Laut, Liberdade e Autoritarismo,

Jogo de espelho

'8/1: A rebelião dos manés' parte da tentativa de tomada dos três poderes para analisar o hackeamento da esquerda pela extrema-direita

01jun2024 - 04h51 • 04jun2024 - 12h53 | Edição #82
Ilustração de Veridiana Scarpelli

Revolucionários tomam um palácio. A cena, historicamente associada a rupturas conduzidas por movimentos de esquerda, é o ponto de partida de 8/1: A rebelião dos manés, que se propõe a pensar o Brasil contemporâneo a partir do dia em que as sedes dos três poderes da República foram tomadas e depredadas por apoiadores da extrema-direita. A partir daí, o ensaio analisa a inversão de papéis dos campos políticos nas últimas décadas para explicar a ascensão da extrema-direita e o protagonismo do Supremo Tribunal Federal, temas urgentes condensados em quase duzentas páginas.

O volume convida o leitor a um estranhamento brechtiano em relação ao 8 de janeiro de 2023, com o objetivo de fazê-lo se espantar com o já conhecido e refletir de forma crítica numa perspectiva mais ampla. Neste percurso, busca estabelecer relações e propor questões numa história em movimento, arriscando-se teórica e politicamente, mas sempre com um texto claro, acompanhado de imagens inscritas no debate.

O que era negativo vira positivo e o ‘mané’ se torna uma expressão contra o Supremo

Desde o título, que soa zombeteiro para quem não leu o conteúdo, está presente o princípio geral que estrutura a argumentação. Como se sabe, depois do resultado da eleição de 2022, o ministro do STF Luís Roberto Barroso, abordado por um bolsonarista, disse a famosa frase: “Perdeu, mané, não amola!”. Os autores contam como a alcunha foi assumida por parte dos bolsonaristas, como um colunista da Jovem Pan, que anunciou uma “Revolta dos Manés” em 21 de novembro de 2022, e um candidato bolsonarista, que denominou “Levante dos Manés” sua convocação para o 8 de Janeiro.

O que era negativo vira positivo e o “mané” se torna uma expressão galvanizadora contra uma suposta “malandragem” do Supremo. A mudança de sinal, a troca de papéis, a imagem invertida e o quiproquó revelam-se, dessa maneira, elementos do percurso interpretativo do ensaio, que pode ser resumido pelo deslizamento semântico também presente no subtítulo: “esquerda e direita nos espelhos de
Brasília”. Para os autores, devemos entender que o 8 de janeiro foi uma insurgência, isto é, um levante contra os símbolos do poder com objetivo de produzir o caos e por fogo na pólvora de uma revolução que destruísse a ordem democrática existente. Revolução que só não ocorreu porque os militares não compareceram ao ato seguinte.

Troca de papéis

Desde a Revolução Francesa, em 1789, insurgência remete à tomada do poder pelas classes populares. O acontecimento paradigmático foi o assalto ao Palácio de Inverno, na Revolução Russa, em 1917. Desde então, no imaginário das esquerdas, uma revolução envolve um momento de tomada dos palácios do poder, no qual a plebe rude derruba um regime repressor. Foi assim em Cuba, quando os revolucionários entraram em Havana e tomaram o palácio do ditador Fulgencio Batista, em 1959. Desse modo, temos mais uma troca de papéis: a extrema-direita atual tomou para si uma ação historicamente associada à esquerda.

O hackeamento do campo progressista, porém, não foi um ponto fora da curva. Desde pelo menos 2004, data de início da primeira rede social, o Orkut, a extrema-direita aprendeu a guerrear pela hegemonia cultural, no conceito definido pelo pensador marxista Antonio Gramsci. No universo fértil da internet, um dos principais gurus dessa direita radical, Olavo de Carvalho, leitor de Gramsci,
pôde semear sua interpretação da história recente do Brasil.

Para Carvalho, depois do fim da ditadura militar, a esquerda passou da luta armada para o controle dos aparelhos de reprodução cultural da sociedade, se infiltrando nas escolas, universidades, artes e meios de comunicação. Dessa maneira, teria construído uma nova forma de hegemonia cultural, se valendo de nomes importantes do campo progressista — como Chico Buarque, dom Paulo Evaristo Arns e Paulo Freire — que nos tornariam socialistas sem percebermos. Contra isso, o guru propôs que a direita criasse uma contra-hegemonia e até vaticinou o momento adequado para começá-la: 2014.

O processo de hackeamento da esquerda, no entanto, lembram os autores, não se restringe à construção de uma nova hegemonia. Ao longo do livro, vemos em detalhe a metamorfose da insurgência de Junho de 2013 em antipetismo, com a direita aprendendo a ocupar as ruas; a organização de acampamentos como os “300 do Brasil” e, mais tarde, em frente aos quartéis (um tipo de ação copiada do Movimento Sem Terra); a transmutação dos black blocs no que os autores chamam de yellow-green blocs, com a camiseta da seleção canarinha e a bandeira como uma espécie de escudo contra a polícia, seguindo uma lei da ditadura que proíbe destruir esse tipo de símbolo.

Novas regras

Assim como ocorreu em Junho de 2013 e no 8 de janeiro de 2023, os autores também lembram, por outro lado, como coube à esquerda a repressão às insurgências — um tipo de ação historicamente ligada à direita. Um novo jogo de espelhos que é resultado de um processo iniciado ao menos dez anos antes, com a “Carta ao Povo Brasileiro” de Lula em 2002. A partir dali, teria se consolidado a gestão comportada da economia, ou o que o cientista político André Singer chamou de “reformismo fraco” do PT no Poder Executivo. Em outras palavras, como em outros países do mundo neoliberal, a esquerda no poder teria abdicado do seu DNA revolucionário, aceitado as regras do jogo e reduzido seu papel à redução de danos do capitalismo.

