Literatura brasileira,

João Cabral sem dor de cabeça

Poeta pernambucano ganha sua primeira biografia, que interpela criticamente a sua obra e reúne anedotas sobre a personalidade obsessiva do poeta

01dez2021 - 04h51 | Edição #52

I

João Cabral de Melo Neto viveu em mais de dez países ao longo da carreira diplomática, chegou a receber um prêmio literário das mãos da rainha Sofia, na Espanha, consumia mais ou menos oito comprimidos de aspirina por dia e aos setenta anos fumou maconha pela primeira vez — não achou ruim, mas evitou repetir, já que podia perder o controle e, sem motivo, começar a dar gargalhadas.

A recente biografia do poeta — intitulada apenas com o seu nome completo, alusão à obsessão de Cabral pela simetria dos números pares, daí ele contrariar a família e usar o Melo com um “l” só — é a primeira a passar a limpo sua vida inteira. Desde a infância à beira do rio Capibaribe, em Pernambuco, até a morte em um espaçoso apartamento no Rio de Janeiro — cujas janelas permaneciam fechadas à paisagem, e onde vivia quase cego na companhia da segunda mulher, a poeta Marly de Oliveira —, o livro acompanha toda a trajetória de Cabral por meio de seus livros, das cidades onde viveu, da tumultuada trajetória na diplomacia e das cartas que trocou com parentes, escritores e amigos.

Quem assina a biografia é Ivan Marques, crítico e professor de literatura da Universidade de São Paulo (usp), que havia se dedicado ao estudo de outros poetas brasileiros, a exemplo de Orides Fontela e Carlos Drummond de Andrade, mas jamais por meio de uma biografia, e no caso tão alentada. Apesar da estreia no gênero, o biógrafo — jornalista de formação — fez um trabalho que já nasce como referência incontornável para os leitores de João Cabral. Com um texto agradável e ponderado, além de extensa pesquisa em fontes diversas, Ivan Marques escreveu um livro fácil de ler, farto de informação e casos curiosos, extremamente útil, às vezes engraçado e sem perder de vista o mais importante: a poesia do seu biografado.

O livro se detém, sobretudo, na trajetória literária de João Cabral, embora o biógrafo volta e meia faça incursões pela vida íntima do poeta — por exemplo, ao narrar o período em que Cabral se internou em um hospício para tratar do nervosismo e da dor de cabeça, sob os cuidados de um tio psiquiatra, ou ao indicar que cultivou amantes em Sevilha, quando foi visto com duas mulheres em seu Chevrolet. Mas tais incursões em geral são feitas com certa parcimônia, e Ivan Marques lembra a certa altura que seu biografado “tinha horror de se abrir, de ver sua intimidade devassada”.

Um dos casos que o biógrafo descreve em detalhes — este sim de grande repercussão pública — lembra o período conturbado de Cabral no Itamaraty, quando foi removido do cargo de vice-cônsul nos anos 50 após a acusação de envolvimento com o movimento comunista. O caso, verdadeira peça nonsense da política nacional, foi nomeado à época pelo jornalista Joel Silveira de “Kafka no Itamaraty”. Ao lado de mais quatro diplomatas, Cabral foi punido com a perda da função — e do salário — por uma lei que não existia, e por um crime que não cometeu.

Ivan Marques analisa não apenas os efeitos de tal remoção e as marcas que deixou na vida do poeta, mas refaz toda a rede que envolvia outros personagens da vida brasileira — como o poderoso jornalista Carlos Lacerda, diretor da Tribuna da Imprensa e responsável por uma espécie de perseguição pública e quase diária a Cabral, e o próprio presidente do país, Getúlio Vargas, de quem Lacerda era inimigo e a quem procurava atingir com toda a confusão envolvendo os diplomatas.

Ironia do destino, caiu nas mãos de Cabral a redação do obituário de Vargas para o jornal Última Hora, no qual o poeta trabalhou provisoriamente enquanto sua situação não se resolvia no Itamaraty. E teve que ser celebratório, atendendo também à linha editorial do periódico. Em edição extra, no dia 24 de agosto de 1954, o obituário exaltou a grandeza do sacrifício de Vargas, ressaltou a pureza de seus ideais populares e nacionalistas e chegou a compará-lo a um herói pernambucano, Frei Caneca, mas Cabral não o assinou. “Poeta de um número reduzido de leitores”, escreve Ivan Marques, “João Cabral teve na ocasião a glória de ver um texto de sua autoria devorado por mais de 1 milhão de pessoas.”

