Literatura estrangeira,

Leia trecho da nova biografia de Gabriel García Márquez

‘Solidão e companhia’ é uma história oral sobre a vida do escritor colombiano contada por diversos pontos de vista

06mar2021 - 01h36

QUIQUE SCOPELL: O gravador está ligado ou desligado? Deixe-o ligado! Então Alfonso teve a ideia de abrir um jornal para se sustentar. Chamava-se Crónica, um tabloide. Você pode conseguir as edições no El Heraldo. Devem estar arquivadas porque Alfonso as imprimia no El Heraldo para ganhar mais alguns pesos. Ainda que o expediente do jornal mostrasse “Gerente Executivo: Julio Mario Santo Domingo”,* Julio nunca escreveu um maldito artigo. Como dizem, o papel aceita qualquer coisa.

Tudo que ele sabe fazer é multiplicar por oito. Ele sabe multiplicar porque sabe ganhar dinheiro. Ele sabe como fazer isso. Ganhar dinheiro. Mas não acho que saiba escrever. Naquela época nosso jornal era: um cara chamado Álvaro Cepeda; um cara chamado Alfonso Fuenmayor, que era o diretor; Germán Vargas, o mais bem-educado de todos; Gabito. Álvaro traduziu uma história americana, Germán Vargas escreveu algo para ela. Um cara chamado Alejandro Obregón fez as ilustrações e um cara chamado Figurita Orlando Rivera fez as ilustrações menores. Ah! Que lista! Hoje, na Colômbia, com esses cinco caras, você publicaria [as revistas] Cromos ou Semana. E eu tirava as fotos. Sou fotógrafo e, depois disso, beberrão. Fui criado com fotografias. Então um cara chamado Gabito escreveu uma coluna chamada A Girafa. Ninguém leu a maldita coluna naquela coisa. Depois disseram que era genial… Porque, depois que Gabito se tornou um ganhador do prêmio Nobel, eles descobriram todas as virtudes dele: antes disso, não passava de um idiota. E aos sábados saíamos para vender o Crónica. E sabe o que fazíamos para vender aquela coisa? Nós o trocávamos por cerveja, porque o sujeito da loja nos dizia: “Ah, cara, essa coisa não vende”. Uma verdadeira decepção. Dois mil exemplares eram impressos e sobravam 1.990. E os 1.990 eram doados. Eram impressos no El Heraldo. E Gabito foi o único ao qual Alfonso pagava pelas perdas. Alfonso pagava a Gabito dois pesos por semana para montar o tabloide.

Depois inventaram algo que foi o que mais vendeu o periódico. Era uma revista semanal. O que mais vendeu foi a mudança da literatura para o futebol, porque naquela época aqueles jogadores de futebol argentinos que chegavam pegavam todas as garotas de Barranquilla. Eles vinham jogar em dois times, Junior e Sporting, mas todos os que vieram para o Sporting eram para exportação. Uns filhos da mãe de boa aparência. Argentinos italianos, você sabe que esses argentinos…

JUANCHO JINETE: Sim, eles eram bonitos.

QUIQUE SCOPELL: Alfonso me chamava de Filósofo. Dizia para mim: “E você, por que não escreve um livro?”. Porque não sei. O que eu sei é falar merda. Não sei escrever. Falar, sim, mas não sei escrever. Não sei nem como escrever o pai-nosso. Peça-me para escrever o pai-nosso e você lerá… “Pai-nosso…”, consigo chegar até aí. E Alfonso me dizia: “Pare de brincadeira, Filósofo, por que não escreve um romance?”. Não, cara, não me venha com frescuras. Não tenho cabeça para escrever um romance. Para falar merda, sim.

