Economia, Infantojuvenil,

Capital imagético

Premiado livro ilustrado se inspira na obra de Karl Marx para tratar de temas como amizade, ganância e engodo

29out2018 - 15h23 | Edição #16 out.2018

Publicada originalmente pela editora Pato Lógico em 2014, a obra do português Afonso Cruz venceu, no mesmo ano, o 19º Prêmio Nacional de Ilustração, do Ministério da Cultura de Portugal. O júri destacou, por unanimidade, o conjunto de ilustrações por considerar que se trata de “uma narrativa visual apenas aparentemente linear e lógica, com dimensão paradoxal e polissêmica capaz de estirar a narrativa, tornando-a crossover, aberta a públicos de todas as idades.”  

O livro ultrapassa, de fato, as barreiras etárias e conversa com diferentes públicos. Em Portugal, integra o Plano Nacional de Leitura, indicado para o 3º ano do ensino fundamental (9-12 anos). Faz parte da coleção “Imagens que contam”, criada justamente para desafiar os artistas a desenvolver uma narrativa exclusivamente através de ilustrações, num formato com algumas regras predefinidas: 32 páginas, um título com uma palavra apenas e a reinterpretação do logotipo da editora.

A escolha de Cruz foi associar o logotipo ao focinho de um porco, mas não a qualquer porco. Trata-se de um cofrinho, que simboliza o acúmulo de dinheiro, conceito que Karl Marx desenvolveu em O capital, sua obra monumental, publicada em três volumes, a partir de 1867, na Alemanha. 

Em tempos de Escola Sem Partido, não seria estranho se o livro viesse a ser censurado, evitado ou mal interpretado por aqui. Também corre o risco de ser vinculado de forma restrita e equivocada a posicionamentos ideológico-partidários. 

Há rotas de fuga na narrativa, que introduzem temáticas subsidiárias, como a ascensão social, a ambição e a traição

É indiscutível, claro, a relação entre as duas obras, não apenas no título, como nos ícones semânticos — além do porco-cofre, há cifrões no alto dos arranha-céus, migalhas contrastando com excessos e linhas de produção engolindo, sem piedade, trabalhadores, crianças, mulheres e idosos. Mais-valia ilustrada. 

No entanto, como bem destacou o júri lusitano, não há apenas uma camada narrativa mas também rotas de fuga que introduzem temáticas subsidiárias, convocando um pensamento reflexivo e participativo na contemporaneidade: a amizade, o engodo, a ascensão social, a ambição, a traição, a escravatura, a ingenuidade. 

Em primeiro plano, a sequência de imagens apresenta um bebê recebendo das mãos de um homem com paletó, cartola e charuto o cofre-porquinho que o acompanhará até a vida adulta. A ideia é que ele vá depositando ali diariamente seu “capital”. O porco engorda excessivamente, assim como o bolso e a ganância de seu dono. Apesar da previsibilidade trágica, o desfecho surpreende. 

Paleta de cores

Surpreendem também, e principalmente, as escolhas formais do autor e o resultado composicional que obtém. Ainda segundo o júri, “a gestão parcimoniosa do espaço gráfico e da paleta cromática concentram a atenção do leitor no dramatismo dos acontecimentos que pontuados aqui e ali por detalhes jocosos de sátira social e política aguçam a avidez de conhecer o desfecho entre a ficcionalidade e a inevitabilidade”. 

Humor e perspicácia narrativa são qualidades que se aplicam também a outras obras de Afonso Cruz, como a novela O pintor embaixo do lava-loiças e o álbum A contradição humana, ambos de 2011, publicados no Brasil pela Peirópolis. 

No conjunto de obras do autor, que também é músico, cineasta e ilustrador, a escolha por temas caros à humanidade, como o nazismo e a crítica ao capitalismo, narrados sob a perspectiva dos resistentes, lembram a bela imagem que Georges Didi-Huberman celebra em Sobrevivência dos vaga-lumes (UFMG, 2014): “imagens para organizar nosso pessimismo. Imagens para protestar contra a glória do reino e seus feixes de luz crua. […] Os vaga-lumes, depende apenas de nós não vê-los desaparecerem. Ora, para isso, nós mesmos devemos assumir a liberdade do movimento, a retirada que não seja fechamento sobre si, a força diagonal, a faculdade de fazer aparecer parcelas de humanidade, o desejo indestrutível. Imagens-vaga-lumes”.   

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.