Literatura estrangeira,

Leia trecho de ‘Filosofia e poesia’, de María Zambrano

Primeira mulher a ganhar o prêmio Cervantes, a escritora e filósofa espanhola tem seu primeiro livro publicado no Brasil

11mar2021 - 16h21 | Edição #43

Apesar de que em alguns mortais afortunados, poesia e pensamento tenham podido aparecer ao mesmo tempo e paralelamente, apesar de que em outros ainda mais afortunados, poesia e pensamento tenham podido ocorrer em uma única forma expressiva, a verdade é que ao longo da nossa cultura, pensamento e poesia se enfrentam com toda gravidade. Cada um deles quer eternamente para si acolher a alma. E seu duplo puxão pode ser a causa de algumas vocações malsucedidas e de muita angústia sem fim, inundadas de esterilidade.

Porém, há outro motivo mais decisivo que não podemos abandonar e é que hoje poesia e pensamento nos aparecem como duas formas insuficientes; e nos surgem duas metades do homem: o filósofo e o poeta. Não se encontra o homem completo na filosofia; não se encontra a totalidade do humano na poesia. Na poesia encontramos diretamente o homem concreto, individual. Na filosofia, o homem em sua história universal, em seu querer ser. A poesia é encontro, dom, achado pela graça. A filosofia busca, é requerimento guiado por um método.

É em Platão onde encontramos a luta com todo o seu vigor entre as duas formas da palavra, com a resolução triunfal para o logos do pensamento filosófico, decidindo o que poderíamos chamar “a condenação da poesia”; inaugurando o mundo do Ocidente, a vida penosa e à margem da lei, da poesia, seu caminhar por estreitas sendas, seu andar errante e por vezes extraviado, sua loucura crescente, sua maldição. Desde que o pensamento consumou sua “tomada de poder”, a poesia foi viver nos subúrbios, arisca e desterrada, dizendo aos gritos todas as verdades inconvenientes; terrivelmente indiscreta e rebelde. Porque os filósofos ainda não governaram nenhuma  república, e a razão estabelecida por eles exerceu um império decisivo no conhecimento, e aquilo que não era radicalmente racional, com curiosas alternativas, ou sofreu sua fascinação ou se alçou em rebeldia.

Não tratamos de fazer aqui a história dessas alternativas, ainda que já seria de grande necessidade, principalmente estudando suas íntimas conexões com o resto dos fenômenos que imprimem caráter a uma época. Antes de tal empresa, vale mais esclarecer o fundo do dramático conflito que motiva tais mudanças; vale mais olhar a luta que existe entre filosofia e poesia e definir um pouco os termos do conflito em que um ser necessitado de ambas se debate. Vale, sim, a pena manifestar a razão da dupla necessidade irrenunciável de poesia e de pensamento e o horizonte que se vislumbra como saída do conflito. Horizonte que ao não ser uma alucinação nascida de uma singular avidez, de um obstinado amor que sonha uma reconciliação para além da disparidade atual, seria simplesmente a entrada em um mundo novo de vida e conhecimento.

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.