MIGUEL FALQUEZ-CERTAIN: E supõe-se que naqueles encontros, naquelas reuniões na década de 1950, quando García Márquez chega a Barranquilla depois de ter estudado acho que um ano de direito em Cartagena e tendo trabalhado no El Universal, ele tenha conhecido sobretudo Alfonso Fuenmayor e Germán Vargas, os letrados. Eles se conheceram em uma livraria presidida pelo sábio catalão Don Ramón Vinyes, que falava espanhol e era catalão. Ele falava catalão, tinha livros em catalão, lia em inglês e acho que também traduzia do francês. Era um homem muito erudito. Ele morreu na Espanha nos anos 1950. Dizem que sentia falta de Barranquilla e que tinha comprado uma passagem de barco para retornar. Mas morreu em Barcelona alguns dias antes de partir. Ramón Bacca visitou seu túmulo.

GUILLERMO ANGULO: Gabo tenta escrever Cem anos de solidão inicialmente. Era algo sobre o qual ele não falava, que chamava de “catatau”, e não conseguia fazê-lo. Ele percebe isso. Então soube que o romance precisava de um escritor muito mais experiente, o que ele não era, e teve a paciência de esperar até que se tornasse o escritor capaz de escrever Cem anos de solidão.

QUIQUE SCOPELL: É para onde eu estava indo. E pode publicar isso porque é verdade. Ainda que eu esteja bebendo, eu não gostaria de falar algo para que logo digam que falei que Gabito é um filho da puta. É claro que ele é um filho da puta, mas não posso dizer isso publicamente porque ele é um homem que, em primeiro lugar, já se distingue por seus méritos. Para mim, ele tem o grande mérito da obstinação. Um homem obstinado, obstinado, que insiste, insiste e continua no maldito romance, e depois não desiste. Ele aparecia com rolos de papel-jornal debaixo do braço, nos quais escrevia. Porque ele trabalhava no El Heraldo e Alfonso trabalhava no El Heraldo. E, repito, Alfonso desde o começo… Alfonso compreendeu quem era Gabito… Para mim, o único que compreendeu quem era Gabito se chama Alfonso Fuenmayor. E Alfonso acreditou em Gabito por toda a vida. Aqueles que influenciaram Gabito se chamam Álvaro Cepeda e José Félix Fuenmayor, pai de Alfonso, que era um gênio literário. O velho conhecia a literatura da época. Porque, há sessenta, setenta anos, a literatura não era como é hoje.

* Julio Mario Santo Domingo, nascido em Barranquilla, em 1923, foi o primeiro bilionário colombiano. Seu pai, Don Mario Santo Domingo, construiu o que é hoje uma das maiores fortunas cervejeiras do mundo, ainda nas mãos dos herdeiros de Julio Mario.Quando García Márquez chegou a Barranquilla sem dinheiro e começou a fazer amizade com os boêmios locais, Julio Mario era o dândi rico do grupo que morava no exterior. Quando estava em Barranquilla para uma visita rápida, ele gostava de sair com seu amigo Álvaro Cepeda Samudio, que fazia parte do grupo de jornalistas, pintores e aspirantes a escritores, como García Márquez. Graças à amizade de Santo Domingo com Cepeda, o grupo teve bom acesso aos cofres da cervejaria de sua família quando Cepeda se tornou chefe de relações públicas da Cervecería Águila. Julio Mario Santo Domingo, em muitos aspectos, pode ser o benfeitor daqueles que se tornaram os “debatedores” de García Márquez em Cem anos de solidão, “os primeiros e últimos amigos que teve na vida”.

Eram eles: Alfonso Fuenmayor, o mais velho do grupo, jornalista e colunista; Álvaro Cepeda Samudio, o playboy carismático com uma biblioteca e uma sensibilidade literária enormes; e Germán Vargas, o mais calmo do grupo, comentarista de rádio e crítico literário. Gabo não menciona um membro importante: Alejandro Obregón, o excêntrico pintor que gostava de provocar uma briga de bar e cuja família, como a de Santo Domingo, fazia parte da elite da cidade. O grupo aparece pela primeira vez como “os galistas de La Cueva” em Os funerais da Mamãe Grande.