Arte,

A construção do olhar

Fotografias táteis de Sebastião Salgado mostram que só entendemos as imagens a partir daquilo que já sabemos

26maio2023 - 12h31 | Edição #72

Eu estava presa fora de casa, esperando algum vizinho chegar, quando de repente apareceu um motoboy para fazer uma entrega. Alguém iria descer, abrir a porta do prédio e então tudo estaria resolvido. Mas, no final, a entrega era para mim. Peguei o pacote e me sentei na padaria do outro lado da rua. Por enquanto, dava para começar a ver o livro. Uma caixa grande, de dois palmos de largura por um palmo e meio de comprimento. O título em braile está no canto inferior direito. Não sei ler muito rapidamente ainda. Tenho de fazer um esforço para reconhecer os pontos, como se estivesse sendo alfabetizada mais uma vez. Vamos do começo. Ponto 1: A; pontos 1, 3 e 4: M; ponto 1 de novo, mais um A; ponto 1, 5… Esse é difícil. Bom dia, tudo bem? Acho que vou querer um suco de melancia, por favor. A, M, A, pontos 1, 3, 5 e 6: Z. Meu Deus, assim vou fritar meu cérebro! Amazônia Touch, Sebastião Salgado, Fondation Visio.

Dentro da caixa tem um livro com as fotos impressas, que não serve para mim, e 22 papéis grossos soltos: 21 são imagens táteis e o outro é um papel dobrado três vezes, com um texto em braile. Não estava conseguindo entender até que percebi que o texto era em francês e o guardei de volta na caixa. Na lombada, aparece o título de novo em braile com um QR Code sinalizado por pontos. Esse código direciona para um site que tem opção para ser lido em francês ou inglês. Aparece então uma explicação sobre o projeto do livro e, para cada foto, há um documento de áudio e um pequeno texto com informações adicionais.

Tentei reconhecer o que as imagens representavam só tocando nos papéis, mas isso foi impossível

Nunca tinha tocado em um livro com imagens táteis antes. São onze retratos, sete fotografias de paisagem e três mapas que fazem parte da última exposição de Sebastião Salgado, Amazônia, que estreou na Filarmônica de Paris em 2021 e, depois de viajar por Londres e Roma, chegou a São Paulo, no Sesc Pompeia, em 2022, e ao Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, no mesmo ano. A exposição é composta por 192 fotos que Salgado tirou ao longo de sete anos, além de vídeos e mapas fornecidos pelo Instituto Socioambiental e trilha sonora do compositor francês Jean-Michel Jarre a partir de arquivos sonoros da Amazônia do Museu de Etnografia de Genebra. Essa trilha também aparece no fundo dos guias em áudio feitos para acompanhar a leitura tátil das fotos.
Segundo o fotógrafo, em entrevista ao Roda Viva em 2020, depois de publicar Trabalhadores, Êxodos e Genesis, esses livros correlatos da exposição Amazônia serão, possivelmente, os últimos que ele fará em torno de um só tema.

Amazônia Touch foi publicado em 2022, por meio de uma parceria da Fondation Visio com a Fondation Crédit Mutuel Alliance Fédérale, em uma tiragem pequena, de 550 cópias. Junto com o lançamento do livro foram organizados workshops para deficientes visuais, professores e “profissionais especializados no acompanhamento de deficientes visuais”, seja lá o que isso quer dizer, para orientar a leitura das fotografias táteis. Não sei se leitura é a melhor palavra. Na verdade, não sei como explicar. O site diz que as imagens táteis tornam qualquer representação 2D acessível, de maneira não visual, mas também não acho que esse é o melhor jeito de descrever.

Imagem tátil de Adão Yawanawá na terra indígena do Rio Gregório, no Acre, em 2016

Tentei, no começo, reconhecer o que as imagens representavam só tocando nos papéis, sem ouvir os audioguias e sem ler os textos de apoio, mas isso foi impossível. Dependendo do que você quer achar, um olho pode ser muito parecido com um tronco de árvore. Os audioguias funcionam bem porque dão uma direção, tanto a respeito do que a fotografia representa quanto sobre sua orientação, horizontal ou vertical. Os textos de apoio misturam um estilo de enciclopédia — dando informações gerais sobre os doze povos indígenas retratados e os fenômenos naturais que ele conseguiu registrar — com uma espécie de caderno de viagem.

Usando essas informações, fui reconhecendo o que os relevos, sulcos e texturas no papel branco representavam. Tive acesso então a imagens que já tinham me descrito e que pensei que gostaria de ter visto, como a da foto 15, que mostra o festival do Kuarup em uma aldeia waujaá, no Xingu, e a da foto 1, que mostra o encontro do rio Negro com o rio Cuyuni, com os rios voadores em cima, no Amazonas. Mas como me lembro, agora, dessas imagens? Não me lembro mais da sensação tátil do papel nem exatamente das palavras que o audioguia e os textos de apoio usaram. Onde então, para mim, a foto passou a existir? 

Na entrevista ao Roda Viva, Salgado disse que a gente fotografa com nossa herança e que ele fotografa com sua maneira de ver, sua ideologia e sua preocupação social. Ele não fotografa apenas com uma câmera e um estúdio portátil, assim como as pessoas não veem apenas com dois nervos ópticos eficientes, mas também com seu próprio repertório. É nesse lugar, entre a imagem e o imaginado, que mora a tecnologia assistiva, e é esse mesmo lugar, aberto a informações táteis, sonoras e visuais, que pode ser hackeado.

