História, Literatura,
Escritoras e viajantes
Historiadora mapeia a escrita e a trajetória incomum da brasileira Nísia Floresta e da francesa Adèle Toussaint-Samson em pleno século 19
09dez2025 • Atualizado em: 17dez2025Nos idos de 2011, resolvi investigar a experiência de mulheres escritoras no Oitocentos. A minha ignorância era tanta que a pergunta que me motivou era se existiam escritoras antes do século xx, pois eu apenas conhecia uma. […] Como era possível? Todos sabiam da existência de uma Jane Austen na Inglaterra, mas talvez parecesse um fenômeno isolado.
É assim que Ludmila de Souza Maia inicia os agradecimentos de Viajantes de saias: gênero e literatura em Adèle Toussaint-Samson e Nísia Floresta, publicado pela Cosac a partir da tese de doutorado da historiadora.
Rapidamente, descobriu que essa “ignorância” não deve ser individualizada, pois é, na verdade, sistêmica. Poucas mulheres fazem parte do cânone literário que nos é ensinado — e isso não deixa de ser um projeto político. Daí a importância de que uma pesquisa como a de Maia chegue a um público além dos muros da academia, ajudando a preencher lacunas deixadas pela amnésia intelectual.
Um novo mundo se abriu para a pesquisadora assim que conheceu a escrita das mulheres do século 19. Foi então que se debruçou sobre a vida e a obra de duas escritoras viajantes: sua conterrânea potiguar Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) e a francesa Adèle Toussaint-Samson (1826–1911).
Apesar da defesa da domesticidade feminina, Floresta e Samson tiveram a vida marcada por viagens
A primeira é considerada uma das grandes educadoras brasileiras, não só por ter aberto uma escola para meninas no Rio de Janeiro, mas também pela publicação de Opúsculo humanitário (1853) — agora uma das leituras obrigatórias do vestibular da Universidade de São Paulo — e de relatos de viagem, como Itinerário de uma viagem à Alemanha (1857) e Três anos na Itália seguidos de uma viagem à Grécia (1864). Já a segunda era filha de um importante ator do cenário artístico parisiense e esposa de um bailarino que veio trabalhar na Corte Portuguesa no Brasil, onde ficou por cerca de dez anos. De volta à França, publicou o livro de poemas Épaves, sourires et larmes (1870) e, vinte anos depois da estadia no Rio de Janeiro, o relato de viagem Une parisienne au Brésil (1883).
Maia recupera a obra e a trajetória dessas duas contemporâneas, que chegaram a viver ao mesmo tempo no Rio de Janeiro e em Paris, mas que aparentemente nunca se encontraram. A pesquisadora destrincha suas biografias enquanto mapeia e analisa cada um dos escritos, sem deixar de contextualizá-los. É uma pesquisa de fôlego que alia uma variedade de fontes — de jornais da época a correspondências — e que inclui arquivos do Brasil e da França. Além disso, uma pesquisa iconográfica ajuda a situar o leitor no mundo em que Floresta e Samson viveram.
Contradições
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Um dos pontos fortes da narrativa é a forma como Maia apresenta as contradições vividas pelas duas escritoras. Ambas defendiam o direito das mulheres à educação — nos anos 1800, algo revolucionário por si só —, mas essa formação se destinaria a produzir mães e esposas melhores, contribuindo para a criação de cidadãos decentes.
Apesar da defesa da domesticidade feminina, Floresta e Samson tiveram a vida marcada por viagens, deslocamentos e independência — ainda que a liberdade da primeira tenha vindo, em parte, por ter se tornado viúva jovem e que a segunda tenha acompanhado a família ao Brasil.
Outras contradições surgem quando as escritoras abordam a escravidão no Brasil. Como a pesquisa de Maia analisa os registros de Floresta e Samson ao longo de décadas, é possível perceber como as posições delas mudam com o tempo. A francesa se mostrou escandalizada quando, ao aportar no Rio de Janeiro, viu a quantidade de escravizados negros e o modo como eram maltratados pelos seus senhores, e se declarou a favor do fim da escravidão. Apesar disso, valeu-se de mão de obra escravizada, mesmo que alugada, para ajudar na lida doméstica.
Já Floresta, por ter nascido e sido criada em uma sociedade escravocrata no Rio Grande do Norte, só percebeu as mazelas do sistema escravista ao fazer sua primeira viagem transatlântica: à França, onde havia outros tipos de mão de obra.
