narrou a história de seu país. “Ela estava a contar cem anos da história do Timor-Leste, três guerras sucessivas. Desde então, pus na cabeça que um dia havia de contar essa história num romance com voz feminina”, relata Cardoso no texto da orelha da edição brasileira do romance.

A leitura do livro não soa exótica ao leitor brasileiro, por conhecermos os efeitos da colonização estrangeira

É precisamente o que ocorre em O plantador de abóboras, em que a narradora faz algo muito próximo de um monólogo ao recordar seus antepassados e os conflitos enfrentados por eles. Ela, porém, não está falando sozinha. A mulher conversa com um misterioso interlocutor cuja identidade vai sendo revelada aos poucos, sendo confirmada mais ao final do livro. Sua narração é cíclica, com algumas repetições, captando a naturalidade da expressão oral. Uma das suas repetições é justamente quando questiona acerca da identidade do homem com quem conversa. “Não sei quem sejas”, ela diz. “Não sei quem eras antes de entrares nesta casa para me dizeres que gostarias de plantar abóboras”, fala.

A narradora revela chamar-se Insulíndia, nome em homenagem à marca do café produzido pelo seu pai. Mas ela também se chama Belli Sylvestris, apelido dado pelo noivo e nome científico de um tipo de margarida. É com esse nome de flor que ela assina suas pinturas. Insulíndia também é o nome dado à região de arquipélagos onde se localiza o Timor-Leste. “Café, sim, deu muito dinheiro. Aos malae [portugueses], aos china, aos bapak [indonésios], e aos liurai [governadores dos reinos originários]”, explica a mulher.

Embora não tenham sido os responsáveis por sujeitar o Timor-Leste ao domínio estrangeiro, os chineses constituíam uma espécie de elite comercial no país, deixando também sua influência. A epígrafe do romance é justamente do filósofo chinês Cheng Hao: “Instala teus soldados na terra e deixa que nela semeiem e plantem”. Um dos personagens é um comerciante chinês — aliado dos ingleses que, por sua vez, exploravam a China — autodenominado Sir Sebastian. É ele quem presenteia o pai da narradora com uma cópia de A arte da guerra, de Sun Tzu, escrito em mandarim. O chinês também presenteia a família timorense com um ganso branco, batizado consequentemente de Sun Tzu. O livro, indecifrável em razão do idioma, acabaria tornando-se no futuro uma “prova” de que a família colaborava com os comunistas, perseguidos então na Indonésia, desencadeando uma das cenas mais dramáticas do romance.

Memória viva

Filha adotiva, a narradora é a responsável por manter viva a memória da família. A memória e o testemunho, portanto, também são temas caros ao enredo. “Quando chega a noite é a memória que nos separa e nos distingue. Cada um cobre-se com a memória que tem”, diz a narradora. Sozinha, em frente à casa da granja que já foi uma grande produtora de café, ela revisita o passado com a chegada do homem misterioso à propriedade. Ao tocar na questão da memória e daqueles que partiram, o texto evoca o clássico Pedro Páramo (1955), do mexicano Juan Rulfo. Enquanto a narradora fala, cria-se uma ambientação na granja abandonada tão fantasmagórica quanto aquela que aparece em Pedro Páramo. Na obra mexicana, o personagem está em busca de seu pai quando adentra uma vila fantasma, em que o sobrenatural e o real se fundem. Em dado momento, é como se a mulher também estivesse rodeada por fantasmas. “(…) estou povoada de ausentes. Não dos que foram embora para a cidade de Díli, mas dos que partiram e não se ausentaram. Passaram para o outro lado da neblina onde se movem como num teatro de sombras. Já não fazem sombra a ninguém. Quem sou eu? (sombra ou fantasma)”, interroga-se a narradora. 

Há também em Insulíndia um pouco de Clara, a personagem do icônico Casa dos espíritos, da chilena Isabel Allende. Em Clara, a mediunidade é explícita; já na família da narradora, as mulheres locais comunicam-se com seus ancestrais de um modo subjetivo. Clara escolhe usar vestidos brancos e simples, enquanto Insulíndia opta por permanecer com seu vestido branco de noiva, apesar de o casamento nunca ter ocorrido. No livro da chilena, conhecemos tanto o Chile sobrenatural como o Chile vítima de um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos. O golpe resultou na morte do presidente Salvador Allende, em 1973, e na instauração de uma ditadura. Casa dos espíritos (1982), assim como O plantador de abóboras, também é, portanto, um romance sobre o atentado contra a autonomia de um país.

A comparação do livro de Cardoso com a literatura latino-americana, aliás, não é descabida. O próprio escritor já reconheceu essa aproximação em suas falas sobre literatura, seja no aspecto mágico, seja no conteúdo de denúncia social. Sobre essa característica, Cardoso já citou Jorge Amado como uma influência, cujo livro Capitães da areia (1937), sobre meninos pobres que vivem em um trapiche, marcou sua formação como leitor.

Crocodilo

A história da narradora começa com seus avós. Raimundo Chibanga é um expedicionário que chega ao Timor-Leste saído de Moçambique para guerrear por Portugal. Descumprindo ordens, ele evita a morte de uma local e acaba se casando com ela. A mulher sem nome, porém, é assombrada pela missão de decapitá-lo em vingança ao seu grupo. Os dois ocupam uma porção de terra onde plantam café e prosperam. O casal tem um filho, também chamado de Raimundo. A família, entretanto, é obrigada a abandonar a terra, reivindicada pelos antigos donos e que, produtiva, despertou interesse de comerciantes. A disputa pela posse de terras e a memória preservada pelas mulheres fazem com que o livro se aproxime de um dos semifinalistas do Prêmio Oceanos, Além do Rio dos Sinos (Reformatório, 2020), do brasileiro Menalton Braff. Sem opção a não ser deixar a terra, a família inicia uma caminhada pelas montanhas timorenses. A geografia que impõe desafios também faz recordar o romance de Braff. Na busca por outro espaço para cultivar, a família depara com um perigoso crocodilo. A figura do animal remete a um dos mitos formadores do Timor-Leste, cujas montanhas seriam as costas de um crocodilo. A mulher interpreta a aparição do bicho, porém, como um antepassado que exige sua vingança.

Luís Cardoso já citou Jorge Amado como uma influência, principalmente ‘Capitães da areia’

Fica a cargo do filho fazer com que a nova terra prospere. Ele faz negócios com o chinês para vender café e, agora rico, adota a narradora, filha de uma mulher que trabalha em um acampamento militar e de pai desconhecido. Restarão apenas Insulíndia
e o homem misterioso após tantos conflitos. O visitante serve como metáfora para o passado que não pode ser apagado. A mulher, porém, tenta corrigi-lo: “Equivocaste. Não se plantam, semeiam-se abóboras”.

O especial Livros que falam a nossa língua tem o apoio de Portugal – País convidado da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2022

Quem escreveu esse texto

Paula Sperb

É jornalista e crítica literária.

Matéria publicada na edição impressa #59 em junho de 2022.