Literatura,

Diário de um procrastinador

Levrero mergulhou em seu próprio tédio e transformou o tempo morto da velhice numa das narrativas mais engraçadas dos últimos tempos

20nov2018 - 11h53 | Edição #11 mai.2018

“Desvarios de uma mente senil.” É com tal autoironia que o escritor uruguaio Mario Levrero (1940-2004), em nota na abertura de seu hilário e comovente O romance luminoso, define o próprio livro e aproveita para pedir a compreensão de todos aqueles (“pessoas ou instituições”) que se sentirem afetados ou prejudicados com as opiniões expressas nele.

A referência que faz às instituições se justifica porque o livro foi escrito, em sua maior parte, com apoio da Fundação Guggenheim, que no ano 2000 concedeu uma bolsa a Levrero para terminar de relatar as “experiências luminosas” que, segundo consta, ele vinha tendo desde os anos 1980. Quanto às pessoas, provavelmente a menção diz respeito aos leitores impertinentes (“desses que nunca faltam”) que irão questionar, a certa altura, “por que esse cara recebeu um montão de grana” para ficar jogando paciência e campo minado no computador. Paciência, leitores.

‘O montão de grana’ sobe à cabeça do autor, e sua primeira providência é ficar totalmente à toa, pois só assim poderiam lhe ocorrer experiências luminosas

A questão é que a bolsa Guggenheim proporciona a Levrero uma situação de vida inédita, e talvez também — mas não necessariamente — luminosa: pela primeira vez, aos sessenta anos de idade, morando sozinho em um modesto apartamento em Montevidéu, o escritor passa a ter certa tranquilidade financeira, pelo menos por um tempo. É a partir daí que O romance luminoso se inicia. Ex-livreiro, ex-roteirista de quadrinhos e ex-criador de palavras cruzadas, além de autor celebrado em círculos mais ou menos restritos, ele enfim podia se dedicar à sua literatura. Em vários momentos do livro, em cartas endereçadas à Fundação, Levrero chega a agradecer ao sr. e à sra. Guggenheim pela confiança e oportunidade.

“Estimado sr. Guggenheim”, escreve ele, “acho que o senhor gastou mal seu dinheiro nesta bolsa que me concedeu com tanta generosidade. Minha intenção era boa, mas a verdade é que não sei o que aconteceu com ela. Já se passaram dois meses: julho e agosto, e a única coisa que fiz até agora foi comprar essas poltronas (que não estou usando) e consertar o chuveiro (que também não estou usando). Passei o resto do tempo jogando no computador. Nem sequer posso entregar como equivalente este diário da bolsa; o senhor deve ter notado como deixo assuntos em suspenso e depois não consigo voltar a eles. Bom, só queria lhe dizer essas coisas. Muitas saudações, e mande lembranças à sra. Guggenheim”.

Por outro lado, parece que “o montão de grana” sobe à cabeça do autor, e sua primeira providência é ficar totalmente à toa, segundo ele próprio confessa, pois só assim poderiam lhe ocorrer novas experiências luminosas, e o livro torna-se então uma espécie de diário da procrastinação.

Ócio 

A segunda providência é comprar um par de poltronas para a “nova sala de ócio”. Ao sentar em uma delas, a mais molenga, logo pega no sono, pois não há alternativa senão relaxar. Quanto à segunda poltrona, ele jamais se senta nela. Como se não bastasse, compra duas mesinhas metálicas para pôr ao lado das poltronas, como apoio de livros e cigarros, e logo depois se questiona: estaria virando frívolo?

As experiências luminosas tardam a aparecer, é claro, e o leitor acompanhará então o “Diário da Bolsa”, um “prólogo” de pouco mais de quinhentas páginas em que o autor escreve sobre tudo um pouco (dinheiro, fobias e manias, velhice, problemas de saúde, softwares, sonhos, experiências eróticas malsucedidas, ioga, noites maldormidas, romances policiais baratos, fantasmas, oficinas literárias e parapsicologia, entre outros assuntos), e principalmente sobre o nada, que ganha forma, por exemplo, na falta de um projeto consistente para o seu livro, mas também na solidão em que o escritor se encontra, divorciado e vendo os amigos morrer, um a um.

