Literatura estrangeira,

Estúpido cupido

Com nova tradução, clássico de Jane Austen mostra a mimada Emma Woodhouse brincando com corações alheios

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Quando Jane Austen começou a escrever Emma, disse que escolheu como heroína uma personagem de que ninguém, além dela mesma, iria gostar. Ainda assim, mais de duzentos anos depois de sua publicação, a obra continua ganhando novas traduções e adaptações audiovisuais. A jovem mimada Emma Woodhouse, de 21 anos, é a rainha de Highbury, uma pequena vila fictícia localizada no interior da Inglaterra. Embora tenha perdido a mãe muito cedo, a falta foi compensada pela presença da srta. Taylor, preceptora que se torna uma grande amiga e está prestes a se casar e deixar Hartfield, propriedade em que Emma vive com o pai, o sr. Woodhouse. A partida da srta. Taylor causa grande comoção na família Woodhouse: ainda que ela vá viver a menos de um quilômetro de distância, essa é a primeira quebra importante na rotina do lugar desde que Isabella, a irmã mais velha de Emma, se casou e mudou-se para Londres. 

Para o sr. Woodhouse, os casamentos são acontecimentos trágicos e perigosos; além de separar famílias e pessoas queridas, ainda são comemorados com bolo, bebidas e comilança, o que dá a ele muitas preocupações — além de hipocondríaco, ele também teme pela saúde e tranquilidade de todos à sua volta. Já para Emma, a ocasião desperta sentimentos ambíguos: está triste por deixar de compartilhar o mesmo lar com sua até então inseparável companheira, mas também está contente, pois a amiga está fazendo um bom casamento, que, para o orgulho de Emma, foi ela mesma quem arranjou.

Embriagada pelo sucesso dessa empreitada, a protagonista, que nunca se dedicou de verdade a afazeres mais “elevados”, como a leitura, a pintura e a música, passa então a ter uma atividade favorita: a de cupido. Quando Emma conhece Harriet Smith, “a filha natural de alguém”, uma moça mais jovem e ingênua que vive em um internato para mulheres, vê nela uma dupla oportunidade: preencher, ainda que palidamente, o espaço vazio deixado pela agora sra. Weston, e também a de ajudar Harriet a ascender socialmente por meio do casamento. Como pretendente a futuro marido da amiga, elege o sr. Elton, um pastor que se mudou há pouco para a região.

O sr. Knightley, vizinho e amigo íntimo da família Woodhouse, vive implicando com Emma e seus estratagemas casamenteiros, e confessa que adoraria ver a amiga apaixonada, sem saber se é correspondida. No entanto, Emma não quer nem pensar em marido. Senhora de sua própria casa, não vê qualquer vantagem nesse horizonte. A trama vai se adensando com a entrada de outras personagens, como Frank Churchill — filho do primeiro casamento do sr. Weston — e, no núcleo pobre, a srta. Bates, com sua mãe e sua sobrinha, Jane Fairfax, uma moça bonita e habilidosa que teve acesso a uma ótima educação em Londres, com quem Emma rivaliza, disputando a admiração da comunidade local. 

Assim, Jane Austen vai mostrando como a sociedade rural inglesa se organizava no início do século 19, expondo como essas marcações de classe eram constitutivas de todas as experiências. A autora também reforça o absurdo dessa estratificação, em especial quando retrata os ritos de distinção criados pelas classes mais abastadas. 

“Observadora arguta das deficiências, vaidades e mesquinhez de seus semelhantes, Austen desenha o painel de um universo circunscrito, porém revelador do funcionamento das engrenagens que movem a vida social”, escreve a professora Sandra Guardini Vasconcelos no ótimo prefácio que integra a nova edição do romance, publicada pelo selo Penguin Companhia, com tradução de Julia Romeu. O volume inclui ainda uma introdução escrita por Ronald Blythe e notas de Fiona Stafford, que são muito interessantes.

Quadrilha

Emma é o único romance de Austen que podemos classificar mais abertamente como uma comédia, ainda que a autora nunca prescinda do humor, e em especial da ironia, em toda a sua obra. É tanto uma comédia romântica quanto uma comédia de costumes. Para alguns, tem ainda algo do suspense encontrado em histórias de detetives. A personagem vai se embolando em sua arrogância e a trama acaba se tornando quase uma antecipação um pouco mais solar de “Quadrilha”, poema de Carlos Drummond de Andrade: “João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que não amava ninguém./ João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história”. A quadrilha, aliás, era uma dança habitual nos salões de baile da França e da Inglaterra na época, e também o nome de um jogo de cartas que aparece nos romances de Austen. Em ambos, cada participante se dispõe como se estivesse em uma das extremidades de um quadrado, e, aos poucos, o movimento vai se embaralhando.

Mas tão importante quanto o que acontece no enredo, com todas as suas reviravoltas, é também o que não acontece. O tédio que muitas vezes acomete as personagens dessa pequena vila faz redobrar a importância das pequenezas e ecoar a repetição. A graça do romance está justamente no que se repete, como a inadequação da srta. Bates, a paranoia do sr. Woodhouse, a implicância do sr. Knightley, os tropeços de Emma.

Em 2020, quando Jane Austen voltou à lista de autoras mais vendidas no Brasil em meio à pandemia, Emma ganhou também uma nova versão para o cinema. O filme homônimo foi dirigido por Autumn de Wilde, fotógrafa especializada em música, que em nada se parece com uma estreante. O roteiro é de Eleanor Catton, que venceu o Man Booker Prize por Os luminares, seu primeiro romance. Catton e de Wilde fizeram pequenas modificações, mas conseguiram condensar o melhor do livro e atualizá-lo na medida, dialogando tanto com o presente quanto com o tempo da obra de origem. Interpretada pela atriz Anya Taylor-Joy, cercada de um excelente elenco, a protagonista é retratada de forma complexa, incluindo muitos dos defeitos que de fato tem. O resultado é ora ingênuo, ora sarcástico, uma mistura deliciosa de assistir. Demorou, mas Emma parece enfim ter ganhado uma adaptação à sua altura.

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.