Literatura,

A narrativa dos sobreviventes

Em ‘Sobrevidas’, o Nobel tanzaniano Abdulrazak Gurnah levanta o véu do colonialismo no leste da África

27maio2022 - 04h31 | Edição #58

Quando o nome de Abdulrazak Gurnah foi anunciado pela Academia Sueca como vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, no ano passado, jornalistas e curiosos foram imediatamente pesquisar na web quem era o autor que não figurava nas tradicionais bolsas de apostas como possível vencedor. Gurnah era quase desconhecido fora da Europa.

Nascido em Zanzibar, Tanzânia, em 1948, Gurnah deixou sua terra natal aos dezoito anos, fugindo da perseguição a cidadãos de origem árabe. Encontrou asilo no país colonizador, o Reino Unido, onde realizou sua formação superior em Canterbury e na Universidade de Kent, tendo lecionado nesta última como professor de literatura pós-colonial até a aposentadoria. Escreve em inglês e foi indicado ao Man Booker Prize em 1995 com o romance Paradise. Se por um lado a Academia Sueca se abriu para a literatura pós-colonial e premiou o quarto autor negro em 120 anos de história, por outro permanece obtusa, destinando o prêmio quase que exclusivamente a autores de línguas europeias e desprezando outros, como o queniano Ngugi wa Thiong’o, sempiterno candidato, que escreveu grande parte de sua obra na língua gikuyu.

Embora a literatura de Gurnah tenha se destacado por ser escrita em inglês, há algo da estética decolonial na narrativa de Sobrevidas, romance que acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Publicado no Reino Unido em 2020, o romance dá sequência a um projeto literário sólido que investiga as consequências do colonialismo no leste da África, região disputada por países europeus ao longo dos séculos, como podemos ler no início do romance: “Os alemães e os ingleses e os franceses e os belgas e os portugueses e os italianos e sabe-se lá mais quem já tinham realizado seus congressos e desenhado seus mapas e assinado seus tratados”, para dividir o continente africano. E é a partir de quatro personagens-chave — Khalifa, Ilyas, Hamza e Afiya — que o autor traça um panorama da vida na Tanzânia do começo do século 20 sob a colonização de alemães e ingleses.

A partir da complexidade dos tipos humanos que transitam nas páginas de Sobrevidas, Gurnah reflete sobre como o colonialismo se aproveitou de uma sociedade complexa e desigual para levar ao extremo as engrenagens da exploração. No início da história, a Tanzânia e outros países do continente africano estão sob o jugo da Alemanha. O domínio alemão foi brutal, basta recordar o genocídio, em 1904, dos Herero e Nama na Namíbia, tendo reduzido a população original a 5%, um preâmbulo do que ocorreria na Europa anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial. Na então Deutsch-Ostafrika não foi diferente: a violência implacável da colonização alemã deixou marcas profundas entre os “sobreviventes”.

A violência implacável da colonização alemã deixou marcas profundas entre os ‘sobreviventes’

O caso mais emblemático é o de Ilyas, sequestrado ainda menino por um soldado nativo da Schutztruppe. Esse exército, denominado “Força de Proteção”, era formado por uma elite de voluntários europeus com tradição militar, leigos, e sobretudo por nativos, treinados para defender os interesses dos alemães. Ilyas é encaminhado para uma escola religiosa cristã e recebe educação na língua alemã. A deformação em sua personalidade é tamanha que ele defende os colonizadores como salvadores e passa a atuar como um askari — Schutztruppe askari, formada pelos nativos —, cuja crueldade contra seus consortes culminou por dividir as sociedades locais e favorecer o colonizador. Durante o avanço do imperialismo colonial inglês, os askaris são convocados para defender o interesse dos alemães. Ilyas se sente como um deles: “Os alemães são um povo talentoso e inteligente. Eles sabem se organizar e lutar. Eles pensam em tudo, além do mais são mais bondosos que os ingleses”, diz.

Nesse ínterim, Afiya, sua irmã, se torna órfã e é adotada por um casal de tios. Ali imperam os costumes locais e logo a menina se vê escravizada e brutalmente espancada pelo tio, quando este descobre que ela sabe ler e escrever. Como punição, tem as mãos machucadas. Afiya consegue entrar em contato com um amigo de seu irmão, Khalifa, que viaja para resgatá-la. Ela se instala na casa de Khalifa e Bi Asha, sua esposa, enquanto aguarda pelo retorno do irmão. Na casa de Khalifa, Afiya percebe uma crescente hostilidade por parte de Bi Asha, decidida a encontrar um casamento para a jovem, com receio de que esta venha a se tornar a segunda esposa de seu marido.

Paralelamente, conhecemos a história de Hamza, um jovem vendido pelo pai a um fazendeiro. Insatisfeito com o regime de exploração, Hamza foge para integrar a Schutztruppe e é escolhido pelo Oberleutnant, um oficial, para ser uma espécie de assistente particular. Estabelece-se na narrativa uma poderosa metáfora da sedução e da violência que foram o empreendimento colonial. Há uma permanente tensão sexual no interesse do Oberleutnant por Hamza. Ao mesmo tempo que a atração latente domina as interações entre os dois, o oficial agride e humilha Hamza de maneira recorrente. O jovem precisa enfrentar a ironia e hostilidade dos seus pares askaris, como quando Komba lhe diz: “Faz frio lá nas montanhas e ele vai precisar de alguém para o esquentar de noite, igual a uma esposa”. Essa permanente tensão desembocará em um episódio de grande violência, que vai mudar para sempre o destino de Hamza.

Oralidade

Os destinos dessas personagens vão se cruzar, e suas histórias de poder e exploração, paixões e solidariedade serão tecidas pela escrita suave e compassiva de Gurnah. Nas reminiscências de sua prosa há uma forma de narrar próxima à oralidade. Como surge nas palavras de Hamza a Khalifa: “Você quer que eu te conte a minha vida como se eu tivesse uma história completa, mas eu tenho fragmentos entrecortados por uns buracos complicados”. É assim que a literatura vai levantando o véu sobre histórias de vidas devastadas pelo colonialismo, permitindo ao leitor adentrar as subjetividades do outro.

Quem escreveu esse texto

Itamar Vieira Junior

Recebeu o Prêmio LeYa pelo romance Torto arado (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.