Literatura japonesa,

Flerte com o fantástico

Contos de Murakami se aproximam da tradição latino-americana com narrador pouco confiável e mulheres incompletas

19abr2023 - 11h18 | Edição #69

As oito histórias de Primeira pessoa do singular, livro mais recente de Haruki Murakami lançado no Brasil, lembram um tanto a tradição latino-americana de contos fantásticos. Aparecem temas como o duplo, o mundo onírico e fenômenos inexplicáveis que rompem a ordem do cotidiano. Tudo coberto por uma camada translúcida de jazz, música clássica e cultura pop em um Japão que se abria ao Ocidente nos anos 60. A mistura situa os contos em um universo literário típico de Murakami.


As oito histórias de Primeira pessoa do singular, livro mais recente de Haruki Murakami lançado no Brasil, lembram a tradição latino-americana de contos fantásticos

Apesar da constante sensação de estranheza e de que há algo fora do lugar nas situações em que insere seus personagens, o autor dá a alguns contos ares de memória autobiográfica. Não é descabido dizer que estamos diante de um narrador pouco confiável, que dá mostras de ser o mesmo em todos os contos. “Tudo que resta são pequenas memórias. Não, as memórias também não são confiáveis. Quem poderia afirmar, com convicção, o que de fato aconteceu conosco?”, questiona no conto “Sobre um travesseiro de pedra”.

O título do livro não é um acaso. As primeiras frases de cada conto contêm a primeira pessoa do singular. A aparente exceção está no engenhoso “Charlie Parker Plays Bossa Nova”, que começa com o excerto de uma resenha sobre um novo álbum de Charlie Parker publicada em uma revista cultural. Diz a crítica: “Dá para acreditar numa coisa dessas? É melhor acreditar, pois aconteceu de verdade”. Entretanto, não havia novo disco do músico de jazz, que estava morto. Tratava-se de um texto de ficção. “Assim começava um texto que escrevi”, diz o narrador, apresentando-se, finalmente, em primeira pessoa. Ele inventa então detalhes sobre os arranjos de Parker, que grava em estúdio com Tom Jobim. Sobre o brasileiro, escreve: “Toca quase tudo com notas soltas, acrescentando vez ou outra um acorde simples, discreto. Como se colocasse com delicadeza uma almofada macia atrás das costas da moça”. É uma observação imaginada sobre uma gravação inexistente, tais quais as falsas “notas do editor” em A invenção de Morel (1940), de Adolfo Bioy Casares, clássico da literatura fantástica argentina.

O narrador de Murakami viaja a Nova York e, em uma loja, encontra um vinil com o mesmo nome de seu álbum fictício. O atordoamento é tamanho que pensa ser uma pegadinha. Decide não comprá-lo. Porém, a sensação de estranhamento permanece.

Olhei novamente ao redor. Aquilo era mesmo Nova York? Sim, sem dúvida eu estava no centro de Nova York. Em uma pequena loja de discos. Eu não havia sido transportado para um mundo fantástico.

A passagem remete ao conto “O outro céu”, de Todos os fogos o fogo (1966), do argentino Julio Cortázar. Nele, o narrador protagonista se desloca no tempo e no espaço a partir de galerias comerciais que funcionam como passagens entre a Buenos Aires do século 20 e Paris do século 19 — a Pasaje Güemes e a Galerie Vivienne, respectivamente. Porém, na história do japonês, é a loja que transporta o personagem entre o mundo em que o referido disco existe e aquele em que não passa de imaginação. Algo semelhante ocorre no conto que dá nome ao livro. O protagonista entra em um bar onde é reconhecido por uma mulher como sendo outra pessoa. Ao sair do bar, a rua é outra completamente diferente.

Aparecem temas como o mundo onírico e fenômenos inexplicáveis que rompem a ordem do cotidiano

Parte da crítica especializada apontou o conto “A confissão do macaco Shinagawa” como destaque. Um macaco capaz de falar trabalha em uma pousada de uma região termal do Japão. O narrador o conhece ao se hospedar no lugar e, apesar da surpresa, se adapta. Nas conversas, o macaco confessa ter se apaixonado diversas vezes por mulheres e, na impossibilidade de concretizar qualquer relação amorosa com uma humana, roubava seus nomes com um método curioso: surrupiava um documento e concentrava-se em uma parte do nome, tomando-o definitivamente para si. As mulheres, então, esqueciam os próprios nomes.

A premissa é instigante, embora não realizada em todo o seu potencial por ser encerrada precocemente, e oferece uma pista para entender um incômodo que perpassa todos os contos: as mulheres são privadas de uma vida interior e motivações convincentes, algumas não possuem nome e nem sequer rosto. Como se o macaco tivesse invadido secretamente todos os contos e roubado algo dessas mulheres.

Apagamento

Algumas mulheres dos contos têm nome, mas são preenchidas por um vazio existencial, como Sayoko, ex-namorada do narrador que comete suicídio em “With the Beatles”. O conto começa alegre e juvenil — com a memória de uma linda garota que caminha no corredor da escola carregando o disco do quarteto britânico — e termina melancólico, com certa dificuldade do narrador em aceitar o envelhecimento. A garota do início nunca mais é vista pelo protagonista.

O desaparecimento, aliás, é um tema caro a Murakami, e consta também no conto “O elefante desaparece”, do livro homônimo, e no romance Minha querida Sputnik. Este último guarda ainda outras semelhanças com Primeira pessoa do singular. No conto “Sobre um travesseiro de pedra”, uma escritora com quem o protagonista passa uma noite, de cujo nome e rosto não recorda, morde uma toalha durante o sexo. Em Minha querida Sputnik, uma aspirante a escritora morde uma toalha enquanto delira de desejo por sua chefe — a jovem também desaparecerá. Ela se gaba de estalar os dedos das mãos melhor do que os garotos. A personagem do conto “Carnaval” também estala as juntas dos dedos de maneira excêntrica. São pequenas correlações que povoam o universo de Murakami e dão a ideia de que todos os narradores podem ser a mesma pessoa — fenômeno visto também nos romances do gaúcho João Gilberto Noll.

Em “Carnaval”, vale ressaltar, a misoginia do narrador é escancarada. “De todas as mulheres que conheci até hoje, ela foi a mais feia”. Ele se justifica dizendo que usar o termo feia ajuda a se aproximar da sua “verdadeira essência como pessoa”. Neste conto, a personagem ganha a identificação de F*, sem um nome completo, como se roubado também pelo macaco. Isto posto, é como diz uma mulher anônima no último conto: “Tudo era ao mesmo tempo concreto e simbólico”.

A editoria de Literatura japonesa tem o apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Paula Sperb

É jornalista e crítica literária.

Matéria publicada na edição impressa #69 em abril de 2023.