Boris Schnaiderman (na fila de baixo, o segundo a partir da esquerda), com seus companheiros da FEB, junto a um canhão; Celso Furtado a bordo do General Meigs; Joel Silveira na Itália, em 1945 (Arquivo Boris Schnaiderman/Divulgação; Acervo pessoal/Reprodução de Jorge Bastos/Divulgação; Acervo Joel Silveira/Universidade Tiradentes/Divulgação)

História,

Escrever sob fogo cruzado

Três olhares brasileiros na Segunda Guerra: Boris Schnaiderman e Celso Furtado, convocados como pracinhas, e Joel Silveira, correspondente

23mar2026 | Edição #104

Só quem tem mais de oitenta anos pode ter alguma memória própria do tempo da Segunda Guerra Mundial. Tudo o que os outros 98% da população nacional lembram é de segunda mão. Contribui para o esquecimento a carência de livros brasileiros sobre o conflito mais destrutivo da história, do qual o país participou ativamente. 

Três volumes de relatos sobre a campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália foram lançados no ano passado, por ocasião dos oitenta anos do fim da guerra, e ajudam a atualizar o conhecimento sobre o tema: Guerra em surdina, de Boris Schnaiderman; O tenente, de Celso Furtado; e O inverno da guerra, de Joel Silveira. 

Schnaiderman, sargento de artilharia (responsável pela pontaria dos canhões), e Furtado, tenente, lutaram entre os mais de 25 mil militares enviados pelo Brasil para combater ao lado do Exército norte-americano. O repórter Joel Silveira foi um dos poucos jornalistas autorizados pelo governo Getúlio Vargas a cobrir a expedição, como enviado dos Diários Associados, maior conglomerado de mídia do país à época. Os três se tornaram figuras centrais em seus respectivos campos na vida cultural brasileira depois que voltaram da missão.

Fotografia do período em que Boris Chnaiderman passou na guerra (Arquivo Boris Schnaiderman/Divulgação)

O romance de Schnaiderman recebeu da Editora 34 uma quinta edição, revista pelo autor pouco antes de sua morte em 2016, como conta no posfácio a filha, Miriam Chnaiderman, cineasta e psicanalista. Nascido na Ucrânia em 1917, Boris veio com a família para o Brasil em 1925. Naturalizou-se em 1940 e foi convocado pelo Exército para lutar na guerra. Levou vinte anos para concluir Guerra em surdina e outros tantos para escrever um segundo livro de memórias do conflito, Caderno italiano (Perspectiva, 2015). Desde 1944, porém, já traduzia autores russos, o que o levou a ser contratado como professor de letras na USP em 1960, embora fosse formado em agronomia. Tornou-se referência na cena literária brasileira como tradutor de Dostoiévski, Tolstói, Górki e Maiakóvski (com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos), entre outros.

‘Vá para a guerra mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias’

O tenente, de Celso Furtado (1920–2004), é uma nova compilação de textos escritos pelo economista e ex-ministro do Planejamento e da Cultura, organizada por sua mulher, a jornalista Rosa Freire d’Aguiar. Como explica na apresentação, ela reuniu textos publicados e inéditos: os contos do capítulo “De Nápoles a Paris” — publicado em 1946, fora de catálogo — e algumas críticas da imprensa da época; memórias, no capítulo “Cadernos de um expedicionário”; e cartas enviadas e recebidas pelo então pracinha, agrupadas em “Correspondência de guerra”.

Nascido na Paraíba e estudante de direito no Rio ao ser convocado, Furtado recebeu duas condecorações como herói de guerra. De volta ao Brasil, abandonou o direito, dedicou-se ao planejamento econômico e tornou-se o primeiro ministro do Planejamento (1962–64), no governo João Goulart, derrubado pelo golpe de 1964. O primeiro ditador, marechal Castelo Branco, que também servira na FEB, cassou suas comendas. Após o exílio, Furtado foi ministro da Cultura entre 1986 e 1988, no governo José Sarney, e, nessa condição, recusou uma nova honraria militar, afirmando não poder aceitá-la enquanto as anteriores seguissem cassadas. Sarney devolveu as duas medalhas.

Carteira do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), de onde Celso Furtado saiu segundo-tenente da reserva (Acervo pessoal/Reprodução de Jaime Acioli/Divulgação)

Os contos de Furtado tratam de personagens envolvidos no conflito, como o próprio autor, em situações verossímeis: o soldado que se apaixona platonicamente por uma italiana, a segue e se vê no meio de um tiroteio entre partigiani e militares alemães; o pracinha de coração boníssimo que é preso após matar a sangue-frio um prisioneiro alemão em vingança. 

