Infantojuvenil,

Para entender os monstros

Manual explica os diveros tipos de malvados que apavoram as crianças e ensina truques para afugentá-los

13nov2018 - 13h38 | Edição #6 out.2017

Meu filho de três anos e meio não dá a mínima para esportes. Não curte jogos eletrônicos. Música, mais ou menos. Sua paixão são as cores. Escolhe sabonetes pelas cores. A cada temporada, uma é a favorita, e anuncia a todos. Preto foi por muito tempo a favorita (Phebo). Amarela, verde, azul já foram. Costuma dizer que agora prateado é a sua cor favorita.

Meu filho ama fazer as unhas, sair com uma sandália Crocs de cada cor. Faz misturas inusitadas de flores com álcool para criar tintas, combinações de roupas surpreendentes. E pinta. Seu forte é a pintura: lápis, canetas esferográficas, Bics, hidrográficas, Pilot, até aquarela já usou.

A casa é tomada por seus desenhos pendurados. Paredes desenhadas. Arte abstrata extremamente colorida de traços nervosos movidos pelo inconsciente. Até recebermos a notícia de que nosso pequeno Jackson Pollock (posso vender uma tela dele como se fosse do expressionista perturbado, que engana) começou a preencher formas. É da idade. É a nova fase.

Temi que ele perdesse toda a inspiração visceral por casinha com solzinho, nuvenzinhas, chaminé e fumaça. Nada disso. Por sorte, chegou o Grande dicionário de monstros. Por sorte por quê? Porque começou a desenhar monstros incríveis. De Pollock a Bosch. Figuras preenchidas viraram figuras horrendas. Cada um com sua persona, a face social ou máscara de como um sujeito se apresenta socialmente.

Livro infantil tem que ter ação, conflito, redenção, lição moral e morte (ou perigo). Mas alguns são manuais, para serem consultados e inspirarem. O livro de Catherine Leblanc e Roland Garrigue traz todo tipo de monstro presente em nosso cotidiano. Traz uma precisa classificação: bonzinhos, malvados e muito malvados, que vivem na terra, água e ar, saem de dia e à noite, podem ser minúsculos ou gigantes, vêm em muitas formas e cores e, claro, todos têm rabos, olhos coloridos, e a maioria deles fede.

Eles não gostam de espelhos. Estão em todos os ambientes da casa e no quintal. Uma supercabana, armação com mesas, cadeiras, toalhas, almofadas e lençóis, ajuda a nos proteger.

No corte transversal de um monstro, vemos seu coração de pedra, tentáculos como os de um polvo, garras como as de um caranguejo e dentes, muitos dentes, que serram. Em cada virada de página, um monstro, após ganhar seu selo de grau da maldade, tem revelado seu segredo: o que faz, qual seu habitat e como apavora.

A rotina de uma criança é preenchida pelos monstros. O dia de uma criança é contado pelos monstros que cruzam seu caminho. Lobo Mau é uma figura popular e presente. Agora, ele pinta criaturas horripilantes, com muitos braços, coração de papel. Um deles se chama Corintiano, porque não é brasileiro. Tá, o pai é corintiano, mas não vou me aprofundar…

Aspiroso tem quatro olhos laranjas, cílios grandes e lembra um tamanduá. Aspira brinquedos largados no chão. Cacax é inimigo das crianças, carrinhos de bebês e adultos. Fica na espreita, sorrindo, nas calçadas. Não é esperto, pois pode ser amassado.
O monstro apavorante na forma de um cocô tem cinco olhos cor-de-rosa.

Codregulho é aquela coisinha chata que entra em sapatos e apavora nas calçadas. Coisadelo é, sim, aquele monstro de arrepiar, com que crianças e adultos têm intimidades, que invade nossos sonhos. A única forma de combatê-los e abrir os olhos e acordar.

Embeijonático é a tia que adora beijar. Fuçarino, também conhecido como irmão mais novo, fuça todos os brinquedos, pega e não devolve. Gororobo é aquele treco abominável que está sempre no meio da comida.

Halucinóvel me atacava quando eu era criança. Aparece à noite, nas paredes: todo tipo de sombra deturpada de dimensões assustadoras. Um prego vira serpente. Um chapeleiro, um monstro de muitos braços.

Karidente é aquele monstrinho maldoso que se alimenta do nosso dente, especialmente se não escovarmos direitinho. Punzeiro… bem, a criançada o adora. Sim, é a cornetinha que espalha gás fedorento e pode nos envenenar. Ataca de surpresa e, pior, sempre que tem alguém ao lado. O único antídoto é uma máscara de gás.

Manual de A a Z incrível. Para treinar os filhos contra a guerra impiedosa que travarão contra monstros por muitos anos. Com truques para afugentá-los e ilustrações para identificá-los. Afinal, pode não acreditar neles, “pero que los hay, los hay”… 

Especial Infantojuvenil: oferecimento Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Marcelo Rubens Paiva

É autor de Meninos em fúria e O orangotango marxista, ambos pela Alfaguara.

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.