Economia, Infantojuvenil,

Supercapitalismo

Livro usa trechos da obra de Karl Marx e ilustrações impactantes para fazer crítica à obsessão da humanidade pela riqueza

01maio2018 - 01h51 | Edição #11 mai.2018

Ao lançar o selo infantojuvenil Boitatá com a coleção Livros para o Amanhã, vencedora do Bologna Ragazzi Award em 2016 na categoria não ficção, a editora Boitempo já mostrava uma escolha, para o público infantil, coerente com a linha editorial da casa. A coleção, publicada originalmente na década de 1970 pela espanhola Equipo Plantel em resposta à ditadura franquista, trata de assuntos como democracia, classes sociais e questões de gênero. 

Respeitando o livre pensar da criança e optando por títulos que abordam temas complexos numa perspectiva crítica, a Boitatá entrou no segmento marcando presença e provocando polêmicas em tempos de posicionamentos extremos, estimulados pelo estado de exceção que o país vive. 

Efeméride

Neste ano, em que se celebram os 200 anos de nascimento de Karl Marx, a editora lançará cerca de dez livros em homenagem ao autor, dois deles destinados ao público infantojuvenil: O Capital para crianças (de Liliana Fortuny) e O Deus dinheiro. A notícia gerou reação agressiva por parte de segmentos conservadores da sociedade, com ameaças pessoais a Ivana Jinkings, que dirige a editora. 

O Deus dinheiro tem se destacado em meio a muitas publicações que reforçam estereótipos e se dirigem à criança como mera consumidora de produtos rapidamente substituíveis. 

Não é o caso deste livro. Catalogado como “Crianças e Filosofia”, o título tem provocado reações positivas, sobretudo entre os pesquisadores que acompanham mais de perto os lançamentos infantojuvenis no país. Não poderia ser diferente: o impacto visual do livro é arrebatador. E o texto, composto de trechos de Manuscritos econômico-filosóficos, escritos por Marx em 1844, é de uma atualidade impressionante. A obra produzida pelo indignado jovem de apenas 26 anos traz notas e argumentos que Marx desenvolveria posteriormente em O capital e apresenta passagens fascinantes contra a avareza humana e o poder alienante do dinheiro — ao qual é dedicado o ensaio final. 

Logo na primeira página de O Deus dinheiro temos: “A propriedade privada nos fez tão cretinos e rasos que um objeto só é nosso quando o temos — quando ele existe para nós como capital”. O desdobramento dessa contundente abertura se dá em forma de argumentação ético-filosófica que, a princípio, não compõe exatamente um enredo. Porém, quando lida em paralelo às incríveis imagens do ilustrador espanhol Maguma, adquire um sentido narrativo. 

O caráter condensado do texto amplifica-se na densidade imagética de teor profético que salta das páginas sanfonadas. Maguma cria um cenário distópico-apocalíptico, inspirado no capítulo “A Queda”, do Gênesis. No canto de uma das páginas finais se lê “Eden Garden” (Jardim do Éden) num letreiro luminoso. Nesse paraíso às avessas, um retrato assombroso do nosso tempo, convivem gigantescos seres gananciosos trajando terno e gravata, pequenos homens-cofre caminhando em direção ao abismo e estranhos deuses superpoderosos. 

Para ler junto

É a história da alienação dos sentidos pela força do dinheiro, da obsessão humana pela riqueza e da consequente destruição dos bens comuns. Uma crítica ao “deus-capitalismo” e seus excessos. O título lembra uma fala de Agamben: “O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”.  

O Deus dinheiro certamente não fará dormir as crianças, como alguns belos e também cruéis contos de fadas, não divertirá ou fará rir. É livro para ler junto — criança e adulto —, conversar, escutar, fazer pensar. Sua publicação, nesse momento de contexto mundial convulsionado, é como o ressoar de um antigo alarme que insiste na esperança de ainda despertar crianças, homens e mulheres. 

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #11 mai.2018 em junho de 2018.