Literatura brasileira,

A grande dança da escrita

No segundo romance, Aline Bei mantém forma que a consagrou para narrar os dissabores de uma jovem com problemas familiares

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

Um dos grandes desafios de quem escreve é encontrar a própria voz, conseguir imprimir ao texto características peculiares sem que, no entanto, elas atropelem o que venha a ser a voz do narrador, tanto em terceira quanto em primeira pessoa. No último caso, quando o narrador é também um personagem, a confusão entre quem escreve e quem conta a história pode ser ainda mais problemática, porque introduz o risco de o autor “sujar” a voz do personagem que narra. 

Aline Bei partiu de um grande desafio para escrever Pequena coreografia do adeus, seu segundo romance, após o sucesso quase unânime de crítica e público de O peso do pássaro morto, estreia da autora pela editora Nós. A escrita de Bei surpreendeu instantaneamente pela forma, com quebras de frases como as de versos que, no entanto, mais que uma preocupação rítmica, pareciam querer destacar e ampliar o significado das palavras, em um estranhamento que emulava o enredo.

A fórmula se repete em seu segundo livro, agora para narrar a história de Júlia Terra, a partir de um futuro que não chegamos a conhecer, a não ser por meio de marcações como “já naquela época” e “anos depois”. É na transição entre a infância e adolescência que se inicia a narrativa, justamente na vergonha (ressaltada pelo tamanho menor da fonte de palavras como “brincar”, que parecem tentar se esconder) de querer continuar a ser criança quando o mundo e, principalmente, sua mãe exigem responsabilidades.

O distanciamento afetivo entre os pais, que culmina com o divórcio, é dado de cara e escancara o embate entre a necessidade de crescer e a vontade de continuar na infância: logo na primeira cena, Júlia, brincando com sua boneca e com uma amiga em uma praça, vê por acaso o pai passando com uma mulher — uma “Outra”, como ela vai designá-la, com mais um dos recursos gráficos utilizados ao longo da obra, o da maiúscula para sublinhar o significado que a palavra já portava. Segue-se a primeira das agressões físicas que Júlia vai perpetrar nas amigas, reproduzindo a violência de sua mãe, sendo essa a maneira de lidar com o afeto transmitida por gerações: “as surras que eu levava/ eram as surras que minha mãe levou/ em looping/ na minha pele, na pele dos filhos que ainda não tenho./ é o que chamam de carma ou: carregar uma pedra involuntária no coração”. 

Para a protagonista, a escrita de um diário tornou-se o consolo possível a suas dores de existir 

Após outro episódio de violência física, a diretora da escola, compreensiva como sua família não consegue ser, sugere que Júlia frequente o balé, outra experiência frustrada e que acentua seu sentimento de não pertencimento. Escutando uma conversa atrás da porta — ato que ao longo da obra é ilustrado com uma palavra depois da marcação gráfica “[” —, a protagonista toma conhecimento do que diz a professora sobre sua inabilidade também para a dança. Por acidente, Júlia acaba com o dedo preso quando uma das alunas abre a porta, e é só por meio desse episódio, ou seja, da dor, que a personagem é finalmente reconhecida.

Ela começa então a trabalhar em um café e consegue deixar a casa da mãe para morar em uma pensão. Nesse período, passa a conhecer pessoas que inauguram outros olhares sobre ela e que ampliam suas possibilidades de ser, até então restritas pelo olhar de desgosto que sua mãe lhe impingia. Esses personagens oferecem o vislumbre de outras maneiras de se relacionar, o que a avidez de Júlia parece buscar continuamente, como quando, diante das palavras da diretora da escola, ela conclui que “de novo, aquela calma, aquele/ vocabulário, eram de alguém que teve pais incríveis”.

Na pensão, Júlia intensifica a escrita de um diário (em prosa, sem os cortes característicos da escrita de Bei) que mantém desde quando morava com a mãe e que se consagrou como refúgio, fazendo da escrita o consolo possível a suas dores de existir. É nesse caderno íntimo que começa a elaborar a história de Ed, rapaz que vive com uma mãe silenciosa e que apanha do tio, operando o que parece ser um deslocamento narrativo da dor que, no entanto, é sua. É logo após sua confirmação como escritora por uma carta recebida de um escritor que também morava na pensão que se dá o desfecho do livro, momento de conciliação da tríade filha-pai-mãe, como se só a escrita, ou sua possibilidade, a tornasse viável; como se o amadurecimento fosse a própria escrita. 

Puerilidade

Júlia é uma narradora adulta, mas cuja linguagem parece portar uma oscilação, uma puerilidade como aquela com a que se debate no início da obra, com momentos de apuro e beleza que alcançam o dizer de sentimentos muito específicos, como em “e o seu afeto, de tão palpável, era quase um segundo filho”, ou em “tirei a roupa/ que ficou embolada/ num canto/ a folha de um texto ruim”, e outros em que imagens gastas ecoam a brincadeira de que a protagonista se envergonhava antes, como em “minha mãe era uma flor/ que sangrou por ser idealista/ por isso se fechou/ em aço”, ou em “senti A l í v i o/ ao vislumbrar a sua imagem/ se aproximando/ do portão da escola”. Aqui, é como se a criança, ou mesmo a adolescente, descobrindo o mundo, os sentimentos e as palavras, precisasse tornar didática essa descoberta, sublinhando-a com recursos gráficos também para o leitor. 

Ainda que escrito com quebra de versos e trazendo alguns elementos do teatro, como os parênteses que ajudam a compor a cena com, por exemplo, “(vapor de ferro)” e “(tilintar de talheres)”, em Pequena coreografia do adeus sobressai, pelo fio narrativo, o romance, como confirma a ficha catalográfica. A capa, que Bei afirmou ilustrar o movimento do livro, traz uma obra da artista plástica Louise Bourgeois, États modifiés (estados modificados), em que, com aquarela, grafite e esferográfica sobre papel, uma mulher segura com ambos os braços outra pessoa, que, com o tronco em hiperextensão, não se sabe se está dançando ou caindo. Ambas as figuras têm a boca, representada apenas por círculos preenchidos de grafite, aberta em espanto ou dor. É uma imagem bela, ainda que pueril; bela justamente pela puerilidade, ressaltada pelos traços visíveis da esferográfica, a canetinha usada na escola. Talvez seja também esse o eco que a imagem da capa faz pousar sobre a história de Júlia Terra.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.