Jornalismo literário

O inverno da guerra, de Joel Silveira (1918–2007), é o título mais conhecido dos três, tanto que ainda se encontram em livrarias exemplares da edição de 2005, quando o livro integrou a coleção Jornalismo de Guerra, da Objetiva. Com a incorporação da editora pela Companhia das Letras, a nova edição migrou para a coleção Jornalismo Literário e ganhou dois acréscimos: um bloco com fotografias de Silveira e outros jornalistas brasileiros na Itália e um posfácio do jornalista Sérgio Augusto. 

Nascido em Sergipe, Silveira já era conhecido pelo estilo venenoso de suas reportagens, que lhe valeu o apelido de “Víbora”, dado pelo patrão Assis Chateaubriand, o “Chatô”. A ditadura do Estado Novo vetou o envio de Carlos Lacerda (então apenas repórter) como correspondente dos Diários Associados. Em seu lugar, Chatô escolheu o Víbora: “Vá para a guerra mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias”, teria recomendado.

Joel Silveira entrevistando “Fritz”, um soldado da Wehrmacht de 42 anos feito prisioneiro em Lizzano in Belveder, Itália (Agência Nacional/Arquivo Nacional/Divulgação)

Os três lançamentos compõem um arco instigante: Boris Schnaiderman escreveu um romance (ficção); Celso Furtado transita entre ficção (contos) e não ficção (cartas e relatos em tom jornalístico); já Joel Silveira oferece um livro de reportagens, não ficção pura. Mas, por serem livros brasileiros, todos parecem carregar, em algum grau, o DNA da crônica, essa forma de não ficção literária que se adaptou tão bem por aqui que há quem a chame de “jabuticaba”. Talvez um estudioso possa sustentar que o livro de Schnaiderman é um conjunto de crônicas que, isoladas, funcionam e, juntas, formam um romance. Também os contos de Furtado, na primeira parte de O tenente, “mais parecem crônicas”, segundo observa Rosa Freire d’Aguiar. 

Silveira chegou à Itália como repórter e voltou ao Brasil para se afirmar como cronista popular. O inverno da guerra ocupa lugar importante em sua trajetória, pois algumas reportagens já apontam para esse viés, como se fossem um flerte com o gênero. Silveira é tão prestigiado que este é seu terceiro título na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras, atrás apenas do americano Gay Talese, com seis volumes, entre 37 livros. Os outros dois títulos do brasileiro na coleção são A feijoada que derrubou o governo (2004) e A milésima segunda noite da avenida Paulista (2003). 

O tenente e o cronista

Se o mundo é pequeno, a FEB era menor do que muitos bloquinhos de Carnaval. Ao aportar em Nápoles, Furtado é citado em crônica de Rubem Braga (1913–1990) sobre a chegada do navio que trazia mais um contingente de brasileiros. Enviado à Itália pelo Diário Carioca, Braga e suas sobrancelhas grossas se destacam na foto do pequeno time de imprensa brasileira incluída no novo capítulo de imagens do livro de Silveira. 

Braga já escrevia crônicas desde os anos 30 e “foi decerto quem deu o maior grau de autonomia estética a esse gênero entre nós, tornando-se, por isso, um modelo de cronista”, como lembra Davi Arrigucci Jr. no ensaio “Fragmentos sobre a crônica” (Enigma e comentário, Companhia das Letras, 1987). Braga não tinha apreço pelos “fatos importantes” para os demais correspondentes, preferindo, nas palavras de Arrigucci, “o evento miúdo do cotidiano” — as histórias pessoais dos soldados.

Joel Silveira na Itália, em 1945 (Acervo Joel Silveira/Universidade Tiradentes/Divulgação)

No caso do encontro com Furtado, a referência é seu endereço no Rio; sobre o amigo Frederico Amado, Braga descreve: “é filho do escritor Gilberto Amado manda abraços para os irmãos (vai um meu, especial para o confrade amigo e velho fiador Genolino)”. Ao passar por seu filtro, o maior conflito da história se reduz a um encontro casual, a uma conversa de botequim. “As crônicas de Braga não informam sobre o andamento da campanha… mas são excepcionais como literatura”, resume o jornalista Ricardo Bonalume Neto (1960–2018) em seu livro reportagem A nossa Segunda Guerra (Contexto, 2021). É essa relação tênue com os fatos que faz a crônica, às vezes, se confundir com a ficção.

É interessante a consagração de dois correspondentes de guerra entre os mais populares jornalistas literários do país, reforçando a ideia do impacto duradouro do jornalismo de guerra sobre a cena cultural. O mesmo ocorre em outros países, onde ex-correspondentes se tornam figuras centrais nas décadas seguintes (Winston Churchill, Ernest Hemingway, Evelyn Waugh, George Orwell, Walter Cronkite, Curzio Malaparte, Yasushi Inoue, entre tantos outros). 

