Literatura estrangeira,

Leia trecho do novo romance de Kazuo Ishiguro

'Klara e o sol' é o primeiro livro lançado pelo escritor desde que venceu o Nobel de Literatura em 2017

04mar2021 - 01h02

Algumas das pessoas que paravam diante da vitrine na verdade não estavam nem um pouco interessadas em nós. Só queriam tirar seus calçados esportivos e fazer alguma coisa com eles ou mexer em seus aparelhos oblongos. Outras, no entanto, chegavam muito perto do vidro e olhavam para dentro — a maioria delas eram crianças, de idades para as quais éramos mais adequadas, e pareciam felizes em nos ver. As crianças se aproximavam animadas, sozinhas ou com seus adultos, e em seguida apontavam, riam, faziam caretas, batiam no vidro, acenavam.

De vez em quando — eu logo ganhei experiência em observar as pessoas diante da vitrine enquanto dava a impressão de estar olhando para o Edifício rpo —, uma criança se aproximava para nos ver e havia nela uma tristeza, ou às vezes uma raiva, como se tivéssemos feito alguma coisa de errado. Uma criança assim podia facilmente mudar no momento seguinte, e começar a rir e a acenar como as outras, mas, depois do nosso segundo dia na vitrine, aprendi rápido a notar a diferença.

Tentei falar sobre isso com Rosa, na terceira ou quarta vez em que uma criança assim apareceu, mas ela sorriu e disse:  “Klara, você se preocupa demais. Tenho certeza de que aquela criança estava muito feliz. Como ela não estaria, num dia assim? A cidade inteira está tão feliz hoje”.

Mas toquei nesse assunto com a Gerente, no fim do nosso terceiro dia. Ela vinha nos elogiando muito, dizendo que estávamos “belas e imponentes” na vitrine. A essa altura, as luzes da loja já tinham diminuído, e estávamos nos fundos da loja, apoiados na parede, alguns de nós folheando revistas interessantes antes de ir dormir. Rosa estava ao meu lado e eu sabia, pela posição de seus ombros, que ela já estava pegando no sono. Então, quando a Gerente perguntou se meu dia tinha sido bom, aproveitei para lhe contar sobre as crianças tristes que haviam se aproximado da vitrine.

“Klara, você é mesmo excepcional”, a Gerente disse, em voz baixa para não chamar a atenção de Rosa e dos outros. “Você percebe e absorve tantas coisas.” Ela balançou a cabeça como se estivesse admirada. Então, disse: “O que você precisa compreender é que somos uma loja muito especial. Muitas crianças lá fora adorariam poder escolher você, escolher Rosa, qualquer um de
vocês. Mas, para elas, isso não é possível. Vocês não são acessíveis
para elas. É por isso que elas vêm até a vitrine, para sonhar em ter vocês. Mas aí elas ficam tristes”.

“Gerente, uma criança assim… Uma criança assim teria um AA em casa?”

“Talvez não. Não uma AA como você, sem dúvida. Então, se às vezes uma criança olha pra você de um jeito estranho, com  amargura ou tristeza, ou diz alguma coisa desagradável pelo vidro, não dê muita atenção a isso. Só lembre de uma coisa: uma criança assim provavelmente está frustrada.”

“Uma criança assim, que não tem um AA, deve ser muito solitária.”

“Sim, isso também”, a Gerente disse baixinho. “Solitária. Pois é.”