Infantojuvenil,

Neném outra vez?!

Psicanalista e artista investigam os sentimentos de um menino que acaba de ganhar um irmão

29out2018 - 15h34 | Edição #16 out.2018

Querer ser o que não é. Ou, querer ser o que já foi um dia. Querer voltar ao tempo. Não querer crescer. Não se gostar. Não se sentir amado. Querer mudar. 

Todos esses dilemas afloram quando começamos a ter consciência de quem somos, de quem fomos, de quem gostaríamos de ser, de quem querem que a gente seja, e do que poderíamos ser se tivéssemos a chance de alterar o rumo da nossa vida, como numa mágica.

Melancolia infantil

São essas as propostas presentes na deliciosa história Neném outra vez!, a primeira investida na literatura infantil da psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, que já ganhou um prêmio Jabuti de melhor livro de não ficção com O tempo e o cão (Boitempo) — obra densa de ensaios sobre o tema espinhoso da depressão como sintoma social contemporâneo, escrito a partir do contato com pacientes que sofriam da doença.

Maria Rita, em parceria com a ilustradora Laerte — que conhece o universo infantil, desenha dinossaurinhos, brinquedos amados pelas crianças e dispensa apresentações —, aproveita-se do seu conhecimento de observar o lugar simbólico ocupado pela melancolia.

Kehl busca em Rodrigo, um menino de oito anos, aparentemente solitário, que chuta uma bola contra o muro, o sentimento de abandono desde o nascimento do irmão temporão, ainda bebezinho.

Rodrigo sente ciúmes e falta de ser o centro das atenções, até que se depara com uma fada, travestida de borboleta, que é atingida por uma bolada. Depois de salvá-la, é oferecida ao menino a realização de um desejo. 

Rodrigo ganha a chance de mudar o cenário que o entristece. De mudar a rotina. De retomar a atenção da família. De mudar!

O que ele escolhe não chega a ser surpresa, mas é um erro: voltar a ser neném. Neném outra vez! nos apresenta aquela sábia e confortável verdade de que é melhor olhar para a frente, do que voltar no tempo para corrigir uma carência presente ou uma falha do passado.

Dá para mudar a vida. Mas olhando para a frente. Crescer, mudar de fase, deixar de ser bebê, dilema de toda criança, é bom e vale a pena. Olha  quantas vantagens de poder andar, brincar, não ficar preso num berço, ampliar o mundo, vasculhar ao redor, explorar o corpo, ter repertório e linguagem para se comunicar e ser preciso nas palavras, nos desejos. 

Como bebê, quando o colocam cercado por travesseiros na cama, Rodrigo teme morrer de tédio sem seus brinquedos. Sente falta de jogar bola, andar de bike, ir para a escola, brincar com o jogo de química. 

Leite morno

O que lhe é dado? Nada do sanduíche de peru com maionese, mas uma mamadeira com leite morno — que ele odeia. E, em vez de ver desenhos na televisão, Rodrigo é levado para dar um rolê no quarteirão, num carrinho idiota que antes foi dele, ficou para o irmão e agora volta a ser dele.

Descobre que só consegue se virar no berço, que usa fraldas e que, quando pede algo, só sai um estrondoso “unhéééé!”.

Jogando com a linguagem e com os sentimentos dúbios de cada um, Maria Rita Kehl e Laerte criam uma história deliciosa, profunda, universal. Daquelas que a gente aprende quando contamos em voz alta para nossos(as) pequenos(as), tão curiosos para as perguntas e reflexões que elas despertam.  

Quem escreveu esse texto

Marcelo Rubens Paiva

É autor de Meninos em fúria e O orangotango marxista, ambos pela Alfaguara.

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.