Literatura,

A História a contrapelo

Contos lançam luz sobre figuras intoleráveis para um Brasil fincado num imaginário colonial e temperado no horror

01abr2020 - 01h18 | Edição #32 abr.2020

Ao terminar a leitura de Rua de dentro, o novo livro de Marcelo Moutinho, saí de casa, parei no botequim mais próximo — aqui devo confessar que o bar fica praticamente debaixo da janela da minha sala —, abri uma cerveja e resolvi ver a vida passar. Lembrei-me de Walter Benjamin. O alemão, afinal, escreveu no seu Rua de mão única, publicado em 1928, que o bar é a chave de qualquer cidade; saber onde se pode beber cerveja é quanto basta.

É tentador relacionar o livro de Moutinho, composto de treze histórias curtas, ao pensamento de Benjamin. O filósofo falava em escovar a história a contrapelo e chamava a atenção para a importância dos fazeres cotidianos como caminho para escutar e compreender outras vozes. Benjamin gostava de pensar a historicidade a partir dos vestígios, do residual, daquilo que escapa ao grandiloquente. Não à toa, sonhou com uma história dos brinquedos.

Nesse aspecto, brinco de imaginar um encontro, coisa que fiz em um livro de 2013, entre o filósofo alemão e o Caboclo da Pedra Preta, entidade das encantarias brasileiras que guiava o babalorixá Joãozinho da Gomeia. Para o caboclo, em “Pedrinhas de Aruanda”, seu canto mais famoso, das pedras da aldeia “uma é maior, outra é menor: a miudinha é a que nos alumeia”.

As ruas de dentro são os caminhos por onde circulam as pedras miúdas. Longe dos holofotes, distantes do espetáculo, mais próximos dos rumores que dos brados retumbantes, os personagens das histórias de Moutinho transitam pela cidade sem grandes alardes: são travestis, lésbicas, mães, gays, amantes, trabalhadores da viração; frequentadores de padarias, botequins, restaurantes a quilo. Não há felicidade possível, mas a tessitura dos fazeres cotidianos insiste na vida, ainda que a morte paire entre os que parecem ter, como inexorável destino, o esquecimento.

Nesse ponto, não vejo em Marcelo Moutinho um escritor de periferias ou de personagens periféricos. Cria dos subúrbios do Rio de Janeiro, versado nos segredos de Madureira e seus arredores — Oswaldo Cruz, Rocha Miranda, Vaz Lobo, Turiaçu etc. —, Moutinho coloca em xeque a própria ideia de centralidade. Onde diabos, afinal, fica o centro? O que constituiu a ideia de centralidade? O centro da literatura de Moutinho é qualquer lugar onde a vida acontece. 

A tessitura dos fazeres cotidianos insiste na vida, ainda que a morte paire entre os que parecem ter, como inexorável destino, o esquecimento

Ao partir dessa perspectiva, de conferir centralidade a quem não circula pelas ruas principais, Marcelo Moutinho escreveu um livro eminentemente político. Numa conjuntura distópica, em que até mesmo a ideia de bem comum parece se esfarelar diante do avanço de uma extrema direita inimiga da diversidade, fincada em um imaginário colonial gestado nos alpendres das casas-grandes, Moutinho lança o olhar para aqueles cujas existências, para um Brasil oficial temperado no horror, precisam ser aniquiladas. 

Pelas ruas de dentro circulam, surpreendentes, os corpos que, pela colonialidade, devem ser controlados pela sombra do pecado e domesticados na lógica do arado e da virilidade, já que não se enquadram nos manuais e credos dos “homens de bem”.

Escrevi no início do texto que Rua de dentro me levou ao bar. Encerro dizendo que, se livros demandassem canções como companheiras, esse poderia perfeitamente ser acompanhado de “O Rancho da Goiabada”, de João Bosco e Aldir Blanc (com o arranjo original do Radamés Gnattali, por favor). Pelas vielas de Moutinho, ressoa a ode de Blanc aos que, à sombra das alegorias dos faraós embalsamados, dançam como lírios pirados pela vida que espanta e comove — quando dela não se espera nada — ao simplesmente acontecer.

Quem escreveu esse texto

Luiz Antonio Simas

Historiador, escreveu Almanaque brasilidades (Bazar do Tempo).
 

Matéria publicada na edição impressa #32 abr.2020 em março de 2020.