História,
‘Um lobby poderoso diz que Israel não pode ser julgado’
Historiador israelense Ilan Pappe fala sobre sionismo, genocídio, limpeza étnica e a máquina de propaganda do governo de Israel
22set2025 | Edição #98Ilan Pappe nasceu em Haifa, em 1954, seis anos depois da criação do Estado de Israel e do início da Nakba (Catástrofe, em árabe), como é conhecida a expulsão de centenas de milhares de palestinos de suas terras. Anos mais tarde, ao se tornar historiador, ele chegaria à conclusão de que os eventos de 1948 eram parte do projeto maior de limpeza étnica da Palestina engendrado pelo sionismo — que desembocou na política de genocídio atual.
Figura importante entre os “novos historiadores”, intelectuais israelenses que questionam o discurso sionista e sustentam uma visão crítica sobre a história da Palestina e a criação de Israel, Pappe chegou a ser professor sênior da Universidade de Haifa, mas teve que se exilar na Inglaterra por seu posicionamento antissionista, explicitado em livros como Dez mitos sobre Israel, publicado no Brasil pela Tabla em 2022, Brevíssima história do conflito Israel-Palestina e A maior prisão do mundo: uma história dos territórios ocupados por Israel na Palestina, estes lançados em 2025 pela Elefante.
Entre o final de julho e o começo de agosto, Pappe esteve no Brasil para lançar seus livros e participar de mesas na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), na Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes) e na Universidade de São Paulo — não sem pressões de entidades pró-Israel contra as participações da persona non grata. A Flipei teve o contrato de uso da Praça das Artes cancelado de última hora “em razão do uso político por parte de seus organizadores”, segundo nota da Fundação Theatro Municipal, gestora do equipamento público. O diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP recebeu carta de uma organização judaica expressando preocupação com a palestra de Pappe. Já a Flip recebeu “manifestações elegantes”, segundo o diretor artístico Mauro Munhoz, mas bancou a independência da curadoria, em um dos maiores acertos desta edição da festa literária.
No último dia de julho, um antes da concorrida mesa de Pappe na Flip, o historiador recebeu a Quatro Cinco Um para esta entrevista na pousada em que estava hospedado em Paraty.
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Houve pressão para evitar sua participação em eventos no Brasil este ano, como a Flip e a Flipei. O movimento nos bastidores é uma estratégia do governo israelense?
Sim, eles preferem não atacar diretamente em alguns casos. O governo de Israel não quer nenhum desafio à sua propaganda, quer o palco inteiro só para si — e ainda há um número
suficiente de pessoas para apoiá-lo.
Com a situação atual em Gaza, começamos a colocar outras versões no palco e a ouvir vozes que discordam do discurso oficial?
A Palestina e Gaza em particular ganharam mais atenção pública nos últimos dois anos por motivos infelizes. Quando o secretário-geral da ONU diz que é preciso entender o [ataque do Hamas em] 7 de outubro de 2023 dentro de um contexto histórico, livros como os meus se tornam mais importantes. As pessoas percebem que os ataques a Israel não começaram do nada e procuram as explicações.
‘O ataque do Hamas foi o álibi perfeito; o objetivo de eliminar os palestinos sempre esteve ali’
Isso aumentou a procura, por exemplo, de A limpeza étnica da Palestina, [livro-ensaio] sobre a conexão entre o que aconteceu em 1948 e o genocídio de 2023. Também acho que as pessoas estão mais conscientes sobre a propaganda de Estado replicada pela mídia. E Dez mitos sobre Israel também virou popular, pois conta o que não aparece nos jornais de forma breve. Enfim, os historiadores se tornaram relevantes e o tipo de história que eu faço também se tornou, mas foi preciso um genocídio para isso acontecer.
O que seus livros mostram sobre as raízes históricas da guerra atual?
Para começar, que o sionismo é um projeto da Europa, que não sabia lidar com sua população judaica. Antes da Segunda Guerra, a maioria dos sistemas políticos era antissemita, não aceitavam os judeus como seus iguais. O crescimento do nacionalismo piorou as coisas. A ideia era que, se a Europa não queria aceitar os judeus, deveria construir uma nação judaica fora de seus países. Mas isso não era só um projeto europeu; era apoiado por vários intelectuais judeus, pelos fundamentalistas cristãos etc. A escolha da Palestina pode ter uma justificativa bíblica, mas o que fizeram essencialmente foi construir um Estado europeu-judaico no coração do mundo árabe à custa dos palestinos e sem perguntar nada para eles.
As consequências foram imediatas?
Os sionistas decidiram que o único caminho para se estabelecer era criar um Estado exclusivamente judeu, o que significava se livrar da população palestina. Em 1948, tiveram a oportunidade histórica de fazer isso e conseguiram se livrar de metade dessa população. O que está acontecendo hoje tem relação direta com a guerra árabe-israelense de 48: antes disso, não havia a Faixa de Gaza — esse megacampo de refugiados criado para expulsar os palestinos de sua terra. Hoje, 70% da população de Gaza é formada por descendentes dos refugiados dessa guerra e metade dela tem menos de vinte anos. Eles só conhecem a realidade de viver em uma prisão. É preciso estudar diferentes períodos da história de Israel para entender com mais clareza por que os palestinos fizeram [os ataques], e entender não significa justificar tudo o que fizeram.
Essa história ajuda a entender também a reação de Israel?
Também. Não foi só retaliação, foi o desejo de se livrar dos palestinos, como se o 7 de outubro tivesse dado ao governo de Israel a licença para fazer a limpeza étnica por meio de um genocídio. O ataque do Hamas foi o álibi perfeito; o objetivo de eliminar os palestinos sempre esteve ali. Se os
ataques não tivessem acontecido, procurariam outro pretexto.