II

No entanto, é na trajetória propriamente literária de Cabral que se constrói, de fato, a viga mestra da biografia, a partir da qual Ivan Marques confere sentido ao destino da vida de seu biografado. O intuito se nota logo nas primeiras páginas do livro, em que se narra o nascimento do escritor — não da pessoa, que fica para depois — a partir de um encontro cheio de significados para a biografia de João Cabral. Era 1940, o poeta pernambucano havia recém-completado vinte anos de idade, fazia a sua primeira viagem ao Rio e escrevia uns poemas ainda verdes, às escondidas. Por mediação de Murilo Mendes, o jovem poeta conseguiu ser recebido por Carlos Drummond de Andrade na capital carioca — em plena véspera de Carnaval, os dois evitaram o botequim e tomaram um chá na confeitaria A Brasileira.

O encontro é cheio de significados porque, a essa altura, a poesia de Drummond, mais do que uma influência, havia aberto para João Cabral a possibilidade de fazer literatura — Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934) eram espécies de cartilhas do poeta iniciante, leituras descobertas no final da adolescência, que apresentavam não apenas um antiparnasianismo exemplar, mas também ausência total de sentimentalismo.

Por outro lado, depois de Drummond se tornar padrinho de casamento de Cabral e um dos jurados do primeiro grande prêmio de poesia que ele recebeu, em 1953, a relação entre os dois vai aos poucos azedando — e as rusgas, entremeadas eventualmente com renovações de votos, acompanham toda a vida dos dois poetas. Quando Drummond lançou Amar se aprende amando, já em 1985, Cabral repetia entre amigos que era seu livro de cabeceira, “que lia como antídoto, para nunca escrever assim”. Um ano antes, sobre o Auto do frade, de Cabral, Drummond comentou que “ele tanto fez que acabou criando poemas sem poesia”.

Seja como for, poucos meses antes de sua morte, Cabral — com um fio de voz — disse a José Maria Cançado, biógrafo do poeta mineiro: “Se não fosse Drummond, eu não seria nada”. Daí que o nome de Drummond seja o mais citado na biografia de Ivan Marques, 323 vezes. Para se ter uma ideia, Stella, esposa de Cabral por quarenta anos, é mencionada 256 vezes; e o estado de Pernambuco, verdadeira pátria cabralina, recebeu 210 menções.

III

Controvérsias à parte, o destino de ambos os poetas seria mais ou menos o mesmo: a consagração. Cabral, como mostra Ivan Marques, nos últimos anos de vida recebeu alguns dos prêmios literários mais importantes não apenas da língua portuguesa, mas do mundo. Em 1990, foi um dos primeiros vencedores do Prêmio Camões, poeta, aliás, que Cabral odiou desde o colegial até o último instante de sua existência — Manuel Bandeira, quando queria irritá-lo, escrevia no fim das cartas dirigidas ao primo de segundo grau: “Viva Luís de Camões! Viva Antero de Quental!”.

Nos anos seguintes, Cabral ainda recebeu o prestigioso Prêmio Literário Internacional Neustadt (1992) e o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana (1994), entre outros. Chegou a ser cotado para o Nobel ao lado de Jorge Amado, mas perdeu as esperanças após a distinção ser concedida a José Saramago.

Nessa mesma época, sua obra completa também foi reunida em um único volume, primeiro em Portugal e depois no Brasil. No lançamento em Lisboa, Cabral teria dito ao crítico português e amigo Arnaldo Saraiva uma frase reveladora do lugar da poesia em sua vida: “Isto não presta para nada, e no entanto está aqui a minha vida inteira”. Já no Rio, no dia em que saiu a edição da Nova Aguilar, Cabral ficou plantado na calçada em frente ao prédio onde vivia, aos 75 anos, esperando o seu volume chegar. Ao se despedir do editor, que entregou o exemplar do poeta em mãos, ainda foi ao botequim tomar duas doses de uísque. Para a esposa, no entanto, consta que informou outra coisa: tinha descido para comprar cigarros.