Ficção e objetividade

Os três livros abordam de formas distintas episódios marcantes da trajetória da FEB. É revelador, por exemplo, como a ficção de Schnaiderman narra fatos objetivos, como a chegada de um batalhão norte-americano ao primeiro grande acampamento brasileiro, instalado num “fundo de cratera” (para sair era preciso subir encostas): 

Eram quase todos grandes e robustos, de pigmentação que variava do preto retinto ao mulato claro. […] Os oficiais eram na maioria brancos e mantinham-se distantes dos comandados, sem as familiaridades que às vezes se podia ver entre oficiais e soldados americanos brancos.

O autor conta o intenso convívio entre brasileiros e norte-americanos: “Os pretos vinham ouvir sambas, os brasileiros esgueiravam-se na mata para ouvir ‘Dixie’”. Depois de semanas entediantes, sem grandes ações militares, com escapadas para aventuras e bebidas em Nápoles, veio a ordem de marchar rumo à frente de batalha.

Fotografia do período em que Boris Schnaiderman passou na guerra (Arquivo Boris Schnaiderman/Divulgação)

Em A nossa Segunda Guerra, Bonalume Neto destaca o significado militar desse momento ao lembrar que os brasileiros começaram a atuar em um setor relativamente tranquilo, para serem testados. Se tivessem fracassado, teriam ficado ali até o fim da guerra, como ocorreu com as tropas da pouco aguerrida 92ª Divisão de Infantaria americana, formada por soldados negros comandados por brancos, reproduzindo no front a segregação vigente nos EUA. Dali, a FEB foi transferida para a região central da frente e “cumpriu as missões que lhe foram confiadas”. 

Bonalume Neto discute nesse trecho a avaliação predominantemente negativa da participação brasileira veiculada em As duas faces da glória: a FEB vista por seus aliados e inimigos, de William Waack (Planeta, 2015), baseado em arquivos norte-americanos e alemães. Embora aponte problemas de cultura militar, organização e equipamento, o retrato de Bonalume é mais positivo, o que ele atribui ao fato de ter estudado mais história militar do que Waack.

Depois do conflito, Schnaiderman teve pesadelos por muitos anos, acordando aos gritos

O repórter destaca ainda a falta de estudos militares isentos sobre a FEB, lacuna que atribui às duas ditaduras brasileiras: o Estado Novo, durante a campanha da Itália, e o regime instaurado em 1964, cujo primeiro presidente foi justamente um veterano da FEB, Castelo Branco. Isso teria gerado censura a análises críticas e afastado pesquisadores civis, pouco dispostos a se aproximar de instituições militares sob ditadura. Assim, são raros os livros de historiadores militares, em geral laudatórios, entre os quais ele menciona Depoimento de oficiais da reserva sobre a FEB (Ypê, 1949). Um dos pontos centrais da obra é a descrição do revés brasileiro na batalha de Sommocolonia, que marcou um contra-ataque alemão. 

O livro, baseado em depoimentos de oficiais, reconstitui os acontecimentos. Já os três autores aqui comentados não tratam desse pequeno desastre. No calor da hora, Schnaiderman e Furtado estavam dentro do conflito e podem não ter tido distância para percebê-lo por inteiro; Silveira escrevia sob censura militar na Itália e, uma vez no Brasil, enfrentava nova triagem.

Carta de Celso Furtado à mãe, Maria Alice Furtado, em que o filho fala de viagens e planos para a volta (Acervo pessoal/Reprodução de Jorge Bastos/Divulgação)

Depois da guerra, Schnaiderman teve pesadelos por muitos anos, acordando aos gritos com ordens urgentes. Furtado “não gostava de falar da guerra”, fugia do tema; mas, ao voltar ao Brasil, mudou de rota, largou o direito e se decidiu pela administração pública. Silveira escreveu: 

Naqueles quase nove meses perdi parte de minha mocidade, ou o que restava dela. A guerra, repito, é nojenta. E o que ela nos tira (quando não nos tira a vida) nunca mais nos devolve.

São sinais do estresse pós-traumático, presente tanto em militares quanto em jornalistas. Curiosamente, é esse trauma que leva Schnaiderman a escolher a ficção como forma de purgar o sofrimento de maneira “viva e envolvente”, do jeito que ele próprio gostava de ler.

Quem escreveu esse texto

Leão Serva

É diretor internacional de jornalismo e correspondente em Londres da TV Cultura e autor de A fórmula da emoção na fotografia de guerra (Edições Sesc).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.

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