Infantojuvenil,

De olhos bem abertos

Livros de dupla russa e de Arnaldo Antunes conjugam efeitos ópticos às palavras

01ago2019 - 01h00 | Edição #25 ago.2019

A primeira coisa que chama a atenção no livro infantojuvenil Assim eu vejo, lançado pela Editora do Brasil em 2018, é a abordagem gráfica. A dupla russa Andriy Lesiv e Romana Romanyshyn reedita a fórmula bem-sucedida de quatro cores especiais radiantes, desenhos sintéticos e composições sedutoras mescladas a informações para falar sobre percepção. Aqui, em vez do mundo dos sons abordado em Alto, baixo, num sussurro (Editora do Brasil), o assunto é a visão. E é oportuna, em um livro sobre o olhar, a consciência que esses dois artistas têm do potencial expressivo dos infográficos e imagens instrutivas que permeiam o livro. Amostragens de cores, pictogramas, olhos de animais, ilusão de óptica, o funcionamento do olho humano, vinhetas de um cego sendo auxiliado: o repertório da representação esquemática é explorado para gerar resultados sedutores.

O livro é estruturado em temas que se sucedem, na maior parte das vezes, por páginas duplas. Estas trazem frases curtas que contribuem para a leveza e a fluidez da leitura. Notas informativas mais densas aparecem em textos com fonte reduzida, e os personagens, além de trazerem humor, conferem o toque final, interagindo com elementos gráficos e amarrando o conjunto da narrativa fragmentada.

A sequência de assuntos é organizada de modo inteligente, estabelecendo conexões e encadeamentos entre as páginas quando necessário. O momento de falar sobre modos de ver com outros sentidos, por exemplo, antecede o que aborda pessoas que não enxergam, “mas sentem todas as cores do mundo”. Logo adiante, o leitor passa por uma densa composição repleta de escadas e caminhos, alguns deles formados por um sistema de círculos e faixas que servem para orientar deficientes visuais. É um exemplo de ilustração que vai muito além do mero didatismo, expandindo-se em situações envolventes marcadas por grafismos geométricos. 

Indo ao ponto

Diferentes imagens estabelecem divertidas conexões, como na composição de animais rica em formas e cores: na página seguinte, uma depurada ilustração mantém apenas os olhos dos bichos, em vários formatos, brilhando na escuridão. No fim do livro, uma página com escritos em braille apresenta bolinhas que dialogam com as estrelas no céu da próxima imagem.

Fugindo do tom frio e burocrático, a obra abre espaço para licenças poéticas, devaneios gráficos e visões filosóficas: a informação está a serviço da reflexão e provoca a sensibilidade do leitor. Nesse âmbito, há apenas um porém: a apreciação de arte numa das páginas aparece de modo reducionista e superficial, sendo exageradamente vinculada ao que é considerado belo. De ilustração em ilustração, o ponto se configura como elemento importante e articulador do livro. Informações precisas convivem com ambiguidades, como bolinhas que também são olhos, sinais de sistemas de orientação, células, planetas. Afinal, a ilusão atua com naturalidade em um livro sobre modos de ver.

Outra publicação que aborda o olhar é Imagem, com texto de Arnaldo Antunes e ilustrações de Yara Kono. Lançado pela Tordesilhinhas no Brasil, foi publicado originalmente em Portugal pela premiada editora Planeta Tangerina, em 2016. Temos, de um lado, um poeta, músico e compositor multimídia, com trabalhos na área da  poesia visual; de outro, uma designer e ilustradora brasileira com trajetória na editora portuguesa, conhecida pelos desenhos com contornos geométricos e cores fortes.

Em Imagem, o modo variado de ver as coisas assume importância central, com integração de poesia e ilustrações sintéticas que conferem liberdades interpretativas. “Lê”, “contempla”, “examina” e “fita” são algumas palavras que mostram a amplitude da experiência visual. O modo como Antunes organiza o texto vai além de uma lista, relacionando-o às coisas do mundo e explorando ambiguidades.

‘Assim eu vejo’ abre espaço para licenças poéticas: a informação está a serviço da reflexão

Vale dizer que o poema foi publicado antes no terceiro livro do músico, Tudos (Iluminuras), em 1993; depois, foi reutilizado em Nome (1993), projeto que envolve CD musical, vídeo e livro. No encarte do CD, “Imagem” aparece com o texto justificado, dividido em duas colunas, reforçando a inversão de sintaxe. Já no livro, temos o mesmo poema espalhado pelas páginas, de modo geral organizado em duplas que apresentam uma palavra à esquerda e outra à direita. Alguns momentos, no entanto, trazem uma palavra por página dupla, como por exemplo “cena”, com passarinhos sobre fios, cujos olhos são bolinhas que, pouco passivas, parecem se dirigir para o leitor — ou para outra cena.

Nessa aventura com signos linguísticos e visuais, Kono evitou a sobriedade excessiva, desenvolvendo cenas e criaturas envolventes, e com texturas sedutoras. As ilustrações transitam de detalhes microscópicos a paisagens de grande amplitude, brincando quando possível com o caráter ilusório dos elementos desenhados. 

É interessante notar como o ponto acaba sendo importante neste livro também, em comparação a Assim eu vejo: numa página dupla, por exemplo, um círculo é o centro de um alvo e, na imagem ao lado, atua como um olho aberto que mira. As palavras “alvo” e “mira”, dispostas nessa ordem, não deixam claro quem faz o quê — e a solução depurada das ilustrações não se preocupa em esclarecer —, o que é um ponto forte da obra. Assim eu vejo e Imagem, cada qual ao seu modo, abordam o assunto de modo rico e amplo, proporcionando uma leitura que vale ser apreciada com os olhos.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Daniel Bueno

É professor da Ebac, artista gráfico e quadrinista. Ilustrou A janela de esquina de meu primo, de Hoffmann (CosacNaify).

Matéria publicada na edição impressa #25 ago.2019 em julho de 2019.