Jornalismo,

Salvos pela burocracia

Livro sobre a caótica transição de Obama para Trump valoriza figuras anônimas do serviço público

01maio2019 - 01h00 | Edição #22 mai.2019

Em algum momento da história, burocrata passou a ser uma palavra com sentido pejorativo, usada até como xingamento. O quinto risco, livro do jornalista Michael Lewis sobre a transição do governo de Barack Obama para o de Donald Trump, em 2016, vem mostrar quanto isso é injusto.

Num relato pormenorizado da máquina administrativa americana, Lewis vai além: descuidar da burocracia, como fez Trump nos dois meses e meio entre a inesperada vitória eleitoral e a posse, é um perigo. Só a sorte (que o presidente tem de sobra) evitou que um desastre real acontecesse.

Para um técnico do governo a má gestão é comparável a riscos nucleares, bélicos e elétricos 

O título é emprestado de uma conversa do autor com um técnico do Departamento de Energia dos Estados Unidos. Ao listar os perigos inerentes à área, ele pôs a má gestão de projetos como “o quinto risco” — atrás apenas de um acidente nuclear, uma pane no sistema elétrico e as sempre presentes ameaças representadas por Irã e Coreia do Norte. A diferença é que má gestão é algo que tem probabilidade muito maior de ocorrer do que os demais pontos da lista. E Trump, ao que tudo indica, não estava muito preocupado com isso ao se mudar para a Casa Branca.

O cenário descrito é de uma completa bagunça na troca entre os dois governos — uma situação que mesmo em condições normais nunca é fácil. “O período entre a eleição e a posse parece uma aula de química à qual metade dos alunos chegou atrasada e se vê forçada a pegar as anotações com a outra metade antes da prova”, diz Lewis, numa das muitas ótimas imagens que enriquecem seu relato.

A transição fica mais difícil quando um partido é substituído por outro. Pior ainda se o presidente que sai (Obama) e o que entra (Trump) têm estilos de liderança e comunicação absolutamente opostos. Além disso, há também aquele que talvez seja o ponto central para explicar a sensação de caos e improviso: o atual mandatário não estava nem um pouco preparado para a improbabilíssima hipótese de sentar na cadeira presidencial. Mas ganhou a eleição.

“A campanha de Trump nem se dera ao trabalho de preparar um discurso de vitória”, escreve Lewis. “Não era difícil perceber por que ele tinha achado inútil se preparar para comandar o governo federal: para que estudar para uma prova que você nunca vai precisar fazer?”

Grande parte do livro é dedicada a revelações de burocratas desconhecidos do público, que fazem um trabalho na maior parte do tempo monótono, mas fundamental, sem se preocuparem com quem é o presidente de plantão. São pessoas como os responsáveis pelo controle dos estoques de plutônio e urânio dos Estados Unidos, por programas de transferência de renda e pela previsão de tornados.

Todos fazem um relato parecido: nos dias seguintes à vitória de Trump, prepararam-se para receber emissários do novo governo. A posse estava próxima, e as tarefas eram muitas. Não havia tempo a perder na missão de transmitir aos novos chefes do pedaço o máximo de informações possível sobre setores altamente complexos e que lidavam com pontos que mexiam diretamente com a vida das pessoas.

Mas ninguém apareceu nos primeiros dias e semanas. Algum tempo depois, materializavam-se assessores do presidente eleito para visitas protocolares, e seus perfis não eram nada promissores: destacavam-se pela militância conservadora, e não por terem familiaridade com o tema em questão.

No Departamento de Energia, a pessoa indicada por Trump para ser responsável pela transição estava interessada apenas em saber quem eram os funcionários que alertavam para o aquecimento global. Na agência responsável pela previsão do tempo, quem apareceu foi o dono de uma empresa que lucrava com a venda de dados meteorológicos, um evidente conflito de interesses. E assim por diante.

Tanto lá como cá

É inevitável, na leitura dos relatos horrorizados de burocratas com décadas de serviço público, traçar um paralelo com a transição que vivemos há poucos meses. As semelhanças entre Donald Trump e Jair Bolsonaro por vezes são exageradas, e a equivalência entre os dois líderes costuma atender a uma lógica simplista propagada pelos derrotados à esquerda. Mas é inegável que os dois líderes são mercuriais e nutrem um profundo desprezo pelas estruturas que existiam antes de suas respectivas chegadas ao poder. Quem sofre, claro, são os burocratas, confundidos por aqui com representantes da “velha política”.

De maneira consciente, a equipe de Bolsonaro espalhou a fantasia de que haveria mais de 20 mil cargos de indicação política prontos para serem cortados, quando na verdade eles são, em sua grande maioria, funções comissionadas, que precisam ser ocupadas por servidores concursados.

Da mesma forma, o slogan fácil da “despetização” da máquina ajudou a maquiar, com Bolsonaro já no Planalto, as falhas de gestão em diversos ministérios. Assim, o Ministério da Educação não teria ficado paralisado no início do governo por incompetência e disputas internas, mas pela sabotagem de petistas infiltrados.

Lewis conseguiu fazer um livro sobre política que ignora os grandes personagens de Washington

O maior mérito de Lewis é a originalidade. Conseguiu fazer um livro sobre política contemporânea que foge do roteiro tradicional de obras do gênero, ignorando os grandes personagens de Washington e o estilo “anão debaixo da mesa”, em que diálogos a portas fechadas são reproduzidos detalhadamente entre aspas —como se isso fosse possível.

Ao mesmo tempo, páginas e páginas de relatos de pessoas comuns cansam mais facilmente que fofocas sobre a intimidade dos altos escalões. O livro por vezes torna-se árido, e alguns personagens são mais chatos que outros. Ao final da leitura, no entanto, a escolha de Lewis só faz renovar o respeito pelos que trabalham anonimamente para fazer andar a máquina pública. Impossível não simpatizar com o sujeito abnegado que trabalhou cinquenta anos gerenciando uma versão local do Bolsa Família até se aposentar num pequeno rancho no Maine.  

Quem escreveu esse texto

Fábio Zanini

Jornalista, escreveu Euforia e fracasso do Brasil grande: política externa e multinacionais brasileiras da Era Lula.

Matéria publicada na edição impressa #22 mai.2019 em abril de 2019.