Repertório 451 MHz,

Escrever o luto

O psicanalista Christian Dunker e a escritora e psiquiatra Natalia Timerman conversam sobre como a escrita ajuda a lidar com a morte e a incompreensível dor da perda

10nov2023 - 04h51

Está no ar o 99º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Tema recorrente na literatura contemporânea e de todos os tempos, o luto é o assunto deste episódio, que tem a participação de Natalia Timerman e Christian Dunker, autores de livros sobre perda e luto. Nos últimos anos, o sentimento ganhou novas camadas, principalmente depois da pandemia de Covid-19, das guerras contemporâneas e outras situações de morte. Este episódio tem apoio da Companhia das Letras.

Experiência compartilhada

Os dois convidados deste episódio, Natalia Timerman e Christian Dunker, acabam de lançar livros que tratam do luto sob diferentes aspectos. A escritora acaba de publicar pela Todavia o romance As pequenas chances, em que trata da morte do pai. Já o psicanalista Christian Dunker faz uma análise sobre esse sentimento em Lutos finitos e infinitos, publicado pela editora Planeta, escrito depois da morte da mãe.

  

A escritora e psiquiatra Natalia Timerman [Renato Parada/Divulgação]  e o psicanalista Christian Dunker [Acervo pessoal]

Psiquiatra e autora de Copo vazio (Todavia), sobre uma situação de ghosting, Timerman conta que escreveu o novo livro pensando o luto apenas do ponto de vista literário, como em todos os seus livros, exceto Desterros.

 

A autora conta que boa parte de As pequenas chances foi escrita dois meses após a morte do pai, em oito dias. Dividido em três partes, a narrativa também a colocou em contato com os ritos judaicos do luto, algo que não era uma tradição familiar, mas que trouxe muito acolhimento.

    

 

Entre as leituras que a ajudaram a compor a história de As pequenas chances e a elaborar o próprio luto, Timerman cita outros livros sobre a perda de alguém, como O pai da menina morta, de Tiago Ferro; Lili, de Noemi Jaffe, A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Monteiro e O nome do meu pai, do Marcelo Labes.

 

Naquele que define como seu livro mais pessoal, Dunker afirma que Lutos finitos e infinitos parte da experiência de perda da mãe, mas durante a redação foi se encadeando com a perda de incontáveis vidas da pandemia de Covid e de seu analista. A narrativa inclui também sonhos do autor e relatos de casos clínicos. 

O psicanalista afirma que narrar algo pessoal não é exatamente uma fórmula nova. “A interpretação dos sonhos, esse livro inaugural da psicanálise, foi feito num momento de luto do Freud, que tinha perdido o pai, e a ampla maioria dos sonhos ali discutidos são de autoria do próprio Freud”, afirma. “Essa conexão entre teorização e autoficção está na origem da psicanálise.”

 

A ideia de escrever o livro, diz Dunker, surgiu quando falava sobre o luto para uma plateia e alguém comentou que ele ainda não havia escrito um livro na “língua materna”, o que fez ele pensar numa maneira de elaborar a própria perda que estava vivendo. O psicanalista afirma ter experimentado comportamentos comuns de pessoas em luto, como tentar substituir a perda por ausência, acreditando momentaneamente que a pessoa querida estivesse ausente e pudesse voltar. 

Mais na Quatro Cinco Um

Em entrevista a Bruna Meneguetti, Christian Dunker explica que não há regra geral para se viver as seis etapas do luto, já que a morte é algo “impossível de ser vivido”. Para o psicanalista, a perda só é vivenciada por meio do outro, sendo um acontecimento que costuma se refletir no incompreensível e no indizível, como mostra a safra de lançamentos que usam a escrita para elaborar o luto.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie também trata do tema em Notas sobre o luto, escrito sob a dor da perda do pai, com quem tinha um vínculo profundo, em meio à pandemia. Embora a morte dele não tenha tido relação com o vírus, a autora se viu confrontada por seu luto pessoal, enquanto o mundo vivia um processo de luto coletivo: “Como as pessoas andam pelo mundo, funcionando, depois de perder um amado pai?”, questiona.

Já em O que é o luto (Harper Collins), o filósofo e escritor Renato Noguera usa narrativas de diferentes tradições (africanas, indígenas, ocidentais) para entender nossas emoções diante das perdas e propor uma ética para o luto. Em entrevista para a Quatro Cinco Um, ele fala sobre como o entendimento do amor nos ajuda a lidar com a morte.

A perda da irmã Serena é o tema do infantojuvenil Serena finitude (Veneta), da cantora e escritora Anelis Assumpção com ilustrações de Aline Bispo. “Não planejei escrever um livro sobre a Serena, mas, desde que ela morreu, quase tudo que eu produzo é acerca dela”, contou a artista em entrevista. 

O melhor da literatura LGBTQIA+

A jornalista Barbara Krauss, criadora do canal literário “B de Barbárie”, indica As aventuras da China Iron, da argentina Gabriela Cabezón Cámara, lançado em 2021 pela editora Moinhos e traduzido por Silvia Massimini Felix. 

“Esse livro foi finalista do International Booker Prize em 2005 e traz um outro lado da história do Martín Fierro, um clássico da literatura gauchesca argentina num ponto de vista queer fenomenal, que trata de entropia, povos indígenas, relações entre mulheres, relações não convencionais. Me deixou impactada de diversas formas e me fez chorar no final”, diz.

Confira a lista completa de indicações dadas no podcast 451 MHz, no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Ashiley Calvo
Edição: Luiza Silvestrini
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace e Luis Rodrigues, da Pipoca Sound
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Bia Ribeiro
Para falar com a equipe: [email protected].br