Com o massacre atual executado pelo exército israelense, mudou a opinião pública a respeito do país?
Israel tinha a opinião pública a seu favor e isso está mudando, mas o governo não se preocupa com isso.
Por isso atacam civis, escolas, hospitais tão abertamente?
Em 1948, Israel cometeu um crime terrível contra os palestinos e o mundo assistiu em silêncio. A mensagem foi: “Se fazem isso por causa do que sofreram na Europa, é ok”. Como se houvesse uma licença especial para cometer crimes por ter sido vítima do holocausto. Além disso, somos doutrinados para achar que os palestinos querem nos destruir, quando é Israel que quer destruir os palestinos.
E quanto ao discurso que equipara críticas a Israel e ao sionismo com o antissemitismo?
A máquina de propaganda israelense instrumentaliza o antissemitismo. É fácil rebater, mas as pessoas não querem ouvir: há o judaísmo, que é uma religião, e o sionismo, que é uma ideologia. Não são a mesma coisa. O sionismo se desenvolveu como uma ideologia centrada no racismo, no colonialismo e na ocupação. Não foi sempre assim, mas foi o que se tornou. Muitas pessoas se opõem ao sionismo por serem contra o racismo e o colonialismo, não por serem contra os judeus. Aliás, acredito que, na América do Norte, há mais cristãos sionistas do que judeus sionistas, e ser contra os cristãos sionistas não
significa ser contra o cristianismo. Mas o fato é que a acusação de antissemitismo, especialmente quando é falsa, intimida.
Por outro lado, há antissemitismo…
Totalmente. E muitos países antissemitas apoiam Israel. O primeiro--ministro húngaro, Viktor Órban, é um completo antissemita e é o melhor amigo de Israel. Partidos da extrema-direita fascista na Europa são pró-Israel. No fundo, Israel é o sonho do antissemitismo, porque sua existência significa que os judeus não estarão vivendo na Europa. E eu não acredito que só algumas formas de racismo devam ser combatidas. Árabes e muçulmanos sofrem muito mais racismo na Europa do que os judeus e temos que lutar contra isso. Se tivermos sucesso na luta contra todo e qualquer racismo, venceremos o antissemitismo.
Cometendo todas essas violações aos direitos humanos, Israel mesmo não estaria alimentando o antissemitismo?
Houve uma elite política, sobretudo quando os trabalhistas estavam no poder, que se preocupava com a imagem do país. Mas o sistema político mudou drasticamente em 2000 e, no lugar dos sionistas liberais, temos uma elite política que não dá a mínima para o que os outros países pensam — ou por achar que Deus está do seu lado ou por enxergar o resto do mundo como antissemita. E, claro, também não ligam para a opinião mundial porque há alguém como Trump na Casa Branca. Enquanto tiverem bons amigos no governo dos Estados Unidos, não importa que o Brasil ou outro país se oponha às ações de Israel.
Mas, ainda assim, há um esforço político para justificar ou relativizar o genocídio perante o mundo?
Há lobbies poderosos em todo o Ocidente que afirmam que Israel não pode ser julgado como se julgam outros países. Mas acho que eles vão pagar um preço alto por isso, embora não imediatamente. Eles mesmos estão destruindo o projeto sionista, mas não percebem porque alguns países temem criticar Israel e também porque há muitos políticos, como Trump, Órban ou Bolsonaro, que os apoiam. Escrevi sobre isso no meu próximo livro, Lobbying for Zionism, que deve sair no ano que vem.
Além da postura de líderes políticos, a opinião pública fará a diferença?
Eles nunca se preocuparam com os cidadãos, só se importam com os líderes políticos, que podem comprar com dinheiro, intimidação, terror. Até o primeiro ano do genocídio isso funcionou. Mas, depois de dois anos, está acontecendo o que não esperavam: estamos vendo que a opinião de cidadãos é importante. Países como Colômbia, Espanha e até França e Reino Unido estão mudando suas posições.
Os protestos de israelenses em seu país têm causado algum efeito?
Há pequenos protestos explicitamente contra o genocídio, mas os participantes são logo presos pela polícia. Há também protestos contra Netanyahu, acham que ele quer mudar todo o sistema político em Israel, o que é verdade. E os que pedem o fim da guerra, a libertação dos reféns, mas não o fim do genocídio.
Há uma solução ou caminho possível?
No curto prazo, teremos um país que continuará a vitimar palestinos, e o resto do mundo vai demorar a reagir. As pessoas continuarão falando da solução de dois Estados, mas isso não é mais viável: há 800 mil colonos judeus na Cisjordânia. Mas, no longo prazo, sou otimista.
‘Muitos se opõem ao sionismo por serem contra o colonialismo, não por serem contra os judeus’
O que Israel está fazendo agora é afastar judeus de outros países; os jovens judeus não querem estar associados ao genocídio. E uma hora os estadunidenses, mesmo os apoiadores de Trump, não vão querer dar seu dinheiro a Israel. Enquanto isso, espero que os líderes palestinos consigam superar seus problemas, se unir e representar melhor seu povo. São os palestinos que vão liderar essa mudança.
É difícil, estamos num momento ruim não só no Oriente Médio, mas a história é cíclica. Na ascensão do nazismo, as pessoas achavam que era o fim do mundo, mas as coisas mudaram. Parecia que a ditadura militar no Brasil duraria para sempre, mas passou. Precisamos ter esperança na capacidade humana de promover mudanças.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “‘Um lobby poderoso diz que Israel não pode ser julgado’”
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