Literatura brasileira,

A ficção do luto

Escrever sobre a morte, como faz Natalia Timerman em ‘As pequenas chances’, é uma forma de lidar com a dor quando já se esgotaram todos os remédios

22nov2023 - 02h20 | Edição #76

Tanto o hospital quanto o aeroporto são lugares de passagem. Na maioria dos casos, entramos e saímos sem que nada fique na memória. Mas, de vez em quando, demora-se um pouco por algum motivo e, de repente, nada mais é claro, não dá para saber para onde ir. É isso que acontece com Natalia no início de As pequenas chances. Enquanto esperava o embarque de seu voo, ela foi comprar um café e encontrou o médico de cuidados paliativos que acompanhou seu pai no estágio terminal. Tinham se visto pela última vez anos atrás, no dia anterior à morte de Artur, paciente oncológico. Apesar do contato constante que tiveram no passado, em um processo tão íntimo e doloroso, a relação dos dois é profundamente desigual, pois “os médicos têm milhares de pacientes, e os pacientes e seus familiares, apenas um médico”. Eles se sentam para tomar o café enquanto esperam o horário de suas viagens, sem saber o que falar.


As pequenas chances, de Natalia Timerman, não reside apenas no relato preciso do luto, mas na descrição da história de uma família

Ouvi a indicação de As pequenas chances no Foro de Teresina: Thais Bilenky disse que lera em duas noites e que não havia parado de chorar. Comprei o livro como se fosse uma espécie de remédio, para ver se conseguia chorar e se, assim, me sentiria mais próxima do meu pai, que morreu de câncer em 2021. Em entrevista ao podcast 451 mhz, Natalia conta que escreveu as duas partes iniciais do livro em oito dias, em maio de 2019, dois meses depois da morte de Artur. Nesse momento ela sentia às vezes vontade de ligar para o doutor Felipe. Durante os últimos dias no hospital, ela não anotara nada. A escrita do livro foi uma maneira de reter e processar o que havia acontecido: a doença, a morte, o velório, os abraços de conhecidos que mais pediam do que davam, as coisas que ficaram na casa da maneira como seu pai as havia deixado, as últimas páginas dos livros que restariam inacabados, as roupas que não usaria mais. Depois da morte de alguém próximo, vivemos todas essas experiências de uma vez só, como um soco no estômago. Cada dia que passa se liga a uma cadeia de acontecimentos absurdos, que não para de crescer.

Parte da dor de quem fica se dá porque sobramos como fios desencapados de um sistema linguístico que se quebrou. De certa forma, perdemos nossas funções: filha, marido, mulher, afilhado, amigo. Artur e Natalia, ambos médicos, estavam nas posições difíceis de paciente e acompanhante. Palavras começam a se ligar de uma maneira incompreensível, deveriam estar erradas. “Morrer, meu pai morrer, palavras que não combinam, que até hoje tenho dificuldade de ver juntas.” 

Parte da dor de quem fica se dá porque sobramos como fios desencapados de um sistema linguístico que se quebrou

Talvez tenha sido por conta dessa espécie de destruição discursiva que, para escrever da experiência real do luto, ela tenha se apoiado em procedimentos próprios da ficção, partindo de um encontro imaginário em um aeroporto, que funciona como um espaço em branco, um lugar quase vazio de significado. Escrever sobre a perda é como mexer na carne viva: uma forma de lidar com a dor quando já se esgotaram todos os remédios. Lembrar é atravessar o inferno mais uma vez, tentando encontrar alguma coisa.

A beleza de As pequenas chances não reside apenas no relato preciso do luto, mas na descrição da história de uma família. Nessas situações extremas forma-se uma nova aliança, de combate à doença, de amor e cuidado.