Quanto a isso, nota-se a atenção que Levrero dedica a uma família de pombas que vive no telhado do vizinho. Pela janela do apartamento, de onde quase não sai, o autor passa a observá-las de forma obsessiva e a tomar inúmeras notas, no melhor estilo etnográfico, sobre a maneira como elas se comportam. São páginas e mais páginas dedicadas às pombas. Uma delas morre, e as outras ganham apelidos ligados à antiga companheira: necrófila, viúva etc. A imagem da pomba morta e abandonada, que ali permanece e aos poucos se decompõe, passa a ser motivo de assombração para o autor. Por um lado, Levrero é captado por essa pomba morta a ponto de se identificar com ela; por outro, é admirável sua extrema delicadeza no tratamento de assunto tão tenebroso, assim como a transformação em pesadelo de assunto tão delicado. Por sinal, a capa do romance em espanhol mostra uma pomba solitária — e um tanto perdida — sobre uma cama. Parece ser esta a condição do narrador.

Em suma, o vazio é a principal matéria-prima do romance, que também pode ser lido como uma espécie de batalha travada por Levrero — que chega a se comparar com um personagem de Beckett — em duas frentes principais, que caminham juntas e se conectam de forma surpreendente.

A batalha mais evidente, que é introduzida logo nas primeiras páginas do diário, quando Levrero confessa ser impossível narrar experiências luminosas, é entre o autor e a sua escrita. Na teoria de Levrero, “certas experiências extraordinárias não podem ser narradas sem que se desnaturalizem; é impossível levá-las ao papel”. Por que então seguir escrevendo O romance luminoso?

Poderia ser questionado se o livro é um romance. Para Levrero tanto faz, afinal ‘um romance é qualquer coisa que se ponha entre uma capa e uma contracapa’

Se Levrero passa a levar uma vida ociosa como forma de “retornar” a si próprio, de acordo com sua justificativa, ele também trabalha sem parar no diário, já que escreve todos os dias (regra que se impõe, mas depois descumpre) e revisa obsessivamente, procura caminhos para o romance e volta atrás, apaga, improvisa, interrompe, faz autocríticas destruidoras, ou seja, gira no vazio, na tentativa de levar a cabo o seu projeto, para o qual a Fundação Guggenheim paga em dólares, embora não exija nada concreto em troca.

A luta diária com a escrita, na tentativa de narrar “algo interessante”, talvez seja o próprio romance luminoso, mas talvez não. Joca Terron, que assina a orelha da edição, sugere que sim, ao afirmar que o autor extrai “luz pura do marasmo hipnótico de seus últimos dias”, mas o próprio Levrero chega a falar também de um “romance obscuro” que se contrapõe ao luminoso. Por sua vez, Enrique Vila-Matas diz que leu o livro “até a derrota final”, como se, no fim das contas, não houvesse experiência luminosa nenhuma, só fracasso em cima de fracasso, embora após o fim do diário possamos ler O romance luminoso propriamente, que possui menos de cem páginas e consiste nos relatos que o autor escreveu ainda nos anos 1980. Somando o diário e as experiências luminosas, foram quase setecentas páginas enviadas ao sr. Guggenheim.

“Como terminei esse livro e não tenho mais nada de atraente para ler, fui à banca de livros usados que fica na esquina de casa e depois de revirar tudo encontrei oito livrinhos policiais da coleção Rastros. Quarenta e oito pesos. Com certeza são abomináveis, mas vou ler todos.”

A rigor, poderia ser questionado inclusive se O romance luminoso é um romance. Levrero primeiro diz que não, depois diz que poderia ser, e parece concluir que tanto faz, afinal “um romance é qualquer coisa que se ponha entre uma capa e uma contracapa”. Se for um romance, certamente não é da mesma forma que os livros de Bolaño são, com quem se tem comparado Levrero. Na verdade, Levrero escreveu um romance depois do fim do romance, enquanto Bolaño explorou o romance em seu último suspiro.

Quanto à outra batalha, que em todos os aspectos é ainda mais dura que a primeira, ela se dá entre o escritor e a própria vida, ou seja, diz respeito à maneira como Levrero enfrenta as suas depressões, fobias, manias, que são muitas, e também como lida com as suas combalidas relações e seus problemas de saúde, que não são poucos. O autor, que veio a morrer dois anos depois do fim do livro, antes de vê-lo publicado, chega a afirmar que escreve “com a liberdade de um condenado à morte”.

Dos transtornos para dormir e do calor insuportável de Montevidéu a uma conturbada, viciada e às vezes demoníaca relação com o computador, que ele tenta evitar a todo custo, mas com poucos resultados, quase tudo se torna um pouco épico e fabuloso em sua mente louca e engenhosa, assim como motivo de piada. Ao mergulhar no fundo do próprio tédio e transformar o tempo morto da sua velhice em uma das narrativas mais originais e engraçadas dos últimos anos, Levrero parece levar a cabo o conselho que oferece à pomba morta: “Ê, pomba morta, levante-se e voe”. 

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

Matéria publicada na edição impressa #11 mai.2018 em junho de 2018.