Ali, se deu conta da desumanidade da escravização, despertada também pelo movimento abolicionista na Europa e por A cabana do Pai Tomás (1852), de Harriet Beecher Stowe — romance hoje questionável sobre o tema, mas que incitou várias mulheres brancas da época a se unir em favor da abolição da escravatura.
Em Opúsculo humanitário, a autora potiguar admite os males da escravidão, mas nunca defende a abolição com todas as letras — o ensaio, aliás, se lido hoje, apresenta posicionamentos controversos sobre negros e indígenas. Foi só no final da vida que Floresta defendeu publicamente o fim do regime escravista.
Na leitura, é perceptível também como as opiniões das autoras mudaram de acordo com o período em que viveram em cada país. Se Floresta passou a criticar o Brasil quando retornou da França, também apontava as “incivilidades” dos franceses ao se mudar definitivamente para lá, chegando a ver o Brasil como a “nação do futuro”. Algo parecido acontece com Samson, que elogia desmedidamente as belezas naturais brasileiras em comparação com as paisagens francesas.
Mulher autor
Em suas 398 páginas, Viajantes de saias apresenta uma contradição fundamental que perpassa todas as seções: o fato de existirem escritoras.
Não é mais discutível, mas nos anos 1850 era um contrassenso a ideia de que mulheres escreviam. Na língua francesa, inclusive, não havia as palavras écrivaine e auteure para designar “escritora” e “autora” — se usava femme auteur, ou seja, “mulher autor”. Não se concebia um termo específico para descrever mulheres que escrevem — um exemplo de como, por vezes, a linguagem conforma a realidade ou está aquém dela.
Era comum também que as mulheres buscassem justificar por que escreviam, sendo bastante modestas nos seus relatos e conquistas — algo que não mudou muito. Floresta e Samson eram tratadas pela imprensa como excepcionalidades. Ambas tinham suas obras criticadas com condescendência por homens, que destacavam o “estilo simples” e as “páginas poéticas”. Muitos dos que escreviam para os jornais não sabiam como defini-las, descrevendo-as como “masculinizadas” — afinal, escrever era uma atividade viril.
Na língua francesa, não havia as palavras ‘escritora’ e ‘autora’ para descrever mulheres que escreviam
Alvo desse tipo de analogia, Floresta chegou a ser chamada por um jornal de “hermafrodito”, como eram designadas pessoas intersexo. A visão de ineditismo se manteve décadas depois de sua morte, como se vê na descrição que Gilberto Freyre fez dela em Sobrados e mucambos (1936):
Nísia Floresta surgiu — repita-se — como uma exceção escandalosa. Verdadeira machona entre as sinhazinhas dengosas do meado do século XIX. No meio de homens a dominarem sozinhos todas as atividades extradomésticas, as próprias baronesas e viscondessas mal sabendo escrever, as senhoras mais finas soletrando apenas livros devotos e novelas que eram quase histórias do Troncoso, causa pasmo ver uma figura como a de Nísia.
Isso também vale para serem viajantes, uma vez que o deslocamento era considerado estritamente masculino.
Floresta escreveu em Itinerário de uma viagem à Alemanha: “Meu espírito ama as viagens, meu ser físico nelas se compraz, mas meu coração nunca será viajante”. A afirmação pode ser mera estratégia retórica para evitar julgamentos, pois a autora viajou incessantemente pela Europa ao lado da filha Lívia, sem a companhia de um homem.
Ao mesmo tempo, deleitava-se com sua excepcionalidade, principalmente por ser uma mulher brasileira que escrevia em francês e italiano sobre suas passagens por países europeus.
Viajantes de saias mostra que Floresta e Samson não eram “mulheres à frente do seu tempo”, nem estavam tão sozinhas assim — um dos méritos da pesquisa, que lembra o ensaio “A obrigação de ser genial”, que dá título à coletânea da argentina Betina González (Bazar do Tempo, 2024, trad. de Silvia Massimini Felix). No texto, González comenta que é comum que mulheres escritoras sejam separadas em duas categorias: a do duplo padrão e a da anomalia. Na primeira, a escrita de qualquer mulher é resumida pelo descritivo de “literatura feminina”, diferenciada apenas pelo seu gênero. Já a segunda categoria, na qual estariam Floresta e Samson, seria a das exceções à regra, vistas como “excêntricas”, “anômalas” e “não femininas”. Ao situar essas duas mulheres em sua época, Ludmila de Souza Maia desmistifica a visão que se tem sobre ambas, compreendendo-as pelo que eram: simplesmente escritoras.
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