Literatura,
Agrura e graça
O retorno do barão de Wenckheim, romance de László Krasznahorkai, é difícil, mas faz rir
08dez2025 • Atualizado em: 09dez2025 | Edição #101Uns meses atrás, um sebo online nos Estados Unidos chamado Hiding Place anunciou a venda de um exemplar da edição em inglês de Mindig Homérosznak [Sempre Homero, sem edição no Brasil], dizendo que era outro livro ilegível de um dos escritores mais superestimados da atualidade: László Krasznahorkai. O autor húngaro é o mais recente laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Como não só as tradicionais técnicas mercadológicas determinam esse tipo de negócio — pois também se cativa o público com estratégias descoladas, como escárnio e sarcasmo —, o livro foi vendido. E lido, apesar da suposta ilegibilidade. Sei que foi vendido e lido porque eu mesmo o comprei e li.
Mindig Homérosznak se inicia com a seguinte advertência: “Você não vai querer saber”, que pode ser entendida como “Eu não vou querer contar”, porque logo depois a história começa com uma perseguição narrada em negativas. Quem está no encalço do narrador não são cisnes — e ele se questiona por que diabos mencionou cisnes —, não são ovelhas nem pombas, nem tampouco nuvens de libélulas. Se é para ler o que não aconteceu, muita gente prefere mesmo abdicar da leitura. Talvez por causa disso, Mindig Homérosznak oferece algo mais: os capítulos contêm códigos QR que direcionam a uma página com músicas percussivas, metálicas e malucas.
Se sua literatura está impregnada de morte, é porque esta é condição para a vida acontecer
O retorno do barão de Wenckheim, segundo romance de Krasznahorkai lançado no Brasil, também tem uma advertência para lá de estranha. Em vez da tentativa de isentar o romance de qualquer responsabilização ou de dar uma indicação distanciada sobre o que vai ser narrado, há um monólogo de seis páginas bastante imagético. Essa narrativa também apela à música, só que na voz de um maestro que fala a músicos de maneira ditatorial. Dá o tom e ali já se pode entrar em contato com o ritmo predominante em todo o romance: frases longuíssimas que duram páginas e páginas; pontuação feita de inúmeras vírgulas e poucos pontos-finais; quase nenhuma marcação de quem fala, se narrador ou personagem, se a fala é oral ou pensada. Graficamente, lembra o texto de outro Nobel, o português José Saramago, só que levado ao extremo.
O maestro da advertência discursa, o tempo todo, com uma maçã na mão para tratar da Criação que ele e os músicos vão apresentar. A imagem edênica serve para, de saída, riscar o epíteto que Susan Sontag espetou no nome do autor: “o mestre húngaro do apocalipse”. Ele mesmo, em entrevista ao Louisiana Channel em 2020, quando o mundo parecia estar para acabar, rebateu a crítica americana, sem a nomear, talvez por respeito aos mortos, afirmando que seu objetivo enquanto artista jamais será prenunciar o fim da vida, muito menos privar de esperança as pessoas desafortunadas. E que, se sua literatura está impregnada de morte, é porque esta é condição para a vida continuar acontecendo. László Krasznahorkai, o mestre húngaro da gênese.
Na mesma entrevista, Krasznahorkai conta como escreveu seu primeiro romance, Sátántangó (Companhia das Letras, 2022, trad. de Paulo Schiller). Relata que, na juventude, trabalhou no serviço militar, foi mineiro, professor, vigia num estábulo. Neste, sentia-se em paz em meio à boiada e, sem escritório, escrivaninha ou dicionários, escrevia na própria cabeça, chegando ao cúmulo de guardar na memória cerca de vinte páginas inteiras. Só depois de as ter burilado na cabeça é que punha no papel. Revela que seu método é esse até hoje, embora agora a memória falhe e ele precise anotar com mais frequência, antes que esqueça, o que escreveu mentalmente.
Nós, os húngaros
Em O retorno do barão de Wenckheim, uma pequena cidade da Hungria espera pelo regresso do barão Béla Wenckheim, um figurão excêntrico e introspectivo, de origem austríaca, que no século 20 fugiu para se exilar na Argentina. Parece familiar? Talvez semelhante à lenda de certo Führer? E se eu contar que, ainda por cima, no romance, um grupo miliciano de motoqueiros fascistas o aguarda com ansiedade messiânica, armado, recrutando jovens através do site pensamentopuro.hu e organizando motociatas e buzinaços? Também familiar, não é?
