As Cidades e As Coisas,

Escrever como caminhar

Ensaios de Lauren Elkin percorrem cidades e a vida de escritoras que as conheceram com os pés

30jan2023 - 11h25 | Edição #66

Carreguei Flanêuse na bolsa por semanas. Li no ônibus, no metrô, senti o peso do livro ao caminhar pela cidade, sentei-me com ele em cafés. Na mesa de um dos mais barulhentos, o garçom me perguntou o que eu estava lendo. Virei a capa para cima: uma mulher anda olhando para a frente enquanto oito homens a observam; o garçom não podia ver que um deles, no verso, tenta até obstruir seu caminho. Uma passagem do livro ecoava na minha cabeça, acerca de mulheres andando em lugares onde a presença de homens não suscitaria comentários: “Esse é o ato transgressor. Sendo mulher, a gente não precisa ficar perambulando com uma jaqueta de náilon para ser subversiva. Basta sair de casa”.


Flâneuse: mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres, da escritora e tradutora norte-americana Lauren Elkin

Flâneuse: mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres, da escritora e tradutora norte-americana Lauren Elkin, publicado em 2016 e que chegou ao Brasil em 2022 em ótima tradução de Denise Bottmann, tem a forma de uma caminhada. Ou de várias: a forma que só podia instituir alguém que caminha por hábito. E não um alguém qualquer, mas uma mulher, pois transitar pelas ruas, ocupá-las, é diferente para cada gênero. Trata-se de um livro que jamais poderia ter sido escrito por um homem.

Fora a introdução e o epílogo, cada capítulo corresponde a uma cidade, e antes de cada um há uma breve indicação, quase um poema, de um caminho percorrido e, ao mesmo tempo, um convite a percorrê-lo. Abrindo “Em toda parte — a vista do chão”: “Em qualquer lugar, atravesse a rua, abra os olhos”, ao lado de uma das várias fotos que ilustram o livro. Fotos de lugares, de mulheres, diante e detrás da câmera.

Em “Long Island — Nova York”, você realmente precisa de um carro, nos diz a indicação-poema. Trata-se da primeira cidade de Elkin, que nos leva a percorrê-la em fotos, trechos de outros livros, impressões de sua infância e de mais tarde, quando já havia deixado o lugar. “O ambiente tem importância. É determinante, constitutivo; faz-nos quem somos, faz-nos o que fazemos.” Conseguimos entender, já que “os subúrbios apresentam o mundo a seus filhos como que envolto em feltro”, porque ela precisou se mudar de lá.

E então ela nos leva a “Paris — Café onde elas…”, lugar onde escolheu viver desde 2004 e para onde olha através de Jean Rhys, escritora em cujo encalço sai e descobre, simultaneamente nos livros e em sua vida, que Paris é o cenário ideal para certo tipo de autoabandono. Elkin conclui que Paris é também o cenário ideal para “o prazer viciante do desespero”.

Depois, a Londres de Virginia Woolf, para quem as ruas “davam tudo o que precisava” e cujo som “era uma espécie de linguagem”. Caminhar como quem escreve; escrever como se caminha, perguntar-se o que significa sair ou ficar quando se é mulher. “Podemos manter o fogo do lar aceso ou incendiar a casa; podemos ficar em casa, queimando por dentro, ou sair numa conflagração de autoafirmação”: na escrita de uma mulher há, hoje, inevitavelmente uma voz que emerge de séculos de invisibilidade e silenciamento; mesmo que, não notadas, as mulheres sempre tenham ocupado as páginas e as ruas.

As mulheres sempre estiveram ali, era só uma questão de disposição para olhá-las

Os passos de Elkin nos fazem retornar a “Paris — Filhas da revolução”, agora a Paris de George Sand, que precisava escrever com pseudônimo masculino e andava como um homem. Chegamos também à Paris de hoje com os vestígios de sua história, mesmo que sejam apenas palavra.

E seguimos Elkin a “Veneza — Obediência”, onde ela persegue Sophie Calle, que, por sua vez, persegue um homem e subverte o lugar da mulher acossável; e a “Tóquio — por dentro”, onde acompanhamos sua hesitação na cidade e em um relacionamento fadado ao fracasso, suas tentativas de aprender a língua e sair de casa, os trechos desesperados de seu diário.

E voltamos à Paris dos protestos, e depois aos seus bairros, agora seguindo Cléo, de Agnès Varda, seguindo também a própria Varda, uma mulher que escreve sobre uma mulher e é lida por outra, por outra, e por outra. Elkin segue o rastro de outras escritoras enquanto configura o próprio, em cujo encalço eu me coloco ao lê-la. Depois, o de Martha Gellhorn, fotógrafa de guerra para quem há espaço demais no mundo, o que a torna incapaz de assentar-se. E, enfim, o retorno a Nova York.

Seguir e deixar rastros

Tudo isso li em São Paulo, onde caminhar (e escrever) é diferente de caminhar nas cidades percorridas por Elkin e suas antecessoras e onde a desigualdade e a violência determinam trajetórias, e determinariam ainda mais se eu tivesse nascido negra ou morasse na periferia.

O rastro de Elkin e suas escritoras confirma que a figura da flâneuse não é a mera versão masculina do flâneur, aquele que vaga desde antes do século 19, fruto e contraste da vida burguesa na modernidade. “A alegria de andar pela cidade pertence igualmente a homens e mulheres.” Não se trata de “tentar encaixar a mulher num conceito masculino, mas sim em redefinir o próprio conceito”, começando por assumir que as mulheres sempre estiveram ali, era só uma questão de disposição para olhá-las.

Flâneuse é uma caminhada pela vida de mulheres que ocuparam tanto a cidade quanto a literatura no último século, provando que, ainda que excluídas do termo, elas sempre deram um jeito de colocar a palavra em ação segundo uma lógica própria, uma maneira específica de viver a cidade. Elkin deixa rastros de si mesma e conta a própria história em uma tênue linha feita de passos na rua, que compõem sua trajetória e nos convida a trilhar e escrever a nossa. 

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.