Infantojuvenil,

A guerra nossa de cada dia

Aliando imagens impactantes a poéticas contundentes, dois livros narram as ruínas deixadas pela violência

01set2019 - 01h04 | Edição #26 set.2019

“Estamos em guerra.” É o título do poema dos jovens Erich, de 21 anos, e Pâmella, 20, que abre o livro Tuim, coletânea de textos escritos por estudantes e artistas do curso livre de artes gráficas do Ateliescola Acaia (sp). “Tuim”, de origem tupi, é o nome dado ao menor periquito do Brasil e é uma gíria com ao menos dois sentidos: cabelo crespo e um zumbido no ouvido semelhante ao de uma linha telefônica em espera. “Tuim” é, ainda, a onomatopeia escolhida por Shirley Valentina, 20, para traduzir o som dos tiros no texto “Conflito”:

No meio da confusão ouvi alguém gritando por compaixão.

E daí veio o silêncio. 

Mas o tuim dos tiros ainda soava aqui dentro.

A criança em meus braços tremia

Gritava: “ajuda, tia; ajuda, tia!”

O tempo parou.

Ao finalizar a leitura de “Conflito”, entendemos que “tuim” não é apenas uma onomatopeia bem colocada. A palavra condensa significados em diálogo, nesse espaço ficcional que dá forma a um real brutal: não ser pássaro, mas ser negro, ser confundido com bandido e, por isso, morrer com quatro tiros. 

Pensar no lugar de fala dos autores, com trajetórias marcadas pela violência de Estado, já surpreende

Nomear acontecimentos tão brutais é o que fazem os narradores poetas que assinam Tuim. E dar nome próprio às pessoas, às coisas, aos sentimentos e pensamentos em tempos sombrios é um exercício vital, como já alertava Hannah Arendt, em Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras): “Mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação. […] Certamente, ainda somos conscientes de que o pensamento requer não só inteligência e profundidade, mas sobretudo coragem”. Coragem é matéria-prima de Tuim e pré-requisito para a leitura dos textos que trazem como temáticas principais a violência policial, o abuso de poder e o racismo. Não só: há textos sobre choro de criança, descoberta da sexualidade, além de uma recriação do poema “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade.

Na noite do lançamento do livro, na Casa Plana, em São Paulo, no mês de agosto, chamou a atenção o rigor crítico de muitos adolescentes ao comentarem seus textos. A maioria dizia não estar mais tão satisfeita com o que havia escrito, depois de certo distanciamento. Afirmavam, seguramente, que poderiam ter feito melhor. Nota-se, de fato, certa irregularidade na qualidade das construções verbais, expressa, sobretudo, por uma fragilidade na coesão textual. Para além de qualquer tentação interpretativa sobre ausência de conectivos e excessos explicativos, há que se ressaltar a envergadura política de Tuim

O simples exercício de pensar no lugar de fala dos autores e autoras, a partir de suas trajetórias de vida precocemente marcadas pelos excessos da violência do Estado, já surpreende. É preciso, no entanto, não restringir a análise às relações óbvias entre ficção e realidade que geram nomenclaturas adjetivas (literatura marginal, periférica, juvenil), em geral insuficientes para abarcar a substância que carregam. São características evidentes em boa parte dos textos de Tuim: autocrítica, consciência política e expressão poética muitas vezes calcada na oralidade. Alguns versos de “Olhos de fogo”, de Shirley Valentina, são exemplares nesse sentido: 

É o causador da guerra e vive pedindo paz?

Eles olham pra nós, periféricos, favelados

Matam nossas crianças e saímos como culpados? […]

Não espere me enfrentar, sempre estou armada

Com palavras

Descendentes de caboclos

Revolução pra nós vai ser pouco.

A palavra feita arma nesses versos se sobrepõe a qualquer purismo linguístico ou obsessão normativa. É disparadora de sentidos onde a lei é silenciar. É transgressão onde tudo o que se espera é obediência. Ainda conforme Hannah Arendt, a questão que se coloca é: “Quanta realidade se deve reter mesmo num mundo que se tornou inumano, se não quisermos que a humanidade se reduza a uma palavra vazia ou a um fantasma?”. 