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Há longas passagens em torno da questão húngara, com a inclusão de um comprido discurso contra a pátria — algo, aliás, difícil de encontrar na literatura brasileira contemporânea, nem mesmo com ironia, talvez por receio de que se atente contra a brasilidade. Um exemplo é este trecho:
[…]estão escrevendo sobre os húngaros, pois é realmente difícil de escolher, principalmente se descobrirmos, e descobrimos, que em qualquer característica com que possamos definir os húngaros há uma argamassa, uma espécie de meleca sebosa, que liga a subserviência manhosa à arrogância bárbara, a inveja gritante com a aptidão para a vilania oportunista…
Mas O retorno do barão de Wenckheim emprega artifícios que, não obstante, mantêm a universalidade do romance. Muitos personagens da cidadezinha possuem nomes genéricos, como o sr. Professor, o Prefeito, o Comissário policial, o Diretor bibliotecário, o editor-chefe do jornal, o líder dos motoqueiros etc., permitindo-lhes caber em contextos que extrapolam o romance. E confunde-se mesmo o que é ser húngaro com o que é ser humano, pois
[…] tudo o que foi escrito neste texto até agora forma a base do caráter húngaro, tudo de uma vez, simultaneamente, por isso não consigo encontrar o mistério do húngaro, porque toda a fragilidade que é humana não só está presente nele como nele se acumula…
Já um personagem de nome específico é Dante, apelido que lhe deram não por causa do poeta florentino, mas por ter o cabelo parecido, vejam só, com o jogador de futebol homônimo, brasileiro e ex-zagueiro da Seleção, titular no fatídico 7 a 1 da Alemanha. Ele encontra o barão quando este acaba de chegar na Europa e, depois de uma passadinha em Viena, se encaminha de trem para a Hungria. Dante, então, impõe-se para tornar-se secretário do barão, na suspeita de que ele goze de alguma fortuna.
A dificuldade funciona para exacerbar o absurdo da realidade representada pelo escritor
Toda a cidadezinha, que é inspirada em Gyula, terra natal de Krasznahorkai, se prepara para receber o barão. A população faz uma grande festa de recepção na estação em que ele chega; o prefeito decreta a renomeação do castelo Almássy, que passa a se chamar castelo Wenckheim, manda higienizar as ruas, varrer o lixo para baixo do tapete, enxotar os ciganos e estrangeiros. A ironia é que os festejos e preconceitos não contam com o fato de ser estrangeira a origem do barão que celebram.
O ridículo do circo armado se evidencia ainda mais na frustração do povo xenófobo, que percebe que o passado idealizado a trazer de volta, encarnado na persona do barão, não existe, não passa de ilusão, delírio coletivo. O barão não distribuirá dinheiro à vontade popular, aliás está afundado em dívidas, não salvará o futuro da Hungria, que se vê em decadência moral, não restituirá os bons costumes de outrora. Seu título nobiliárquico não vale nada no século 21 e, a nível pessoal, ele nem sequer reconhece Marika, grande amor do passado com quem trocou cartas logo antes do retorno, agora tão envelhecida quanto ele.
[…] não restou nada daquele mundo que existia ali, […] esses não são os mesmos, não é a mesma estação, a mesma avenida, o mesmo hospital, a mesma fortificação e o mesmo castelo, só estão exatamente no mesmo lugar onde ficavam os antigos, não, são novos, outros, estranhos…
Onde há fumaça…
O inglês James Wood, um dos maiores críticos literários em atividade, criou uma ótima metáfora para a obra de Krasznahorkai, que O retorno do barão de Wenckheim confirma. Para ele, ler o autor é “como ver um grupo de pessoas em círculo numa praça, aparentemente esquentando as mãos em torno de uma fogueira, para descobrir, quanto mais perto se chega, que não há fogo e as pessoas se reúnem em volta de nada”.
Não é fácil entender de todo o que está acontecendo em muitas cenas, porque Krasznahorkai usa truques para esfumaçar o texto. Ficamos muitas vezes apenas com esse vestígio gasoso do calor e da luz, procurando que nem bobos a fogueira de que os bobos do romance não dispõem mas, ainda assim, escondem de nós.
A dificuldade de leitura não deve ser entendida como defeito literário. Pelo contrário, a agrura de diversos trechos funciona para exacerbar o absurdo da realidade representada por Krasznahorkai e, assim, fazer graça. Numa passagem importante do romance, por exemplo, o barão envereda por uma floresta, acompanhado não sabemos direito por quem, e na caminhada ele cai numa discussão filosófica sobre a existência, difícil de assimilar até mesmo para especialistas. Após incontáveis páginas de divagação seríssima e grave, descobrimos que seu interlocutor era simplesmente um cachorro, o quincas-borbiano Pirralho.
O retorno do barão de Wenckheim, para ser engraçado como deve, ainda tem a seu favor a excelente tradução direto do húngaro, que acerta no tom e não se furta a utilizar ótimas expressões quando necessário, como “caipirão”, “patacoada”, “lelé da cuca”, “deixa as outras no chinelo”, “cagando e andando”, “bunda”, “varapau”, “xilindró” e muitas mais.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “Agrura e graça”
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