No alto, vista da floresta no arquipélago Mariuá, no rio Negro; abaixo, a reprodução tátil da foto

 

Hackeando o sistema

Hackear é entender um conjunto de dados que formam um sistema que parece, à primeira vista, muito complexo e impossível de se quebrar, mas no qual se encontra um espaço onde dá para inserir um dado extra. Isso pode infeccionar e quebrar o sistema ou fazer as informações confluírem de uma nova maneira. Em entrevista ao canal Escuta, Denilson Baniwa conta que, quando era mais jovem, foi para Manaus por conta do movimento indígena amazônico e ingressou na graduação de ciência da computação. Anos depois, quando já tinha começado sua carreira como artista plástico e estava visitando a 33ª Bienal de São Paulo, em 2018, foi esse tipo de operação que lhe veio à cabeça. Denilson viu ali várias obras que remetiam à cultura indígena, mas não encontrou na exposição nenhum trabalho de um artista indígena. Foi então que percebeu que o espaço aberto para hackear a Bienal seria entrar lá com um trabalho artístico. O vídeo dessa performance ficou famoso. Denilson vai à Bienal vestido de pajé, com um cobertor com estampa de onça nas costas, e coloca uma flor na frente de cada quadro que remete à cultura indígena. No vídeo dá para ouvir ele falando “roubo!” enquanto rasga um livro e, ao mesmo tempo, ouve-se os seguranças dizendo que aquilo não está autorizado. No final eles conseguem interromper a performance, alegando que ele está dizendo coisas violentas contra a arte.

Ele disse que isso teria sido o suicídio de sua carreira caso não tivesse ganhado o prêmio Pipa em 2019. Em uma conversa no Instituto Moreira Salles, na abertura da exposição de Claudia Andujar, ele diz que as culturas indígenas conseguem subjugar as novas ferramentas que aparecem — como câmeras de filmagem, de fotografia, canetas e papéis — e as ressignificar. Essas ferramentas existem para serem usadas, e esse é um jeito de guardar as histórias de mitologia e de resistência desses povos.

E compartilhar essa história também, sabe? Porque mesmo que a gente defenda os nossos territórios e nosso modo de vida, toda essa luta também influencia diretamente o modo de vida e a história de vocês.

Nessa conversa ele fala sobre como os indígenas têm essa urgência de sobrevivência, de adiar o seu fim todos os dias e sobre como esse é o motivo pelo qual ele pinta e outros artistas indígenas escrevem, filmam, gravam etc.

Imagem tátil de Josane e Aldeni, duas indígenas Yanomami, na região do rio Demini, Amazonas, em 2014

 

Por sua vez, quando questionado a respeito dos motivos que o levaram a fazer a exposição Amazônia, Sebastião Salgado disse que decidiu iniciar esse projeto fotográfico quando percebeu, em suas viagens, a degradação veloz do meio ambiente. Ele viu que poderia utilizar suas fotos para alertar o mundo desse perigo e falou ao G1, na ocasião da abertura da exposição, que “os povos indígenas na Amazônia brasileira, principalmente, representam a pré-história da humanidade”. Salgado fez declarações parecidas ao Roda Viva e em sua fala na abertura da exposição em Paris. Essas frases ecoam um discurso de antropologia evolucionista, que estabelece relações artificiais de assimetria entre culturas diferentes, conferindo à cultura branca o ápice da modernidade — uma perspectiva ainda do século 19. Essa concepção é corrosiva inclusive para o próprio objetivo de sua nova exposição.

Ainda na conversa no IMS, Baniwa conta uma história na qual Davi Kopenawa e Ailton Krenak estavam em Paris, visitando uma exposição, quando viram um holograma. Kopenawa perguntou o que era aquilo, e Krenak respondeu que era uma espécie de fotografia. Kopenawa respondeu então que aquele era um xapiri pe. Em seu livro novo em parceria com Bruce Albert, O espírito da floresta, Kopenawa diz que demora tanto tempo para começar a ver os xapiri pe quanto demora para os brancos aprenderem a desenhar os sons de suas palavras. Nesse livro, a relação dos yanomami com as imagens é um dos temas principais, pois em torno disso se organizam a cosmologia e a ontologia desse povo indígena. Mas, tradicionalmente, as imagens descritas pelos xamãs não são reproduzidas e não existe ícone. São imagens invisíveis que só eles, pessoas-espírito, conseguem ver. Para eles, todas as formas de imagem — pinturas em papel, fotografias, imagens digitais, esculturas etc. — com as quais entraram em contato com pessoas de fora de seu território estão dentro da mesma categoria, utupëa. O termo remete ao reflexo de uma pessoa na água ou em um espelho. Hoje, pessoas yanomami utilizam essas formas de representação também como ferramentas artísticas e políticas frente a um cenário de ameaça constante a suas terras.

Queria ter uma experiência de percepção sozinha, mas isso não existe. Entendi as imagens a partir do que já vi

Eu não conhecia as fotografias táteis. O projeto de Amazônia Touch e do site de apoio é muito bem feito. Foi bom poder, de alguma forma, conhecer essas imagens sozinha, sem passar pela descrição de outra pessoa. Mas percebi, no meio das 21 fotos, que isso não era bem verdade. Os audioguias e os textos são formas de descrição fornecidas pelo próprio Sebastião Salgado e pela equipe que trabalha com ele. Ao longo do livro, fui tentando me afastar do olhar dele; queria ter uma experiência de percepção das fotos sozinha — mas isso não existe. Eu também entendi as imagens a partir do meu repertório, do que já vi e do que pesquisei para esta resenha. Essas fotografias pairam agora em algum lugar entre a memória, os ouvidos e os dedos.

Quem escreveu esse texto

Maria Stockler Carvalhosa

É escritora e curadora da editora de audiolivros Supersônica.

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.