Infantojuvenil,

Manual de desobediência mirim

Brecht ilustrado fantasia um universo marinho com homens no lugar de tubarões

31mar2019 - 22h00 | Edição #21 abr.2019

Alinhados em diagonal, homem e tubarão espelham-se diante do leitor, ambos com dentes afiados e um sorriso sarcástico. O tubarão, quase chegando à superfície, mira uma menina, que veste capa e chapeuzinho vermelhos e conversa com o homem. Senhor K. traja smoking e calça listrada, e traz uma espinha de peixe espetada na cartola.  Cercada por esses dois lobos do mar em um cenário sombrio e cinzento, a menina segura um graveto em forma de forquilha, do qual se despregam duas minúsculas folhas ainda verdes, e indaga ao senhor K.: “Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais gentis com os peixinhos?”.

Ao compor com desenhos uma narrativa literária brechtiana, o premiado artista mineiro Nelson Cruz acerta não apenas no tom, na cor, no traço e demais escolhas plásticas, como também na perspectiva discursiva. Nelson opta por uma narrativa visual quase paralela, que se contrapõe às palavras — solução dialética para um texto já dialético. O resultado é uma provocação múltipla, que desafia leituras menos atentas. Desde as primeiras páginas, o aviso é claro: o mar não está pra peixe pequeno. 

“Se os tubarões fossem homens” integra Histórias do sr. Keuner (Editora 34). A obra reúne narrativas breves escritas por Brecht entre 1926 e 1956 (ano de sua morte), publicadas como livro póstumo. Segundo o prefácio à edição brasileira de Sr. Keuner, de Vilma Botrel Coutinho de Melo, algo próximo às short stories americanas, à literatura chinesa e à Bíblia, referencial maior do dramaturgo. 

Escolas-gaiolas

Nesta edição infantojuvenil, os cruzamentos entre texto e imagem convocam referências da infância à vida adulta, transitando por repertórios diversos. Personagens dos conhecidos contos de fadas, como Pinóquio, e lobo mau, aparecem ilustrando o trecho que se refere às “grandes festas aquáticas” realizadas para que “os peixinhos não ficassem tristes porque peixinhos alegres são mais saborosos”; no cenário apocalíptico, destacam-se plataformas que flutuam no mar e lembram as petrolíferas; homens-tubarão aparecem uniformizados e portando armas, até mesmo quando a leitura literal do texto indica outra coisa. 

A ironia enlaça esse cruzamento entre o verbal e o visual, reforçando a distopia: a minoria que detém o poder explora e oprime a maioria, fazendo-a crer que está tudo bem. Não poderia faltar no texto, portanto, menção igualmente irônica aos instrumentos de alienação. Brecht é considerado um dos maiores pensadores e dramaturgos do século 20, e ao longo da vida posicionou-se a favor do socialismo, contra o nazismo e, acima de tudo, contra as formas autoritárias. 

Além da convocação ao pensamento crítico que se impõe pelo próprio funcionamento invertido da linguagem irônica, são igualmente perturbadoras as escolhas do narrador para responder à indagação do começo do texto sobre o que caracterizaria, afinal, uma possível sociedade “mais gentil”, caso os tubarões fossem homens: escolas-gaiolas, formação moral para a obediência, exclusão imediata de qualquer inclinação marxista, estímulo à delação e à violência, arte para distrair e controlar e, claro, religião. No púlpito sagrado, no parlamento político, nos retratos artísticos, nas indústrias e nas salas de aula reinariam os tubarões, e não os peixinhos. 

No parlamento, nas indústrias e nas salas de aula, reinariam os tubarões e não os peixinhos

Em sua peça A vida de Galileu, Brecht afirma que pensar é um dos maiores prazeres da espécie humana. Seus textos fazem pensar, pelo estupor que a explicitação do real provoca: “Se os tubarões fossem homens, acabaria essa história de que todos os peixinhos são iguais, como são agora. Alguns deles ocupariam cargos que os colocariam acima dos demais. Aqueles um pouco maiores até poderiam comer os menores, o que só agradaria aos tubarões, pois assim eles também teriam maiores bocados para comer”.  

Brecht não apenas faz pensar. Sua palavra é libertadora e revolucionária — este livro, em toda a sua cuidadosa edição, é um exemplo. O aspecto libertador da palavra brechtiana parece contagiar a criação do ilustrador, que acaba por ultrapassar a narrativa verbal, criando novos personagens e abrindo para outros possíveis desfechos. Em um processo criativo que é, antes de mais nada, livre, Nelson Cruz convida o leitor de suas imagens a inverter o olhar e buscar a contracorrente do discurso proposto pelo sr. K. Se os tubarões fossem homens conforme os descritos pelo narrador, certamente temeriam a valentia inesperada e a força aglutinadora de peixinhos desobedientes. 

Nas ilustrações de Nelson Cruz, um peixinho vermelho, que não aparece no texto original de Brecht, se destaca discretamente dos cardumes cinzentos, nada sorrateiramente fora das gaiolas e aparece, em diferentes situações, de costas para os tubarões, conversando com outros peixinhos. Ele é quase imperceptível em algumas páginas, diante da grandiloquência dos tubarões, mas está lá. É real e desobediente. Sua presença desafia, num colorido destoante multiplicado em peixinhos de formas variadas na imagem final, a premissa de uma única, uniforme e opressora civilização a habitar o mar dos tubarões-homens.  

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #21 abr.2019 em março de 2019.