Tuim reverbera respostas a essa questão, convocando uma leitura integral dos signos ali expostos. Impressiona a intensa coesão gráfica. No cruzamento das linguagens não verbais, a elaboração estética alça voos arrebatadores: xilogravura, tipografia e serigrafia somam camadas de significação e preenchem as ausências notadas no discurso narrativo verbal. Não faltam poesia, humor, beleza e irreverência. 

Tempos sombrios

É também com esses elementos que o escritor português José Jorge Letria acredita que se deva fazer “um livro sobre a guerra”: “Não deve ser um livro alegre, mas também não pode ser apenas um livro triste. É, assim, um livro inquieto, preocupado, atento, vigilante e criativo”. Ele bem que poderia estar falando de Tuim, mas, no depoimento que dá à editora Pato Lógico, refere-se ao seu mais recente livro, em parceria com o filho, André: A guerra

Recém-publicado no Brasil pela valente Amelì Editora, que tem trazido para cá emblemáticos títulos premiados internacionalmente, o livro inaugura a Coleção da Cigarra, parceria com Daisy Carias, do blog A Cigarra e a Formiga. A coleção abre com um livro que acumulou prêmios, escrito por um jornalista, poeta, político e dramaturgo, mestre em Estudos da Paz e da Guerra nas Novas Relações Internacionais, pela Universidade Autônoma de Lisboa. Soma-se a esse currículo uma participação ativa na Revolução dos Cravos, em 1974. 

A guerra, assim como Tuim, necessita ser lido passando das imagens ao texto e vice-versa, simultaneamente. Em Tuim, as experimentações gráficas destacam trechos dos textos e criam novos dizeres. No caso de A guerra, as imagens chegam primeiro, “sorrateiras e velozes” como a própria guerra. Em tons escuros, abusando das sombras, desenham um cenário hostil e inóspito. O texto é enxuto, composto de frases que personificam a guerra: 

A guerra não ouve, não vê, não sente.

A guerra sabe sempre onde a temem e a esperam.

A guerra toma a forma brutal de todos os medos. […]

A guerra tem todos os rostos da maldade que impõe.

Representada por um homem fardado que escolhe seu rosto diante de uma coleção de máscaras e chapéus, a guerra revela, nas páginas duplas ilustradas, suas muitas caras. Uma delas se parece claramente com a máscara vestida por integrantes da Ku Klux Klan; outra lembra o chapéu de Napoleão Bonaparte. Em estilos que remontam a tempos, culturas e sociedades diversas, as caras da guerra revelam muito sobre ela e sobre nós. Novamente, Hannah Arendt: “Os tempos sombrios não só não são novos, como não constituem uma raridade histórica”. 

Tempos sombrios como o tempo que vivemos. Algumas imagens de A guerra são assustadoramente semelhantes a fatos da atualidade, em várias partes do mundo. A primeira ação da guerra personificada na obra por um militar é a queima de livros, já que a “guerra é incapaz de contar histórias”. Para ficar com apenas um exemplo recente, basta lembrar que mais de 300 mil livros foram destruídos desde 2016 pelo governo turco por seu caráter supostamente subversivo, incluindo títulos didáticos, de ficção e de história. 

Algumas imagens de ‘A guerra’ são assustadoramente semelhantes a fatos noticiados na atualidade, em várias partes do mundo

A imagem de aviões sobrevoando cidades e lançando bombas acompanha frases como “a guerra […] gosta de reinar entre ruínas”. Inevitável não associar tais imagens aos helicópteros policiais sobrevoando as comunidades cariocas, atirando a esmo e matando, em sua maioria, negros e pobres, incluindo crianças. Necropolítica a todo vapor, ou nas palavras do filósofo camaronês Achille Mbembe, em Necropolítica (N-1 Edições): “O modo como o poder de morte opera define como soberania a capacidade de decidir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é”. 

Seguem intermináveis as associações durante a leitura, disparadas pela relação potente entre texto e imagem. Qualquer que seja seu lado na trincheira, o leitor de A guerra acompanha os corpos tombarem, até a morte ocupar todos os espaços, configurando as páginas finais em vala comum. Sob os escombros, a frase que encerra o livro: “A guerra é o silêncio”.

É com a experiência de quem já viveu uma vitória popular contra a tirania que Letria nos adverte para o não esquecimento: “Para que a guerra nunca nos roube a voz, a liberdade e sobretudo a vida”.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #26 set.2019 em agosto de 2019.