Mas dos poemas verdes até a consagração, claro, muita água correu nesse rio. Aliás, o próprio Capibaribe — que, como diz o biógrafo, é um rio de percurso difícil, daí ser considerado “o rio dos retirantes” — poderia ser tomado como síntese do percurso do poeta. Pela dificuldade e estranheza de sua poesia, notadas pelos críticos desde os primeiros livros, João Cabral não foi o poeta mais adorado das editoras comerciais — durante muito tempo seus títulos foram publicados em pequenas tiragens, de duzentos ou trezentos exemplares, quase sempre na editora do próprio autor. O pior ocorreu no final dos anos 50, quando a José Olympio recusou um de seus livros, Quaderna, e a recusa foi divulgada em notas na imprensa — o que causou grande depressão ao poeta, acentuada à época pela vida em Marselha, cidade que odiava mais do que aos livros de Camões.

Em cartas enviadas aos amigos nesses anos, eram constantes os vitupérios do poeta contra a literatura nacional, da qual parecia se sentir cada vez mais deslocado. Em carta a Clarice Lispector, disse se tratar de uma literatura superficial e improvisada. Ao amigo Lêdo Ivo, ironizou dois escritores lançados pela editora que recusou seu livro, Dora Vasconcellos e Thiago de Mello: “Na verdade, como é que alguém ainda ousa escrever poesia depois de ter lido essas obras-primas que são Surdina do contemplado e A lenda da rosa?”.

Ivan Marques mostra que, a partir de meados dos anos 60, a situação mudaria de figura. E por um motivo que o poeta jamais imaginou. O sucesso da peça Morte e vida severina, montada em 1965 por um grupo de teatro universitário, o Tuca, praticamente alçou João Cabral à condição de estrela na literatura brasileira — um ano depois, A educação pela pedra recebeu quase todos os prêmios nacionais, e seu primeiro volume com as Poesias completas, em 1968, chegou a alcançar o segundo lugar entre os livros mais vendidos.

Sobre a montagem do Tuca, Ivan Marques diz que foi uma das maiores alegrias da vida do poeta. Com música de Chico Buarque — que teria aceitado compor a trilha por “completa irresponsabilidade”, conforme disse mais tarde —, o espetáculo chegou a fazer uma breve turnê pela Europa, depois de ser premiado em um festival na França, onde o próprio João Cabral — muito emocionado, contrariando a sua imagem fria — assistiu à peça ser aplaudida diversas vezes ao longo da encenação.

IV

Embora Ivan Marques confirme algumas das imagens pelas quais Cabral se tornou conhecido, o biógrafo também deixa entrever situações que fogem do estereótipo do homem controlado, exigente, atormentado pelas dores de cabeça e avesso a arroubos sentimentais.

Se é verdade que não gostava de música, com exceção do flamenco, como dizia — “a música me dá sono, compreende?” —, o biógrafo também mostra que Cabral passou a admirar as canções de Chico Buarque, como “A banda” e, depois, “Construção”, que chegou a escutar por um dia inteiro quando esta foi lançada, em 1971. Se dizia não ter interesse algum em cultura de massas, foi pego em flagrante pela filha saindo do banheiro com um álbum de Asterix na mão — safou-se dizendo que “a pesquisa histórica era muito bem-feita”, o que, aliás, confirma que leu com atenção. Apesar da timidez e de ser avesso a confraternizações — “mais que três é multidão”, dizia —, cultivou uma grande rede de amigos por todos os lugares onde passou.

Também possuía senso de humor particular. “Neurótico, sim, chato, jamais”, fazia questão de distinguir. Entre as diversas histórias que Ivan Marques colheu nesta biografia, há um caso sensacional que Murilo Mendes teria contado à poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andersen. Em uma das noites que Murilo passou em Sevilha, Cabral, afundado em tristeza, anunciou que havia decidido se matar. O amigo, claro, mal dormiu. Pela manhã, Cabral disse que desistiu do ato ao se dar conta de que seria enterrado em Sevilha, e o problema era o cemitério barroco da cidade. O poeta tinha horror a tudo que vinha do barroco. Nesse caso, não poderia descansar em paz.

Esse texto foi feito com apoio do Itaú Cultural.

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

Matéria publicada na edição impressa #52 em outubro de 2021.