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Filmes de Éric Rohmer, mestre na articulação entre arte e filosofia, fazem refletir sobre como nossas escolhas podem salvar vidas

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Um dos maiores diretores da história do cinema, Éric Rohmer completou cem anos de nascimento e dez de morte neste 2020. Premiado em Cannes, Berlim e Veneza, realizou mais de vinte longas, vistos por milhões de espectadores, e influenciou dezenas de realizadores. Sua importância, no entanto, ultrapassa o cinema. Na filosofia francesa, Alain Badiou o nomeou “pai fundador” de certa linhagem do cinema do seu país caracterizada pela perambulação amorosa, social e intelectual, e Gilles Deleuze disse que seu cinema é “mais concreto, mais fascinante, mais divertido do que qualquer outro”. Rohmer nasceu Maurice Schérer, mas adotou o pseudônimo para que a mãe não descobrisse sua profissão. Não foi o único: antes de ser cineasta, assinou o romance Élisabeth (Gallimard) como Gilbert Cordier. Em Éric Rohmer: biografia, Antoine de Baecque e Noël Herpe registram a vontade de se esconder e de semear a dúvida como suas verdadeiras paixões. Não é de estranhar que muitos de seus personagens tenham gosto pela fantasia e que o mundo em que perambulam tenha algo de impenetrável. 

Da infância em Tulle, Rohmer lembra ter visto somente três filmes. Em Paris, sem sucesso como romancista ou professor, foi tomado pelo período áureo da Cinemateca e dos cineclubes. Aproximou-se dos futuros companheiros da Nouvelle Vague e foi crítico de cinema antes de ser cineasta. A influência maior era de André Bazin, um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma e pensador-chave do cinema no século 20. Sartre também ressoava nele: “Se você quiser retraçar meu itinerário estético e ideológico, é preciso partir do existencialismo”. Era mais velho do que Godard, Truffaut, Rivettte e Chabrol, e teve reconhecimento mais tardio. Seu primeiro longa, nunca finalizado, teve o negativo perdido, e o primeiro lançado comercialmente, O signo do leão (1959), teve recepção modesta. Uma característica de sua filmografia é a organização em ciclos, embora não fique restrita a eles: os Seis contos morais (seis filmes, 1962-72), as Comédias e provérbios (também seis, 1980-86) e os Contos das quatro estações (quatro filmes, 1989-97). Parte de sua obra pode ser encontrada no Brasil no serviço de streaming do Petra Belas Artes, incluindo os excelentes Noites de lua cheia
 (1984) e Conto da primavera (1990).

Seus filmes dão primazia aos diálogos e valem-se de uma gramática aparentemente simples e funcional e de equipamentos e equipes mínimos. Ele adota ângulos e movimentos justificados pela visão humana, privilegia lentes que não deformam os objetos e o som gravado junto à cena. Quase não há maquiagem, cenários ou estúdios. Os atores, figurinos e objetos de cena são selecionados em função da verossimilhança com o mundo retratado. Há até elementos de documentário na ficção, de modo a borrar os limites entre fato e encenação. Todas as escolhas se baseiam em produzir um efeito de realidade: “Distingo dois cinemas, o que se toma por objeto e fim, e aquele que toma o mundo por objeto e que é um meio”. Entre os dois, opta pelo segundo: “O que eu gostaria de fazer é um cinema de câmera absolutamente invisível”, no qual “a tela seja uma janela aberta sobre o mundo”. 

Decisão filosófica

A economia de meios é uma decisão simultaneamente artística e filosófica. Na tradição de Bazin, procura um cinema que pareça objetivo, habilitado para compor um mundo à imagem do real. Não que seja ingênuo em relação a aparatos de linguagem — sua escolha artística remonta a uma longa tradição que vem desde a valorização do sermo humilis por São Francisco de Assis até a contenção do cinema de Rossellini, na qual a renúncia é uma forma de acessar um conteúdo real. Em Rohmer, a renúncia dá ao espectador a experiência contraditória de ver uma janela aberta a um mundo que não se deixa ver por completo. 

A relação entre arte e filosofia é evidente desde os Seis contos morais, série que o lançou ao mundo. Parte-se quase sempre da mesma situação: um homem comprometido conhece outra mulher. Discute-se sobre amor, desejo e a possibilidade da consumação do ato sexual. Embora os personagens falem mais do que o habitual no cinema, há um descompasso entre palavras e atos. Quem acredita na narração off screen dos protagonistas masculinos não nota o mais importante: eles se apresentam como exemplos morais, mas agem movidos pela má-fé. É nesse descompasso que se flagra o vício disfarçado de virtude, numa atualização da tradição de filósofos moralistas do século 17, como La Rochefoucauld. 

Outro ponto de diálogo parte da observação foucaultiana de que a subjetividade ocidental deve muito a elementos do cristianismo, como a confissão e o casamento. Rohmer registrou as mutações sociais na França desde os anos 1960 — quando os relacionamentos sexuais ganharam maior liberdade — por intermédio da sondagem de afinidades e descompassos entre o exame verbalizado de si e as relações amorosas. Para Deleuze, os Seis contos morais são “uma coleção arqueológica do nosso tempo”, pois remetem às camadas tectônicas do presente onde se “dissimulam nossos próprios fantasmas”. Rohmer escavou fantasias que cimentam os relacionamentos na França, especialmente os amorosos, deixando abertas questões que assombram o mundo ocidental até hoje. Curiosamente, com homens insolentes e agressivos e mulheres maduras, moral e emocionalmente. 

Um dos pontos mais provocantes de seu diálogo entre arte e filosofia pode ser pensado a partir da questão da escolha dos modos de existência. A célebre aposta de Pascal, discutida em Minha noite com ela (1968), não se resumia a crer ou não em Deus: era também a escolha entre o modo de existência de quem crê ou não em Deus. Nessa perspectiva, a obra de Rohmer é uma das mais instigantes configurações artísticas do nosso tempo: diante da falta de certezas que nos orientem, como Deus ou uma utopia, joga luz sobre escolhas impulsionadas por vícios disfarçados de virtudes e modos de existência assentados em falsas crenças. No meio das ruínas, porém, traz fios quase imperceptíveis de positividade, como uma existência que acredita na renúncia ao excesso. Pode parecer pouco, mas, num mundo que caminha para a catástrofe, talvez seja só o que importa. 

O sublinhado na relação entre liberdade, má-fé e escolha, central na filmografia rohmeriana, é uma oportunidade para refletir sobre o quanto nossas escolhas do presente determinam a existência coletiva futura. Lembrando Sartre: “Não há sequer um dos nossos atos que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie uma imagem do homem como julgamos que deve ser”. Num mundo em crise sanitária e econômica, a afirmação existencialista lembra como nossos atos individuais produzem parâmetros de um horizonte mais amplo, no qual, no limite, nossas escolhas podem salvar vidas ou provocar mortes. Num outro mundo, talvez fosse desnecessário dizer qual é a escolha ética, e a obra de Rohmer, possivelmente, seria relíquia arqueológica do passado. Não é.

Quem escreveu esse texto

Daniel Augusto

Diretor de cinema, filmou Não pare na pista (2014) e Albatroz (2019).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.