No livro, Natalia descreve as regras do luto judaico, que ela, apesar de não ser religiosa, havia sido instruída a seguir por suas tias. Comer um ovo depois do enterro, sentar no chão com os irmãos e falar sobre o pai, cobrir os espelhos, rasgar a própria roupa, andar de meias em casa, virar as fotos do pai para baixo. Essas tarefas tinham uma explicação simbólica e religiosa, mas para ela ofereciam um amparo para lidar com a dor num momento no qual ficamos atordoados, sem norte.

Em ondas

Na entrevista, ela conta que, ao escrever, estava explicando tais ritos para si mesma, pois não os conhecia: entrou em contato com um sistema que seus antepassados haviam criado para dar conforto aos que estão passando por uma dor tão abissal e disforme. Esses trechos mais ensaísticos servem como uma espécie de respiro para a personagem. Em cada parte da narrativa ela procurou uma maneira de fazer esse movimento de tensionar e distensionar. Esses desvios da história parecem ter uma função plástica na construção do livro porque imitam a dinâmica da dor do luto, “que vem em ondas, e, quando vem, é como se me estrangulasse, tirasse meu prumo, e tomo consciência da aberração do meu corpo, de ter um corpo, em um mundo no qual meu pai não existe mais”.

Esses contrapontos emulam o movimento do câncer, que às vezes acelera, nos desesperando, e em outras se espaça, como se tivesse dado uma trégua. Nessas pausas os sentimentos são mais intensos do que nunca, apostamos toda nossa energia e esperança em aproveitar ao máximo o tempo que resta com o doente. Não sei se voltarei a ter essa sensação algum dia. 

Meu pai foi diagnosticado em 2012, quando eu tinha dez anos, e minha irmã, Cecília, seis. Na noite em que morreu, em 2021, saímos do hospital com minha madrinha, de carro, para buscar a roupa que vestiriam nele. Viramos em uma rua, depois em outra. Parecia que estávamos indo embora pela coxia, pela porta dos fundos de um acontecimento grande demais. Depois do desastre, avançamos para além da marca mais distante de futuro que eu conseguia imaginar. 

Agora minha mãe está lendo o livro, todo grifado pela minha irmã, como um palimpsesto

Depois de ler As pequenas chances, dei o livro a minha irmã, a pessoa com quem mais converso sobre o luto. A relação entre as filhas de Artur também é importante no livro. Quando ele foi internado, Gabriela, irmã de Natalia, estava num barco em Camarões, a trabalho. Acompanhamos sua volta: a ida até terra firme, o avião de Yaoundé a Paris e, depois, a São Paulo. A única coisa que importava era chegar: sentimos sua ansiedade, porque “no tempo ela percorria a distância que a separava do pai, mas o tempo passava para ele também, e agora ele tinha pouco, pouco tempo, poucos dias de vida, e ela, muita pressa”. Nesse trecho ouvimos a voz de Gabriela, que, depois, mandou áudios contando a história dessa viagem para que Natalia pudesse escrever. As pequenas chances foge assim ao modelo tradicional de “escrita de si” e rompe com a solidão e isolamento do luto.

No final da história, Natalia se apropria da voz de Thais Bilenky. A princípio, a autora pretendia ir à Ucrânia para conhecer o passado de sua família, mas, com a guerra, isso se tornou impossível. A escrita vira uma forma de fazer a viagem a partir do relato de Thais, que pouco antes fora à mesma região com esse intuito. O livro chega agora, em dezembro de 2023, interpelado por duas guerras, nas quais sobram órfãos como espólio do desastre.

Apesar da perda e da morte, Natalia utiliza a ficção como uma ferramenta para ampliar a realidade. Agora minha mãe está lendo o livro, todo grifado pela minha irmã, como um palimpsesto. Aqui em casa As pequenas chances foi uma espécie de cápsula que traçou uma comunicação profunda entre o luto de nós três e o de Natalia e sua família. Várias vozes se encontram no livro, que funciona como um ritual, literário, para a criação de outros futuros possíveis.

Quem escreveu esse texto

Maria Stockler Carvalhosa

É escritora e curadora da editora de audiolivros Supersônica.

Matéria publicada na edição impressa #76 em novembro de 2023.