Ao agir dentro das regras do jogo, como lembra o psicanalista Tales Ab’Saber no prefácio, o PT se tornou um partido eleitoralmente imbatível de 2003 a 2014, graças ao efetivo desenvolvimento social, crescimento da economia, aumento do emprego e da renda. A partir daí, o que se verificou foi toda uma construção para mudar as regras do jogo. A extrema-direita dominou a internet e mostrou uma força excepcional na criação de circuitos de informação e desinformação, Aécio Neves inaugurou o descrédito às urnas, a Lava Jato iniciou sua intervenção na política petista, os militares saíram das coxias, Jair Bolsonaro fez um discurso de exaltação a um torturador na votação do impeachment de Dilma Rousseff e não foi punido, entre outros episódios que demoliram as regras do período pós-redemocratização até 2013.

Os autores descrevem com acuidade a ideologia dessa mudança ocorrida entre 2013 e 2018, que pode ser resumida numa mescla de olavismo, lavajatismo, bolsonarismo (que designam como não somente os seguidores do ex-presidente, mas um novo modo de romper o pacto social brasileiro da Nova República), salvacionismo de determinados grupos evangélicos e retorno caricatural ao “estado de natureza” hobbesiano — com hordas de “homens-lobo”, armadas até os dentes e prontas para a luta violenta.

Com a mudança nas regras do jogo, a extrema-direita chegou ao poder. O livro lança mão de textos clássicos da sociologia, de nomes como Florestan Fernandes e Chico de Oliveira a contemporâneos como Miguel Lago e Rodrigo Nunes, para mostrar como tudo mudou para permanecer o mesmo. O Brasil é um país monstruosamente desigual, com um gigantesco desequilíbrio entre capital e trabalho, lucro e salário, propriedade privada e direitos, no qual os setores econômicos mais modernizantes se articulam com os arcaicos e agem em servidão voluntária ao capital externo. Como se não bastasse, aceitam facilmente vias autoritárias, repressão aos de baixo, vanguardas do atraso.

Futuro da esquerda

Nesse contexto, o que a esquerda pode fazer? Na visão dos autores, Lula só voltou ao poder quando o establishment começou a ver, no governo Bolsonaro, riscos às instituições, à democracia, ao meio ambiente e, sobretudo, aos negócios. Diante disso, alertam, vencer o ex-capitão foi apenas um round. O Brasil é o mesmo: um país que se desindustrializa há décadas, com uma economia regressiva e dependente, que se mantém como uma imensa fazenda exportadora de commodities e plataforma de valorização financeira rentável, sem perspectiva de mudança para os despossuídos.

O cenário é agravado pelo fato de que a extrema-direita hoje é organizada e violenta e possui o apoio da “Internacional Fascista” (como apelidam o conjunto de países governado pela extrema-direita, como Hungria e Israel). Além disso, tem uma força que vem não só de cima para baixo, mas de baixo para cima, ao oferecer uma ideologia que resolve imaginariamente problemas reais.

Na visão dos autores, Lula só voltou ao poder quando o establishment começou a ver riscos à democracia

Os autores argumentam que é um mau sinal que a esquerda não tenha sido a principal força de oposição a Bolsonaro no poder, mas o STF. O livro esmiúça como a corte se tornou um dispositivo de comunicação midiático nos últimos anos, lembra que os ministros votaram pela prisão de Lula e questiona, com o olho na Constituição, os argumentos e as penas aplicadas aos insurgentes de 8 de Janeiro — que, eventualmente, poderão ser aplicados contra a esquerda no futuro. Também recorda que o ministro Barroso, que apelidou um bolsonarista de “mané” em 2022, é o mesmo que chamou meses antes o PT de “quadrilha” e Lula de “criminoso”.

Feito o diagnóstico afiado dos deslizamentos semânticos, a solução apontada é que a esquerda retome a crítica radical e a ação insurgente para alterar o curso da história em favor dos mais vulneráveis. Nesse ponto, cabe a pergunta: quando colocam a ação insurgente acima da gestão, será que os autores não se colocam fora do próprio quadro que sua crítica radical tão bem detalhou? Ou ainda: como é possível mudar a cabeça de pelo menos parte dos 58 milhões de eleitores de Bolsonaro em 2022?

Esperemos que, num próximo título, os autores ofereçam um retrato de quais forças sociais são capazes de combater o neofascismo. Por ora, resta torcer para que a imagem de Lula subindo a rampa acompanhado de um grupo que representa a diversidade do povo brasileiro — analisada em pormenores no livro — seja o símbolo de que o horizonte do possível será alargado nesse governo e que a política brasileira finalmente aceitará decisões a respeito do que é inegociável no caminho de uma sociedade igualitária.  

Editoria especial em parceria com o Laut

LAUT – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo realiza desde 2020, em parceria com a Quatro Cinco Um, uma cobertura especial de livros sobre ameaças à democracia e aos direitos humanos.

Quem escreveu esse texto

Daniel Augusto

Diretor de cinema, filmou Não pare na pista (2014) e Albatroz (2019).

Matéria publicada na edição impressa #82 em junho de 2024.